A Pior Jornalista

Eu sou a pior jornalista de todos os tempos.

Daquelas que acham que não existe imparcialidade.

Sou obsessiva pelos detalhes. Mas isso não significa que eu seja perfeccionista – não, pelo contrário. Eu sou ênfase para as pequenezas e esqueço o propósito da reportagem, porque no fim das contas aquilo era um grande clichê, e eu odeio fazer parte do carnaval de clichês e mesmices que é a imprensa brasileira.

Eu adoro o leitor. Por isso, enquanto escrevo faço de conta que estou falando com ele. Relatando perto de seu ouvido o cheiro das coisas, o sabor das vozes, o violino dos acontecimentos, a lágrima da pauta difícil. Eu tento levar o leitor para passear comigo, enquanto redijo matérias. Mas, geralmente, é foda brigar com alguns jornalistas intitulados de editores, que dão backspace no melhor de um texto.

Adoro falar palavrões, e acho que alguns se encaixam muito bem em determinadas reportagens. É uma hipocrisia escrever tudo certinho, enquanto a gente faz um monte de merda pela vida. Porra, afinal, o que é o jornalismo? Um teatrinho de fantoches? Fantoches brincando de Jornal Nacional? A formalidade, geralmente, é ridícula.

E eu já fui enganada por entrevistados. Fui ingênua de acreditar naquilo que meu interlocutor me disse, enquanto piscava os olhos inocentemente. Por isso, sou um lixo de jornalista. Eu não tenho espírito investigativo, acho isso um saco. Muitas vezes deixei de averiguar a veracidade daquilo que me falaram.

Já tive vontade de escrever correndo as matérias e esfregar na cara dos editores, mandando eles ficarem calmos com a porra do deadline. Já tive vontade de colocar o contato de um consultório de psicologia, junto com a matéria.

Eu sou a pior jornalista de todos os tempos porque acho nojento sair por aí de crachá. Tem um monte de repórter que acha que um crachazinho vai dar crédito, respeito ou uma noitada com um outro jornalista carente.

Mas, apesar de ser a pior jornalista da face da terra, eu gosto de alguns aspectos da profissão. O melhor deles é a possibilidade de dar o poder de narrativa para aqueles que não tem. É encontrar aquela pessoa que se fudeu um monte na vida, e que agora vai aparecer para a cidade inteira, contando sua história e injustiças. Aí, é uma beleza só. É de ir dormir tranquilo.

Ser uma merda de jornalista tem seu lado maravilhoso: o de não ligar para as convenções da profissão; de desrespeitar, com um sorriso no coração, a hierarquia idiota da redação; de valorizar aqueles detalhes que farão incendiar os olhos do leitor; de ignorar completamente a quantidade de espaço que eu tenho para o texto. Eu amo escrever textos curtos e objetivos para espaços enormes, e textos gigantes para espaços mínimos.

O pior jornalista do mundo é o melhor amigo do leitor.

4 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

4 respostas para A Pior Jornalista

  1. sta

    eu sou uma mulher séria, eu sou uma senhora muito séria, estou me segurando pra não soltar a Derci escondida no sorrizinho da Monalisa, louquinha pra mandar às favas as palavras bonitas! te adoro jornalista querida do meu coração, adoro tuas palavras bonitas, me divirto e rio muito com elas!!! bj!

  2. Quando alguém começa um texto a dizer que não acredita em imparcialidade… isso já coloca esta pessoa entre os jornalistas mais sensatos do mundo. Se isso é ser o pior, quero estar pra sempre entre eles!!! Adoro os teus textos e teu dom de escrever. Que a tua caneta nunca seque!!! :)

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