Arquivo do mês: setembro 2011

Instruções para tornar-se criança

 

Primeiro: derrube o muro erguido entre o seu cérebro e a sua boca. Deixe as ideias tomarem forma de palavra e solte-as para brincarem nas suas cordas vocais, como a um violão. Faça o teste: se você conseguir confessar à sua avó o seu desgosto por chá de boldo, parabéns. Olhe-se no espelho. Não se assuste com o pedaço de céu que aparecerá nos seus olhos.

Segundo: olhe de frente o fantasma do seu medo. Cada criança cria um fantasma específico; por isso, aconselha-se que ele seja procurado em janelas muito altas, debaixo da cama, nos olhos do cachorro. Assim que o encontrar, prepare-se. Suas pernas vão tremer e seu coração vai esmagar a garganta. Levará alguns minutos para que este sentimento seja posto sob controle e torne-se um vício.

Terceiro: machuque-se de leve. Toda criança precisa de uma ferida ou de uma cicatriz ainda sensível para comover os outros. Os adultos têm o hábito de querer cuidar um do outro, e quando vêem uma criança com um machucado visível, derretem-se em carinhos. Todo o rancor de anos de guerra se dilui, distribuem beijos, doces, ora seja, tadinho dele. Dica: suba numa árvore e caia do galho mais baixo. Berre alto e segure a risada que teimará em explodir.

Quarto: tudo é motivo para choro e para riso. São emoções opostas que se encontram num horizonte à distância de três passos. Encontram-se nas seguintes situações: num tombo violento na escada; na decapitação de uma boneca; na súbita descoberta de que os adultos são crianças retorcidas.

Quinto: procure outras crianças. Elas estão em extinção. Porém, ainda podemos encontrá-las em universidades, debaixo das árvores, manejando violões ou observando nuvens. É imprevisível, pois as crianças se disfarçam muito bem de adultos e principalmente de velhos. Elas possuem uma astúcia que ninguém tem em plena maturidade. No momento que você enxergar uma espinha de peixe numa folha seca de árvore, mergulhe a mão no bolso da calça e tire a primeira bala de morango. És criança.

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O Perfume por trás do Vento

Crônica publicada na revista Premier/setembro 2011

 

Era fim de tarde. Eu lavava as xícaras com gosto de café, quando o vento entrou pela janela da cozinha, sem ser convidado. Entrou, dançou com as cortinas floridas da cozinha, trouxe um perfume até minhas narinas e foi-se. Intrigou-me aquele cheiro: não tinha nada a ver com o aroma azul, típico do inverno. Então descobri – estava começando a primavera.

Deixei as louças de lado e senti que precisava conferir a primavera que se aproximava borrifando perfume na minha vida. Resolvi que caminharia até a esquina, depois determinei que iria apenas até a casa de minha mãe mas, quando vi, estava longe. Atravessava os trilhos do trem. Eu farejava a estação das flores, como a abelha hipnotizada segue o doce. A tarde estava se transformando em noite – esta troca sensual de cenário que todos os seres humanos têm o privilégio de ser testemunha, todo santo fim de tarde.

Assim que atravessei os trilhos do trem, parei. Estava fresco. O aroma de mato, misturado com o cheiro de concreto da cidade, era uma delícia. Havia um fundo de jasmim nesse perfume. Fechei os olhos. Tem vezes que sentimos melhor o cheiro de algo, se baixamos as pálpebras. A primavera é o universo trocando seu sagrado recolhimento pela alegre festa da fertilidade. Agradeci.

Neste momento, ouvi buzinas vindas de muito longe. Assim, o trem interrompeu meus pensamentos. Tudo parou para ver o trem passar, cheio de barulho e pressa. Passou um vagão atrás do outro, exalando forte cheiro de ferro, calor e poeira. Sabe-se lá de onde vinha esse trem. Alguns vagões marcavam números incoerentes. Outros estavam pichados de preto. Os últimos traziam desenhos com tinta branca. Uma boneca, um rosto sorridente e… flores brancas.

Desejei uma feliz primavera para este trem, seja lá para quê estação ele estivesse indo. Eu sabia para qual eu estação eu estava indo: para a época do jasmim, do calor ao meio dia, do ar fresco de noite, do bolo de bolachas com chocolate, do café com uma pitada de canela.

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Todo choro é acompanhado por uma boca que sorri

Apesar de ter crescido sob o protesto dos adultos de que chorar é feio, eu sempre me dei liberdade para chorar. Nem que fosse escondida. Perdi a conta de quantas vezes procurei o banheiro – não para necessidades fisiológicas e, sim, para necessidades emocionais de chorar encolhida. O pranto de cócoras é diferente das lágrimas que afloram de um rosto sem medo.

Chorei muitas vezes ao lado do rolo de papel higiênico. No banheiro da escola, da faculdade, da academia de Kung Fu, da empresa, na casa da sogra. Banheiros espaçosos, apertados, malcheirosos ou até estranhamente limpos. Chorando quietinha, tapando a boca. Ou com raiva, batendo a cabeça nas lajotas da parede. Minha experiência em chorar em banheiro é vasta.

Uma vez, chorava tão alto no banheiro da empresa, que a chefe do departamento de recursos humanos foi acionada para ver o que estava acontecendo. Enquanto eu chorava com a porta trancada, Tereza me convencia de que estava um dia muito bonito lá fora, e era preciso levantar a cabeça. Ela se aproximou muito de mim, mesmo com uma porta entre a gente. Sem medo, acariciou meu coração em transe. Tereza era muito boa no que fazia. Anos depois, aprendi a encarnar Tereza e levantei a cabeça de outras pessoas, mesmo com uma montanha me barrando fisicamente.

Em outro momento, tive uma briga feia com um namorado na casa da sogra. Tudo começou por que ele arranhava os talheres ao cortar a carne. Aquilo me irritava e eu era imatura demais para tolerar o próximo. A mãe dele não engoliu que uma menina tão arrogante e loira apontasse o dedo para o menino dela. Após a briga, tranquei-me no banheiro cheiroso da mulher e, com raiva, quebrei os frascos de sabonete líquido argentinos. Pulei a janela do banheiro, chorando, banhada em sabonete. Jurei esquecer este dia.

É desesperador precisar chorar e não poder. O choro indesejado é como um animal louco preso na gaiola. É como aquela trovoada que precisa cair, depois de longos dias de calor. É humano. É o descontrole que nos coloca no eixo, que nos confirma como homo sapiens sapiens. É a verdade em meio a rostos hipócritas. O choro convulsivo é o diploma da carne humana e da criança que mora entre nossas células. Todo choro é acompanhado por uma boca que sorri.

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