Grandeza

*Crônica publicada na revista Vida Plena
As sextas-feiras são especiais. Não por estarem perto do sábado e nem por anunciarem um descanso. O quinto dia útil da semana pode ser comemorado com uma visão de cima do universo. Não pense que estou falando de alguma terapia difícil para a compreensão humana – não se trata de aprender a flutuar e nem de transportar-se para outro universo. E, sim, de subir no andar mais alto de um edifício e observar, de cima, a vida que ferve neste dia da semana. Isso pode ser realizado, preferencialmente, no fim da tarde, quando o céu começa a ganhar tons alaranjados.

Eu descobri esta maneira simples de desfrutar o mundo quando precisei levar documentos a um amigo. Ele trabalhava no último andar de um dos prédios mais altos de Joinville. Os corredores, envidraçados, permitiam uma visão privilegiada da cidade. Os olhos podiam perder-se pela esquina do mundo. Mas os meus olhos resolveram caminhar pelas nuvens pintadas de amarelo e rosa pelo sol sonolento. Paralisada pela beleza desta artista chamada Mãe Natureza, comecei a lembrar de todas as boas coisas que me aconteceram durante a semana.

O abraço de meu pai, o beijo estalado de um querido amigo do trabalho, o gatinho preto que tentou entrar pela janela de minha casa, o vento frio que escapuliu pela fresta da porta e me fez querer enrolar um cachecol pelo pescoço. A sensação foi igual a ser surpreendida com uma rosa dentro de minha gaveta. Ao viver algo trivial, enxerguei sem querer o segredo do universo. E eu quis enxergar novamente na outra semana. Voltei ao edifício na sexta-feira seguinte.

Mas, ao invés de perder os olhos pelo céu, resolvi olhar para a quantidade de carros, pessoas e o mar de ansiedade que havia na rua. As pessoas pareciam formiguinhas, querendo dirigir suas caixas de fósforo mínimas. Ao olhar o tamanho daquelas pessoas, me senti enorme. Mas não superior – dali em poucos instantes, eu voltaria a viver no formigueiro. Felizmente, não com a mesma expressão ansiosa ou, até mesmo, nula.

Depois que comecei a olhar o universo de cima, aliás, eu nunca mais consegui reproduzir o rosto inexpressivo e imparcial que muitas pessoas vestem ao sair pelas ruas. Com um sorriso esticado no canto da boca, eu olho um a um, sabendo suas grandezas e pequenezas. Sabendo que lá de cima somos todos iguais. Que todos temos sonhos gigantes que se misturam ao sol e ao mundo. Todos temos segredos, remédios a serem tomados, papéis a serem rasgados, rostos a serem beijados. Nós somos o mundo. Mas de vez em quando, é bom olhar de cima, para lembrar o quão grandes e pequenos podemos ser ao mesmo tempo.

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4 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

4 Respostas para “Grandeza

  1. josue mendonca

    Van, acho incrível como de forma simples voce consegue reproduzir imagens e sensações tão belas e gostosas. Continue sempre assim com essa doçura, jamais perca esse olhar contemplador sobre a vida. Esse nosso mundo insano precisa de mais poesia na vida e você cumpre seu papel de forma encantadora.
    Seu incansável fã

  2. oiii!!!
    que bom que colocaste esse texto que li e que me fez te admirar tanto, já tive esse gostinho de estar algumas vezes nesses nossos arranha- céus!!! da nossa cidade que tão bem descreveste o que se sente, por isso te procurei e felizmente te achei! Parabéns, adorei! bj!

  3. Eva

    Adorei o teu texto, parabéns, vim do blog da Shantinha, que indicou teu espaço, beijos, uma linda semana.

  4. Priscila

    Adorei você escreve de forma suave….maravilhoso!!!
    Isso é um dom de Deus….
    Parabéns

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