Por Fim

Naquela terça-feira chuvosa de novembro, fui convocada para fazer o perfil de dona Angela. Uma senhora de 84 anos, rica, com o rosto redesenhado por plásticas. Ela tinha muitos imóveis caros pela cidade em seu nome. Corria o boato de que era uma das multimilionárias da cidade.

Todos esses bens, somados à educação fraca que deu aos filhos, resultaram em um grande histórico de brigas familiares e tentativas de homicídio contra dona Angela. Os próprios filhos tentaram matá-la e, enquanto não conseguiam a herança, tentavam matar uns aos outros. Quando a família se juntava, era certo de que era preciso chamar a polícia. O escândalo desta família era a novela dos vizinhos.

Antes de deixar a redação para entrevistar dona Angela, lembro-me bem que recebi um e-mail de um dos editores do jornal. A mensagem dizia: “precisamos conversar no fim do dia, sem falta”. Enquanto lia e relia esta simples frase, eu tentava calar o mau pressentimento que entristecia o meu coração. Respirei fundo e arquivei este sentimento para me entristecer depois.

Dona Angela morava em uma das maiores casas que já visitei. Foi a primeira vez que ouvi falar a expressão “sala de visitas”. Era uma sala feita apenas para… receber visitas. O cômodo tinha muitos sofás, mesas baixas, estantes com porta-retratos, enfeites, tapetes que adivinhei serem caros e importados. Em cima das mesas, havia animaizinhos de cristal. A fauna mais linda que já vi. Era inacreditável. Com minha roupinha surrada do dia a dia, fui a visita naquela “sala de visitas”. Por alguns segundos, fiz de conta que aquela sala era minha e que aquelas pessoas pomposas, nos porta-retratos, eram eu e minha família. Sorri a entrevista inteira.

Mas a história dessa senhora era tão triste. Apesar de ter tanto dinheiro, era sozinha e abandonada. Um clichê da vida real. Dona Angela era a forma humana da frase “dinheiro não traz felicidade”. Ela era uma mulher pequena, bonita, bem cuidada, embrulhada em um lindo vestido florido, que suspirava de tristeza em seu sofá francês. Senti pena.

Ao voltar para o jornal, nem lembrava mais que teria uma certa reunião com meus chefes no final do dia. Escrevi o perfil de dona Angela com a emoção pendurada nos olhos. Escolhi com cuidado todas as palavras – e escondi, em cada parágrafo, minha piscada de olhos para o leitor, como quem diz: “galera, sei que é clichê, mas vamos manter nossas amizades acima dos bens materiais, porque a velhice um dia vai chegar!”

Assim que terminei o perfil, fui convocada para a sala de reuniões do jornal. Acompanhada de dois editores, lembro-me que passamos juntos por um corredor cinzento, frio e opressor. Ou assim apenas me pareceu, porque era como eu me sentia por dentro.

Um minuto depois, eu me sentia assim por fora também. Fui demitida.

Enquanto guardava os pertences que estavam sobre a mesa que tinha sido minha por três anos, senti alívio e tristeza ao mesmo tempo. Alívio, porque seria o último dia em que me sentiria uma idiota dentro daquele lugar. Tristeza, porque era o meu luto pelos entrevistados que não seriam mais meus. Não fazia ideia que sonharia, muitas vezes depois, com este momento.

Com uma caixa de papelão cheia de cadernos, canetas e outras coisas, saí da empresa e fui pega sem surpresa pela chuva. Pensei, com um bom humor melancólico: achei que esse tipo de cena só acontecesse em filmes.

Ao chegar na casa dos meus pais, fui abraçada com carinho e compreensão. Ainda com a emoção de dona Angela na pele, agradeci ao universo por eu ter perto de mim tantas pessoas queridas. Abraçando-os e molhando seus ombros com minhas lágrimas, jurei que seria uma mulher melhor a cada dia. Uma filha melhor, uma irmã melhor, uma funcionária melhor, uma jornalista melhor.

Enfim, eu não quero uma sala de visitas. Eu quero ser a visita que é apaixonada por sua família e amigos.

O tempo passou, me confirmando que algumas mágoas, mesmo se parecendo com pedras, podem ser demolidas e retiradas de um coração humano. E que os bons momentos, até mesmo aqueles mais singelos e inocentes, são a tatuagem da alma. Não é preciso um crachá de jornalista para que eu continue encontrando as melhores histórias do mundo, na esquina da padaria.

2 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

2 respostas para Por Fim

  1. Se me permite, Vanessa, gostaria de comentar um outro ponto em seu texto, que não está relacionado às emoções que você ali expressa. Acho muito legal as descrições que você dá dos lugares por onde passa. Por um momento, senti-me como se realmente estivesse em uma luxuosa sala de visitas ornamentada com todos os apetrechos decorativos que você mencionou. Você faz, em minha opinião, literatura jornalística de qualidade nesse espaço.

    Um abraço.

  2. catalisecritica

    Parabéns pelo texto, Vanessa (?). Os bons momentos são a tatuagem da alma. Gostei dessa imagem, assim como da forma como você conduz o texto. Com seu talento e sua sensibilidade, não é de se admirar que você não se encaixe nos ambientes mais convencionais. Da mesma forma, é óbvio que há muitos lugares á espera de alguém como você. Não tenho a menor dúvida disso, e seu blog é testemunha do seu talento.
    Ao ler: “jurei que seria uma mulher melhor a cada dia. Uma filha melhor, uma irmã melhor, uma funcionária melhor, uma jornalista melhor”, passei a admirá-la mais. Esse é um dos “clichês” que sigo como princípio de vida. No meu caso, adiciono ao filho, irmão e profissional, ser um pai melhor e um esposo melhor a cada dia.
    Não tenho dúvidas: você está no rumo certo.

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