Arquivo do mês: outubro 2011

O Primeiro Degrau

Quem é que não tem uma experiência meio mística com a literatura?

Cresci na casa da minha avó paterna. Uma casa enorme, cheia de diversões para uma cabeça infantil. Piscina, jardim, um muro perfeito para ser escalado, uma sala cheia de sofás e estantes, mesas repletas de animaizinhos de vidro, paredes recheadas de quadros antigos e, o melhor de tudo: uma biblioteca cheia de livros. Era livro para tudo o que era lado. Era o lugar mais legal da casa. Lá, encontrei “Contos de Amor Rasgados”, livro da Marina Colasanti, que me marcou muito. Encontrei também coleções e mais coleções de artes plásticas. O meu preferido era do Renoir.

Mas o livro que marcou minha passagem para a adolescência não estava nesta biblioteca. Eu o encontrei, um dia, deitado na minha cama. Capa dura e com cheiro de antigo. “O Reverso da Medalha”, de Sidney Sheldon, fez descer minha menstruação antes do tempo.

A princípio, julgando pela capa, achei que o livro seria chato. Não havia figuras e as letras eram miúdas; pareciam fileiras de formiguinhas. As páginas eram amareladas e cheias de buraquinhos. O que me fez abri-lo e desbravar aquelas páginas foi a desconfiança de que os livros que parecem chatos são os mais legais. Acertara.

Naquela tarde, deitei na cama para ler às 14 horas. Não cheguei a jantar. Não conseguia desgrudar os olhos da trama. Sentia sono e raiva ao mesmo tempo, queria ser forte o suficiente para ler tudo conforme minha voracidade, ao atravessar a madrugada. Meus pais se preocuparam, queriam ver se aquele livro era apenas literatura mesmo. Lembro de minha mãe com as mãos na cabeça, falando: “Meu Deus, isso tudo é gostar de ler?”

Não tenho certeza, mas acho que foi aí que nasceu uma marquinha de expressão vertical que tenho entre as sobrancelhas. O carimbo do leitor voraz, que se enfia na narrativa e na emoção dos personagens. Mas marcas de expressão nada mais são do que o reflexo de um coração talhado.

Fui descobrir que minha irmã havia deixado o livro em cima da minha cama, sem querer. Havia alugado na biblioteca da escola e acabou deixando de lado. Sua distração foi a escada de páginas para o meu paraíso.

Terminei de ler as 400 páginas dois dias depois. Assim que fechei o livro, meu coração se abriu. Precisava ler outro, urgentemente. Li tudo o que estava disponível do Sidney Sheldon na biblioteca. Depois, ainda tentei ler a literatura condizente com a minha idade, mas não chegava nem a fazer cócegas. Eu não cabia mais nessas páginas de letras grandes e desenhos absurdos.

Hoje, tenho muito carinho por Sidney Sheldon, mas ele foi apenas o primeiro degrau para a escada louca que é a arte de ler. É como se fosse o primeiro namorado. Ao olhar para trás, vemos o quanto ele era feioso e sem graça, mas o carinho continua. Foi importante. Foi o começo.

Você tem alguma experiência parecida com a minha em sua vida? Conta aí!

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O Símbolo Difícil da Empatia

O ex-presidente Lula está com câncer. Este assunto transformou-se friamente na pauta do momento, para o jornalismo. É pauta quente. “Má notícia é boa notícia”, dizem os profissionais da imprensa. A desgraça para uma pessoa pública é espaço para jornalistas deitarem e rolarem de felicidade.

Há alguns anos, entrevistei Roberta. Eu tinha 24 anos; ela também. Eu tinha ambições de aprender a tocar violão; ela tocava. Eu era faixa marrom de Kung Fu; ela prometia treinar comigo quando estivesse recuperada. Eu tinha cabelos compridos; ela os invejava. Roberta tinha um câncer estranho. Mas sua dor era como todas as dores de ter uma doença difícil, cheia de lágrimas, joelhos ralados em prece e de rosários guardados na primeira gaveta da cômoda.

Fui entrevistar Roberta porque a editoria resolveu que deveríamos ter uma matéria sobre pessoas que chegaram perto da morte. Liguei para um hospital de Joinville, e uma enfermeira me indicou Roberta como a principal gladiadora do local – lutava de pé contra suas células malignas, que se multiplicavam desordenadamente.

