Querido avô José,

te mando esta carta porque gosto de fazer coisas absurdas quando estou triste. Para que você me conheça melhor, citarei algumas loucuras que fiz, em momentos azuis: já pintei o cabelo de castanho escuro, me tatuei e me machuquei. Mas tudo isso fez parte da adolescência. Hoje, minhas loucuras se resumem às confissões que faço para os mais diferentes destinatários.

Desculpe a falta de jeito. Mas é que a figura de um avô me é estranha – você já se foi. E o meu avô materno mora em outra cidade, não faz parte da minha vida. De qualquer jeito, me sinto próxima de você. Devo te chamar de avô, vovô, vô José, senhor…?

Você já se foi faz 10 anos e eu não cheguei a te conhecer. Mas descobri, pelas fotos que sobraram sem que sua ex-mulher as triturasse, que sua passagem pelo planeta Terra não foi nada tranquila. E nós temos um rosto tão parecido.

Vô José, o senhor viveu até os 77 anos e morreu de câncer no pâncreas, assim como seu pai, e o pai do seu pai. Vô, se existe alguma maneira de o senhor estancar essa doença hereditária – para que ela não leve meu pai e meu irmão -, por favor, o faça. Não vou suportar. Você consegue nos ver, de onde está? Se consegue, sabe que minha alegria está em conviver com aqueles que amo.

Mas não é só por isso que te escrevo. Tenho uma doença que já se manifestava no senhor. Você sabe do que estou falando. Tem a ver com as noites em claro, olhando para o olho do Universo.

Vô José, ouvi falar que quando a gente olha longamente para o olho do mundo, ele nos olha de volta. É assim mesmo?

Na verdade, te escrevo por educação, porque acho que existe algo seu comigo.

Trata-se de uma lembrança. Quando eu fecho os olhos bem forte e percorro os porta-retratos das minhas lembranças, encontro uma imagem que não é minha. Não fui eu que vivi. Talvez tenha chego a mim por engano ou questão de hereditariedade. Trata-se da imagem de um pasto muito grande, bem verde e fértil. E, no pasto, algumas ovelhas caminham, tranquilas.

Eu nunca visitei um lugar assim. E acredito que o senhor já. Sei que tinha um sítio.

O senhor precisa da lembrança de volta? Como faço para te devolver?

Ah, mais uma pergunta. Quanto tempo até que minha pele ganhe a transparência da velhice? Não aguento mais a juventude.

Abraços…

3 Comentários

Arquivado em Distrações

3 respostas para Querido avô José,

  1. Anna Luiza

    Que lindo!!!
    Adoro ler o que você escreve!!!
    Eu flutuo, viajo… reflito.

    Parabéns,
    você me inspira!

  2. sta

    vanessa, vanessinha, essa é a minha menina, minha netinha!” será que ele diria isso assim?! com que alegria ele deve ter e estar ao receber essa cartinha! com que orgulho, surpresa e lágrimas, ah! vai dizer que ele não chorou ao ler, se tem um choro que a gente gosta de chorar é o da alegria! bj querida!

  3. saudades de “te ler” Vane, escreva escreva escreva ;) andei meio distante, mas preciso dessas doses de inspiração!

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