Seja uma estátua em frente à janela

Neste momento, olho pela janela do meu quarto. A cortina dança freneticamente, trazendo blocos de ar e sol até meu rosto. Venta bastante, talvez chova. É muito bonito ver o mundo acontecendo sozinho, devagar. Eu sou testemunha do universo, com um coração paciente que bate dentro de mim. Acho lindo que a cortina seja propriedade do vento. Vento: dono de todas as cortinas do mundo. As cortinas só existem para que possamos constatar o vento, este ser transparente, às vezes calmo e às vezes monstruoso. É uma hipocrisia que a cortina exista para tapar a divina luz do sol. A cortina é o termômetro do vento. Uma cortina com estampa de flores é o mesmo que um lindo termômetro pendurado na parede. A primavera da cortina dança com o vento que anuncia chuva. A chuva servirá para regar as flores de pano. Quando eu era mais nova, meu coração era refém de inúmeras impaciências, eu jamais tive tempo e nem primaveras o suficiente nas costas para admirar coisas bonitas como uma janela que conversa comigo. Eu, quieta, mais próxima da matéria barrenta das estátuas do que das células humanas, olho absorta a janela e a cortina, me misturando a ela. É muito bom apenas existir e esquecer que o amanhã sempre chega.

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1 comentário

Arquivado em Repórter distraída

Uma resposta para “Seja uma estátua em frente à janela

  1. às vezes também paro e olho, observo coisas aparentemente banais ao meu redor. Uma janela, o formato dos cílios de minha sobrinha, algum objeto esquecido jogado na rua (de uso pessoal provavelmente muito usado e depois abandonado), a maneira com as pessoas andam ou gesticulam, o esforço de uma criança pequenina para elaborar uma frase e assim alcançar o êxito de se expressar através das palavras, a arte escondida atrás de pequenas manifestações aparentemente não artísticas, enfim, tudo que aquilo às vezes nos passa de forma ignorada por qualquer motivo.
    O mundo anda tão rápido, as pessoas geralmente estão tão apressadas, preocupadas, ansiosas que esquecem ou simplesmente nunca se interessaram em parar um pouco e olhar a beleza das pequenas coisas ao redor, seja uma pessoa, um objeto, um pequeno evento, um gesto. Digo uma pessoa porque até as pessoas atualmente parecem ter se tornado em algo realmente pequeno, mais um objeto a poluir nosso campo visual.
    Gosto desse olhar contemplativo, que busca um significado, uma dimensão, um atributo, um valor que crie uma conexão com o indivíduo, que faça sentido em sua existência, nem que seja um significado fictício, atribuído pelo simples prazer de exercitar a criatividade e imaginação. Num mundo que tenta extrair a própria condição de humanidade do ser humano, transformando-o em coisa, dizer que “A chuva servirá para regar as flores de pano”, ou seja, atribuir vida e significado a um simples objeto, reconhecendo sua beleza de existir, funciona como um convite, um estímulo para o leitor estender esse olhar de admiração para tantas outras coisas, inclusive para o próprio ser humano.
    Bem, me empolguei e falei bastante para um simples comentário. Mas o mundo, a meu ver, sempre precisará de poesia, de pessoas que despertem nos outros um olhar mais sensível sobre o mundo.
    É sempre prazeroso ver o mundo através de seus olhos.

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