Alta, de cabelos raspados e olhos escuros como noite, Roberta me contou que a quimioterapia fizera seus cabelos caírem junto com todos os pêlos de seu corpo. Me disse que isso era estranho, ela se sentia meio criança, desprotegida. Contou que quebrou um espelho, ao olhar seu reflexo e não se reconhecer. Para ela, foi uma luta aceitar aquela história em sua vida – ela quis muitas vezes rasgar este capítulo doentio que entrava à força em sua história. E, como quem engole um tijolo, ela engoliu que, aos vinte e poucos anos, tivesse que enfrentar a possibilidade da morte.

As anotações que fiz em meu caderno, ao entrevistá-la, mostravam minha letra trêmula. Restos de palavras que não consegui decifrar, ao reler o rascunho e escrever a matéria. Minhas anotações estavam viradas em um garrancho oriental. Era o ideograma da tristeza alheia. Símbolos difíceis da empatia. E logo entendi: eu havia me sabotado. Meu subconsciente aleijou minha mão, para que nem eu me entendesse depois. Isso tudo, para que os medos de Roberta ficassem guardados apenas para ela e para minha caligrafia; para que eu respeitasse a sua insegurança. É feio adentrar na intimidade de alguém e sair contando, já me dizia minha avó. Mas então o que é o jornalista, senão o cara que entra na dor e na intimidade de alguém, e sai contando?

A matéria contou sobre a vida de Roberta e sua coragem em enfrentar a doença, com mandíbula cerrada. Dentes apertados para não deixar escapar o grito. Mas detalhes da fraqueza das noites em claro de Roberta não foram expostas para os leitores, muitos deles que gostam de fazer parte da festa do sensacionalismo. As dessa festa aí eu prefiro não fazer parte. As alegrias, gosto de eternizar. Mas da dor, com nome e CPF, prefiro deixar quieto na minha caligrafia torta.

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Por trás do Crachá

Ontem, eu andava a pé pela avenida João Colin, quando parei para observar uma mulher falando sozinha. Ela parecia contar algo irônico para si mesma, enquanto mexia as mãos como quem embaralha as próprias palavras no ar.

Em geral, achamos engraçado ver alguém falando sozinho na rua; mostra uma personalidade desapegada das convenções da normalidade, e até bom humor. Mas esta mulher não parecia estar feliz com seu interlocutor invisível. Com ironia, explicava algo complexo. O estresse havia feito uma profunda ruga vertical entre suas sobrancelhas.

A mulher fez seu caminho, falando sozinha, argumentando, brigando, chacoalhando o pescoço inexistente de ninguém. E eu fiquei parada na calçada, observando, triste. Outras pessoas haviam reparado a mulher, e riam. Eu perdi a capacidade de rir de coisas tristes faz tempo, mais precisamente quando tornei-me jornalista. Impossível esquecer de Bernardo, um homem que entrevistei para uma reportagem sobre doenças mentais.

É engraçado que, como jornalistas, somos convidados a conhecer a intimidade perturbadora dos outros. Daqueles que, se não fosse pela nossa profissão, seriam apenas mais um rosto na rua. Figurantes que passam pela gente enquanto caminhamos pela rua. Figurantes na nossa vida, e às vezes figurantes da própria vida, pois seus problemas são os protagonistas.

E Bernardo era uma dessas pessoas. Ele me foi apresentado no Centro de Atendimento Psicológico (Caps). O homem elegante, um pouco calvo, que sentou à minha frente, me contou que era apaixonado pela esposa e pela filha. Enquanto me contava o quanto achava lindos os olhos castanhos de Bruna, sua filha de 10 anos, suas mãos permaneciam tranquilas e seguras sobre a mesa.

“E porque você está aqui, Bernardo?”, perguntei, na inocência de uma jovem repórter que precisa cumprir uma pauta. “Eu estou aqui porque às vezes eu piro”, respondeu, na mesma inocência de alguém que é entrevistado pela primeira vez. “A bipolaridade me torna uma marionetes, um brinquedo violento”, disse. Suas mãos deram sinais de terem perdido a paz. E eu perdi o sorriso.

“Quando você começou a ter sintomas da doença?”, perguntei, seguindo a lógica da sequência das perguntas. “Não sei ao certo. Mas conclui definitivamente que estava doente quando acordei amarrado a uma camisa de força, no hospital”.

Suas mãos estavam paralisadas, em cima da mesma. Começavam a suar. “Eu levava choques”, disse, e a partir daí começou a tremer. O homem elegante transformou-se em um menino doente e triste.

