Canção ao Mar

O mar me hipnotiza, desde que entendo por alma livre. Quando eu tinha cinco anos, minha avó comprou uma casa na praia. Era de frente para o mar. Lembro-me de avançar, baixinha, pelos corredores da casa pela primeira vez. O cheiro da madeira que envelheceu com elegância plantou flores de memória nas minhas narinas.

Andar por uma casa pela primeira vez é igual ouvir uma música nunca ouvida antes. Estranha-se a introdução, as luzes, as janelas, uma sala que rima com uma sacada, e lá está o refrão. A luz que soa pela janela e brinca pelo café da manhã é de um lindo violoncelo. Depois, cria-se intimidade com a canção, e ela torna-se a sala de estar com uma estante repleta de lembranças, de onde não queremos sair. Andar descalço é criar melodias de piano com os calcanhares.

Assim, acostumei-me a sentar na sacada e fitar o mar. As ondas vocalizavam o que a minha garganta não conseguia. Passei muitos verões nesta casa adquirida pela minha avó. De lá, fui testemunha de camarote de um universo que se construía e desconstruía com as ondas e a areia. Mar: o museu pós-moderno de restos de felicidades, sustos, naufrágios, fósseis de sonhos.

Vi tantas coisas bonitas – como golfinhos, que levaram meus desejos para as esquinas de algum mundo submarino. Vi também cardumes fluorescentes, que me fizeram rir de incredulidade. Cheguei a observar uma tartaruga morta, que levou minhas lágrimas para o misterioso cemitério do oceano.

Meus olhos também foram o oceano para toda a maresia, alegria e música encontradas pela praia. Meu irmão dizia que meus olhos sempre eram da cor do mar. Ou verdes, ou azuis, ou cinzas ou ensolarados. Eu gostaria de convidar todos os seres vivos para nadarem pelas marolas das minhas retinas.

Olhar o mar com admiração me fez ter sonhos abomináveis, como aquela vez que sonhei que uma baleia preta nadava bem pertinho da gente. Sonhei muitas vezes também que as ilhas passeavam pelo mar como barcos, e se instalava na beirada da praia, como que uma continuação. Nos sonhos, essas situações eram aterrorizantes; mas, ao acordar, a lembrança era apenas divertida. É engraçado como os sonhos apimentam nossa cabeça com medo, sombra e terraços escorregadios.

Certa vez, enquanto eu reparava em uma nuvem que parecia fazer caminho para o horizonte do mar, encontrei algo diferente dentro de mim. Era a vontade de observar tudo sentada em uma cadeira de balanço, usando um vestido florido com braços de fora. Pensei que minhas pernas poderiam estar cansadas de correr com força, e que estava com vontade de balançarem-se, livres.

Dizem que um dos maiores sustos do ser humano é descobrir-se velho. E, neste momento, deixei entrar, pelas frestas da janela do meu coração, o sol calmo do entardecer. O mar continuará a me hipnotizar e também a voltar à realidade, mesmo embalada por uma cadeira de balanço.

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2 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

2 Respostas para “Canção ao Mar

  1. Lindo seu texto….tão poético, cheio de sentimentos de vida…
    adorei !!!!!

  2. O mar, sempre o mar…. um mix de coisas boas, ao mesmo tempo tão iguais e diferentes a cada dia. Só o mar é assim 🙂

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