Viagens do dia-a-dia

Andar de ônibus é a minha sina. Meu karma. O navio de cada dia. Meu pão; minha oração; meu pecado perfeito. Odeio andar de ônibus, ao mesmo tempo que adoro observar os rostos cheios de segredos dos passageiros.

Dentro do ônibus já abafei gargalhada. Algumas vezes, disfarcei bem. Noutras, ri descaradamente. Já chorei com discrição e já derramei rios de tristeza, socando o peito. Já passeei de ônibus sorrindo e mau-humorada. Já cumprimentei desconhecidos e virei a cara para ex-amigos. Vivo dentro do ônibus – relacionamento de raiva e carinho que levo no dia-a-dia.

Todos os dias pego o Rodoviária-centro quando saio do serviço. Ontem, encontrei uma passageira diferente. Era uma menininha de cerca de dois anos, acompanhada de sua mãe jovem. A menina era uma bebezona, uma neneca de corpo comprido e cabelinhos ralos de recém-nascido. Usava uma jardineira jeans com um grande bolso na frente. Ela sorria, do alto de sua infância mágica.

A mãe ofereceu um passe de ônibus usado para a neneca brincar. Ela enfiou o passe no bolso da jardineira. Mas aí o ponto de interrogação surgiu em seu rostinho: para onde vão as coisas que enfiamos no bolso? A neném atreveu-se a espiar por dentro de sua roupinha – de certo pensou que os bolsos têm passagem secreta para dentro das vestimentas. Lá nada encontrou. Mostrou-se confusa. Enquanto sua mãe olhava distraída para fora da janela, a neneca procurava a saída deste mistério que era o bolso da jardineira. Eu não seria a pessoa a lhe dizer: “bebê, os bolsos não têm saída. São um pouco como a gente”. Não, eu não lhe diria isso. As verdades tristes não cabem na minha boca…

…mas a neneca me ensinou naquele momento que os bolsos têm saída, sim! Quase no final da viagem, já no centro da cidade, a bebê encontrou o passe. Descobriu que o bolso não é um caminho para outro local. É um túnel sem saída. Mas este túnel é seguro, e sua placa que indica “sem saída” é como se fosse a rede de proteção do trapezista; o momento em que acordamos de um pesadelo e percebemos que o monstro era um sonho; a confirmação de que sempre existe o colo da mãe. Ela tirou o passe do ônibus do bolso e arregalou os olhinhos – talvez a mesma cara que um adulto faria ao enfiar um pano velho no bolso e tirar de lá uma moeda de outro.

A neneca estava apenas descobrindo o charme da realidade. E eu, reaprendendo a elegância da simplicidade.

Anúncios

4 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

4 Respostas para “Viagens do dia-a-dia

  1. Não tem como não se identificar com esses olhos que procuram algo no cotidiano…

  2. Paula

    vane… muito, muito, muito demais…
    qdo leio seus textos, vejo o pq nao continuei com jornal., eu nao tenho esse talento todo.
    agora só me resta torcer para que vc escreva um livro para que eu faça parte do seu fã clube… pois fã de carteirinha eu ja sou…

    bjos linda

  3. Dias virá que voce ñ terá que enfrentar o onibus, pois desejo que logo tenhas o teu próprio carro “e bem merecido”, ñ achas?
    beijos, uma dúzia da vó.

  4. Carla

    poxa vidaa , menina tú tens de escrever um livro ..
    caraa , me encantei com teus textos , mt mt mesmo ,
    algum dia qero ter pelo menos metate da habilidade sua na escrita .. , ah e lembrete: tenho 14 anos sou de natal Rn , mt prazer em conhecer !! , dá uma passadinha lá no meu blog .. lá

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s