Pequena homenagem ao dia dos pais

Cresci em guerra com o meu pai. Nunca aceitei ser mandada. Não sei de onde furtei esse defeito bélico. Na pré-adolescência, eu ansiava chegar aos 18 anos para que pudesse fugir das ordens, e não para conquistar o direito de dirigir um carro. Tornei-me ateísta, campeã de kung fu e namoradeira, tudo o que deixava meu pai com os cabelos brancos em pé. Aqueles furacões e terremotos só me fizeram rabiscar com raiva pilhas e pilhas de páginas de diário, pintar os cabelos de preto, colocar piercing na língua e planejar uma fuga para a China. Me arrependo de ter feito tanto tsunami em copo d’agua. E a vida, que nunca se dá por satisfeita com as lições que encontramos pelo caminho, colocou no meu trajeto um marido que já é pai. E um pai muito parecido com o meu pai. Um pai que tem uma filha como eu era. Não com espírito de Che Guevara como eu tinha; mas alguém com o potencial para mudar as coisas. E eu tive a oportunidade de entender que, por trás de cada ordem, cada ralho, cada briga, tem um coração paterno quebrado. O entendimento de que meu pai nunca fez nada por mal me pegou como um soco. Fiquei atordoada, algumas passagens da minha história se passaram em preto e branco na minha mente, quando fechei os olhos com dor e lágrima. Como se pede desculpas por algo tão grave quanto um passado rabiscado de vermelho? Hoje, sou muito parecida com meu pai: tranqüila, gosto de assistir televisão, de fritar bolinhos de banana em dia de chuva e de comprar sabonetes cheirosos, os quais saboreamos a fragrância de olhos cerrados. Certas coisas só serviram para que, hoje, cheios de marcas de expressão, um pudesse olhar no olho do outro e dar graças a Deus que ainda estamos unidos. Graças a Deus que você existe. Obrigada por me ensinar a amar os animais. Obrigada por não ter me incomodado nas vezes em que me viu entrar em casa chorando (eu sabia que você se aproximava da porta trancada do meu quarto, preocupado). Obrigada por ter me dito, na infância, que as pessoas diferentes geralmente são as mais legais. Obrigada por existir. Para mim, esse é o amor maior. Obrigada, pai. Feliz dia dos pais.

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2 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

2 Respostas para “Pequena homenagem ao dia dos pais

  1. shantinha

    que bom que ainda tens tempo para perceber que quanto mais fazias pra distanciar-te dele mais perto chegavas e chegaste pra mostrar aos dois que aquilo era tipo: olha-o-que-eu-sei=fazer-sem-ti!!! queremos ser grandes antes do tempo e pequenos quando não podemos mais, a guerra aqui em casa era com meu bb que até hoje, ela casada, chamo de meu bebê! o marido dela faz niver exatamente no mesmo dia que eu e segundo ela, ele é exatamente igual a mim hahaha! bjão e feliz dia dos pais, pra ti e pra ele!

  2. Emocionante história! Me aperta o coração, pois sou pai de uma menina de 11 anos, e temos alguns conflitos desde já. Espero que não levemos tanto tempo para harmonizar, e possamos aproveitar melhor o tempo juntos.

    Jorge Silva.
    @katafrakta Joinville . SC

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