Novembro 27, 2008...3:45 pm

Docilidade

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Na segunda série, estudei com a Grasiela. Era alta, tinha os cabelos mais cheirosos e macios que eu já encontrei e usava óculos de grau. Grasiela era muito bonita. Seu problema era ser deficiente mental. Não que os deficientes sejam um problema. Mas, sem dúvidas, ela arranjou altas confusões estudando com crianças cruéis, chamadas de “normais”.

Grasiela não sabia a hora de parar a brincadeira. Era mais velha que todo mundo na sala, mas com idade mental de muito mais nova. Fazia comentários estúpidos durante as aulas e as crianças riam dela sem parar. Eu também ria, mas depois sentia a fisgada no coração: e se fosse comigo? Isso me fazia parar de rir na hora. Olhava com pena para Grasiela. Quando ela começava a falar alguma coisa que eu sabia que renderia brincadeiras de mal gosto, olhava para ela pedindo em silêncio: pare, pare, pare antes que eles riam mais de você.

Um dia, no recreio, Grasiela me viu olhando-a com compaixão. Veio falar comigo. Disse: “Seus cabelos são tão bonitos!” Fiquei orgulhosa, nunca ninguém havia elogiado os meus cabelos. Eles não tinham nada de mais. A garota perguntou quê xampu eu usava. “Ué, qualquer um”, respondi. Ela riu, eu ri. Pediu para tocar nos meus cabelos. Receosa, deixei. Com a mão grande e ossuda, acariciou minha cabeça. Falei: “Fico com sono quando mexem nos meus cabelos”. Pronto. Os olhos de Grasiela brilharam. Virou minha amiga.

Mas a amizade de Grasiela me cansava, ela só sabia falar de cabelo, xampu e outros produtos de beleza. E meus amigos começaram a reparar na nossa amizade. Comecei a virar piada também. Alguns diziam: “Olha lá a Vanessa, agora ela é defensora dos animais”. Grasiela tentava me defender, mas a coisa era por demais vergonhosa. Eu dizia: “Grasiela, pare, deixa eles”. Ela sempre deixava.

Mesmo assim, pensei que estava na hora de parar de dar trela para a garota. Estava se folgando. Telefonava para minha casa, mandava bilhetinhos a aula inteira, queria me ver depois das aulas, tinha ciúmes dos meus outros amigos. Pedi para Grasiela não me sufocar, ela não entendeu. No dia seguinte, sua mãe apareceu no colégio, toda feliz, querendo conhecer a “Vanessa, nova amiguinha da Grasiela”. Foi uma das primeiras rachaduras no meu coração de criança.

Eu não entendia o que era ser deficiente. Grasiela era deficiente mental, então, eu achava que isso era ser estúpido. Mas hoje, catorze anos depois – catorze anos sem ver a Grasiela – estou fazendo uma reportagem sobre o tema. Lembrei dela. Não a encontrei como queria, mas encontrei outros como Grasiela. Hoje vejo o quanto ela era inocente e dócil. Nós, crianças eternas, demoramos para entender isso.

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