Esses dias, depois de um expediente cansativo, voltei para casa e senti-me mais exausta do que o normal. Foi aí que lembrei do meu calmante. Eu o havia adquirido há algumas semanas. Foi caro. O escolhi a dedo. Aquele seria o meu calmante especial. Não, não se trata de medicina – pelo menos não da convencional. O meu calmante é uma bela flauta transversa Yamaha N211.
Comprei de segunda mão. Tinha marcas de outros sopros, outras alegrias. O histórico de ex-namorados que todos têm.
Naquele fim de dia cansativo, tornei a flauta parte de mim. Assoprei pela sua embocadura sete horas de cansaço, os telefonemas que não consegui fazer, os e-mails que voltaram, os nãos que levei na cara. Assoprei tudo de ruim. E a flauta me devolveu dó, ré e mis suaves, sorridentes, compreensivos. Me sinto mais viva com a flauta em mãos. O instrumento é o braço que falta em mim. O terceiro olho. A flauta perdoa os meus dentes fora do lugar e ama as minhas unhas com esmalte descascado. Ela é o meu nome do meio, o meu adjetivo, a chuva do meu deserto particular.
Me sinto viva.
E você? Qual é a sua flauta?




A minha flauta é um instrumento um tanto quanto prejudicial ao corpo humano: o cigarro. Não há nada que me acalme mais do que dar algumas tragadas ao fim de um dia estressante.
Um abraço.
que lindo