Todo choro é acompanhado por uma boca que sorri

Apesar de ter crescido sob o protesto dos adultos de que chorar é feio, eu sempre me dei liberdade para chorar. Nem que fosse escondida. Perdi a conta de quantas vezes procurei o banheiro – não para necessidades fisiológicas e, sim, para necessidades emocionais de chorar encolhida. O pranto de cócoras é diferente das lágrimas que afloram de um rosto sem medo.

Chorei muitas vezes ao lado do rolo de papel higiênico. No banheiro da escola, da faculdade, da academia de Kung Fu, da empresa, na casa da sogra. Banheiros espaçosos, apertados, malcheirosos ou até estranhamente limpos. Chorando quietinha, tapando a boca. Ou com raiva, batendo a cabeça nas lajotas da parede. Minha experiência em chorar em banheiro é vasta.

Uma vez, chorava tão alto no banheiro da empresa, que a chefe do departamento de recursos humanos foi acionada para ver o que estava acontecendo. Enquanto eu chorava com a porta trancada, Tereza me convencia de que estava um dia muito bonito lá fora, e era preciso levantar a cabeça. Ela se aproximou muito de mim, mesmo com uma porta entre a gente. Sem medo, acariciou meu coração em transe. Tereza era muito boa no que fazia. Anos depois, aprendi a encarnar Tereza e levantei a cabeça de outras pessoas, mesmo com uma montanha me barrando fisicamente.

Em outro momento, tive uma briga feia com um namorado na casa da sogra. Tudo começou por que ele arranhava os talheres ao cortar a carne. Aquilo me irritava e eu era imatura demais para tolerar o próximo. A mãe dele não engoliu que uma menina tão arrogante e loira apontasse o dedo para o menino dela. Após a briga, tranquei-me no banheiro cheiroso da mulher e, com raiva, quebrei os frascos de sabonete líquido argentinos. Pulei a janela do banheiro, chorando, banhada em sabonete. Jurei esquecer este dia.

É desesperador precisar chorar e não poder. O choro indesejado é como um animal louco preso na gaiola. É como aquela trovoada que precisa cair, depois de longos dias de calor. É humano. É o descontrole que nos coloca no eixo, que nos confirma como homo sapiens sapiens. É a verdade em meio a rostos hipócritas. O choro convulsivo é o diploma da carne humana e da criança que mora entre nossas células. Todo choro é acompanhado por uma boca que sorri.

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2 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

2 Respostas para “Todo choro é acompanhado por uma boca que sorri

  1. se não fossem essas palavras eu não iria querer sua amizade.
    por baixo da menina futil tem uma mulher forte e sensivel.
    a futil, é a casca que mostra, e a forte é a que poucos tem.
    seja bem vinda nova amiga.
    ainda sei que teremos grandes papos pelo msn.
    joelcio_castro@hotmail.com

  2. shantinha

    já tive muitos nomes também, maria das lágrimas de todas as dores, dores de ganhos, de perdas irreparáveis, aprendi com o tempo a ser tereza que vê o sol brilhando ainda que esteja caindo o maior temporal!

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