Aí eu é que comecei a suar. Precisava urgentemente mudar de assunto. Nesse momento, me dei conta que era jovem demais para escrever sobre um assunto tão pesado, tão triste. Precisava jogar a toalha, abortar a missão, assumir minha pouca experiência e guardar o orgulho na última gaveta do guarda-roupas.

Na verdade, logo depois eu percebi que estava conhecendo, com Bernardo, a verdadeira tristeza. Que o que eu considerava tristeza, antes, era bobagem, futilidade, birra.

Resolvi voltar a assuntos agradáveis: perguntei o que Bruna gostava de fazer, que cor eram seus cabelos. Bernardo controlou-se, respirou fundo, e devagar, falou das sandálias de plástico de Bruna, das tranças de Bruna, do vestido que dança com o vento e que Bruna adora. Então, as mãos de Bernardo pousaram, tranquilas, na mesa. E eu respirei, tranquila, pela pergunta que me salvara.

Despedi-me do homem. Demos um aperto de mão seguro. De homem elegante e triste, para repórter que pisava pela primeira vez no mundo íntimo daqueles figurantes, daquelas pessoas que são apenas um rosto pela nossa vida.

É esse tipo de experiência que nos deixa rachaduras no tórax. Mostra que, por dentro dessa aparência humana, existe um coração que explodiu por não aguentar colocar-se na situação do outro. E dos outros. E de todos os que passam pela nossa vida, pelo nosso bloquinho de notas, pelo nosso gravador, pelos nossos sonhos e pesadelos, pela nossa narrativa cotidiana que – por Deus! – não pode perder a emoção e ceder à produção massificada.

Com o coração em pedaços, contei a vida deste homem para minha família. Com o coração remendado e conhecedor da verdadeira tristeza, vi aquela mulher falando sozinha na rua e sendo zombada por isso. Com o andar daqueles que já olharam a tristeza nos olhos, garanti a mim mesma que transformaria esses figurantes em palavras humanas. Que colocaria uma oração em cada texto, cada matéria. Que falaria das tristezas e dos olhos castanhos, cheios de alegria, daqueles que amamos.

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Sobre ser Repórter

Ao me aproximar do entrevistado, percebi que ele se arrumara especialmente para a entrevista. Camisa branca, bem passada. Cabelos penteados com pente de cerdas finas. Havia feito a barba naquela manhã. Estava muito cheiroso. Me aguardava na recepção do jornal com um sorriso sincero. Foi impossível não sorrir de volta. Assim começou a apuração da matéria que mais me marcou, nestes três anos de reportagem. André, 33 anos, é portador de uma doença degenerativa que o mantém eternamente sentado sobre uma cadeira de rodas. Neste dia, eu chorei duas vezes. Uma, pela história de vida do rapaz. Outra, por não ter conseguido levá-lo para conhecer o jornal por dentro – um degrauzinho de 20 centímetros impediu que conseguíssemos levá-lo para o interior da empresa. Senti vergonha por isso.

Este dia me marcou não apenas porque guardei André no coração. Registrei esta data porque foi a primeira vez que olhei meu reflexo no espelho e me senti grata por, cinco anos atrás, ter escolhido jornalismo como minha primeira opção no vestibular. Desde então, eu havia me decepcionado com o curso, me tornado uma universitária rebelde e havia lamentado para todos os ventos o piso salarial baixo. Ao me despedir de André, tratei de não calar aquela desconfiança que, de quando em quando, falava baixinho no meu ouvido: talvez jornalismo não seja tão ruim. Talvez a reportagem seja uma estratégia para dar voz aos que não tem. Talvez eu possa fazer muito como repórter. Talvez eu me divirta muito como jornalista. Talvez eu mude alguma coisa com a minha profissão.

Aos 18 anos, preenchi o quadradinho ao lado da palavra “jornalismo”, no ato da inscrição do vestibular. Mas eu não fazia a mínima ideia do que era ser jornalista – e acho que os vários estudantes que rabiscam o mesmo quadradinho, ano após ano, também não fazem. Ser jornalista é um mistério; cada um encontra um tesouro diferente. Não é objetivo como ser advogado, médico ou sacerdote. Ser jornalista é ser os entrevistados, as fontes e os adjetivos. É ser literatura, denúncia e relato. É encontrar seus Andrés e, com emoção, transformá-los em palavras, vírgulas e orações.

Hoje, com um livro de contos para sair do forno, concluo que a minha melhor forma de relatar o mundo é através de uma literatura que melhoro a cada dia, a cada André, a cada passo mais perto da naturalidade em ser um repórter cansado com um crachá balançando na barriga.

