O Perfume por trás do Vento

Crônica publicada na revista Premier/setembro 2011

 

Era fim de tarde. Eu lavava as xícaras com gosto de café, quando o vento entrou pela janela da cozinha, sem ser convidado. Entrou, dançou com as cortinas floridas da cozinha, trouxe um perfume até minhas narinas e foi-se. Intrigou-me aquele cheiro: não tinha nada a ver com o aroma azul, típico do inverno. Então descobri – estava começando a primavera.

Deixei as louças de lado e senti que precisava conferir a primavera que se aproximava borrifando perfume na minha vida. Resolvi que caminharia até a esquina, depois determinei que iria apenas até a casa de minha mãe mas, quando vi, estava longe. Atravessava os trilhos do trem. Eu farejava a estação das flores, como a abelha hipnotizada segue o doce. A tarde estava se transformando em noite – esta troca sensual de cenário que todos os seres humanos têm o privilégio de ser testemunha, todo santo fim de tarde.

Assim que atravessei os trilhos do trem, parei. Estava fresco. O aroma de mato, misturado com o cheiro de concreto da cidade, era uma delícia. Havia um fundo de jasmim nesse perfume. Fechei os olhos. Tem vezes que sentimos melhor o cheiro de algo, se baixamos as pálpebras. A primavera é o universo trocando seu sagrado recolhimento pela alegre festa da fertilidade. Agradeci.

Neste momento, ouvi buzinas vindas de muito longe. Assim, o trem interrompeu meus pensamentos. Tudo parou para ver o trem passar, cheio de barulho e pressa. Passou um vagão atrás do outro, exalando forte cheiro de ferro, calor e poeira. Sabe-se lá de onde vinha esse trem. Alguns vagões marcavam números incoerentes. Outros estavam pichados de preto. Os últimos traziam desenhos com tinta branca. Uma boneca, um rosto sorridente e… flores brancas.

Desejei uma feliz primavera para este trem, seja lá para quê estação ele estivesse indo. Eu sabia para qual eu estação eu estava indo: para a época do jasmim, do calor ao meio dia, do ar fresco de noite, do bolo de bolachas com chocolate, do café com uma pitada de canela.

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1 comentário

Arquivado em Repórter distraída

Uma resposta para “O Perfume por trás do Vento

  1. hello virtual friend.
    sabe gosto destas suas narrativas,
    gosto de imaginar a cena composta em seus detalhes.
    o que me atrai é como consigo entrar e ver e sentir os perfumes e cores.
    até me estimulei a fazer algo assim para meus pensamentos.
    e vou trazer do orkut, que é onde deixei agora.
    um beijo e bom dia pequena menina.

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