Uma feliz e solitária expectadora

Neste momento em que escrevo, fazendo leves barulhinhos ao apertar as teclas do notebook, meu marido dorme. Está dormindo ao meu lado, na cama. Respira forte, mecanicamente. Dá sono só de ouvir. Há pouco, deu um sobressalto; de certo sonhou que estava caindo. Voltou a respirar mecanicamente. Espio o seu rosto, e me parece que agora ele anda de bicicleta em algum lugar de seu inconsciente. Ou, quem sabe, pula de uma nuvem à outra, e por isso o susto. Havia pisado em falso.

Isso me fez lembrar da minha adolescência, quando minha irmã e eu dormíamos no mesmo quarto. Uma das grandes belezas das noites em claro era assisti-la dormindo. Às vezes, eu não conseguia pegar no sono, então era embalada pelo som de seus sonhos. O rosto dela tinha a tranquilidade das pinturas a óleo. Vigiando seu sono, eu já sabia como tinha sido seu dia. Com a boca semi-aberta, fazia a melodia do sono. Criava notas musicais com seus balbucios noturnos. Inventou páginas e páginas de partituras do silêncio; era a Monalisa adormecida.

Outras vezes, ela falava dormindo. De olhos fechados e sorriso aberto, contava histórias que não existiam. Eu ouvia, quietinha, à missa que ela desabafava no escuro. Era um testemunho de seu mundo, um mundo tão diferente do meu, mas belo. Apesar de dividirmos o mesmo quarto, dormirmos paralelamente, respirarmos o mesmo ar, deitarmos o rosto e as lágrimas sobre as mesmas estampas de roupa de cama, tomarmos o mesmo antiinflamatório para a mesma dor de garganta, tínhamos universos distintos. Uma pena eu nunca ter registrado em um caderno as palavras que ela inventou, as cores que fez nascerem, as nuvens que desenhou no céu do nosso quarto.

O que me frustrou nestes 25 anos que dormi ao lado de minha irmã, foi nunca temos sonhado os mesmos sonhos. Enquanto uma chegava ao colégio sem calças, a outra construía uma árvore de natal na época da páscoa. Enquanto uma sonhava com um gato preto e misterioso, a outra debatia-se para fugir de um bandido estuprador. Enquanto uma sonhava com o enterro da outra e acordava chorando, a outra sonhava com o casamento da uma, e abria os olhos alegre.

Hoje durmo com o meu marido, e raramente tenho insônia. Mas hoje, um sábado de tarde, ganhei o presente de observá-lo dormir. Mas seu sono é em preto em branco – diferente do encanto dos sonhos de minha irmã. Bem, mas talvez tenha sido apenas eu que cresci e a maturidade tenha roubado algumas de minhas cores prediletas.

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2 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

2 Respostas para “Uma feliz e solitária expectadora

  1. Vanessa, há tempos tenho um link do meu blog com o seu onde, em silêncio, aprecio suas palavras sensíveis que falam tanto de mim (ou para mim).

    Esse texto é magnífico: adorei a forma como descreve a si mesma e se traveste de madura…

    Um beijo,

    E.

  2. Gabriela Queiroz

    Amiga, lindo seu texto, me levou ao seu quarto e da Olga; vi vocês dormindo e acordando…

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