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Como em uma Foto Antiga

São 19h27 e ainda está claro. O céu está amarelado, na transformação do dia em noite. Agora, que estamos em horário de verão, o sol se esconde em seu cobertor bem mais tarde. Este estágio amarelecido dura apenas alguns minutos – não dá pra dizer que é dia e nem que é noite. É um meio termo, em que o indeciso sol boceja e se espreguiça. Neste momento, o sol se assemelha mais a uma foto antiga dele mesmo, é ele em sua infância, jogando tenros raios de sol no rosto de nossos ancestrais; quem sabe munidos de lanças. As mulheres, com tranças nos cabelos e rosto moreno. Depois disso, o sol fecha os olhos e o universo se cobre de azul. Então, nós, humanos, também nos cobrimos de azul.

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Lembrança de um Irmão Pequeno

*Homenagem ao aniversário de meu irmão caçula, que é hoje. Parabéns pelos 25 anos, Dudu!

Em pequenos, meu irmãozinho e eu brincávamos de pega-pega. Ele sempre era a minha caça. Certo dia, voamos pela porta da área de serviços e, cegos pela claridade do sol que se inclinava no horizonte, nos dispersamos por entre o labirinto de lençóis estendidos nos varais.

– Cadê tu!, gritei, feroz e risonha, por trás de uma toalha amarelecida.

À minha esquerda, mais para frente, ouvi uma risadinha. Saí correndo, golpeando lençóis brancos, rosas e vermelhos. Então, por trás de um lençol azul listrado de branco, firmei-me quieta, respirando contida: via a sombra do menino que se projetava nos paredões de pano. Apertando o tórax, tentei domar meu coração que socava o peito. Por debaixo das toalhas, flagrei os pés cautelosos dele que, devagarinho, avançavam pelos corredores.

Calmamente, abri passagem pelas toalhas enormes dos meus pais, embriagando-me com a fragrância gelada de sabão de côco. Ao empurrar um lençol rosa-entardecer para passar, minha visão se encheu com a imagem de um par de olhos verdíssimos – havia esbarrado no menino. Gritou, pulou e correu. Segurei-o pela mãozinha e nos enroscamos num cobertor peludo, marrom-jabuticaba, que a diarista havia posto no sol desde o dia anterior. Quando meu irmão e eu esgotamos a brincadeira, contendo o cansaço sobre o cobertor, ele falou:

– Parece o cheiro da vovó.

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A Água é o Cobertor do Mundo

Acredite se quiser: hoje foi a primeira vez que tomei banho de rio.

Eu sempre gostei de observar as águas correntes dos rios, e muitas vezes me senti inspirada por elas. Gostava de imaginar que poderia jogar meus problemas e medos nas águas, que elas levariam embora esse lixo interno. E a trilha sonora dos rios, então? A água que corre entre as pedras do rio faz a melodia maravilhosa daqueles que nos fazem visitas fugazes e inesquecíveis.

Não se preocupe – eu nunca sofri por não ter tomado banho de rio. Por distração ou pura ficção, eu nunca havia me dado conta desse absurdo em minha vida. Só fui me dar conta deste atraso de 27 anos quando encostei o dedão do pé pela primeira vez na água gelada do rio Piraí, de Joinville.

Em um segundo, esta experiência de frio aterrorizante me fez procurar em meu arquivo de memórias algo parecido. Só lembrei de mar gelado, piscina gelada, banho de chuveiro gelado, banho de chuva gelado, banho de mangueira gelado, tombo gelado em poças da água no meio da rua. Banho de rio? Nada. Com o dedão do pé esticado para dentro do rio, dei-me conta que fazia algo inédito; estava escrevendo um novo arquivo para minha estante de memórias. Fazia história, enquanto usava bermuda de verão e camiseta de inverno.

As pedras, que vivem e morrem sob a água, são extremamente lisas e é preciso muito cuidado para não levar um tombo. Sentei-me sobre uma pedra e deixei a água acarinhar minhas costas. Em contrapartida, devolvi o carinho: deixei as mãos abertas sobre a superfície da água cristalina. Eu fazia mais do que jogar meus problemas, medos e lágrimas antigas nas águas. Eu resgatava esperanças, alegria e coragem. Água pura e benta.

Fazer alguma coisa pela primeira vez fica para sempre nos arquivos da nossa memória. E essa lembrança carinhosa, que foi um convite de Ronaldo, vai ficar por bastante tempo entre os destaques de minhas melhores lembranças, aquelas que ficam perto da janela, para demorar a ganhar poeira.

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