A Água é o Cobertor do Mundo

Acredite se quiser: hoje foi a primeira vez que tomei banho de rio.

Eu sempre gostei de observar as águas correntes dos rios, e muitas vezes me senti inspirada por elas. Gostava de imaginar que poderia jogar meus problemas e medos nas águas, que elas levariam embora esse lixo interno. E a trilha sonora dos rios, então? A água que corre entre as pedras do rio faz a melodia maravilhosa daqueles que nos fazem visitas fugazes e inesquecíveis.

Não se preocupe – eu nunca sofri por não ter tomado banho de rio. Por distração ou pura ficção, eu nunca havia me dado conta desse absurdo em minha vida. Só fui me dar conta deste atraso de 27 anos quando encostei o dedão do pé pela primeira vez na água gelada do rio Piraí, de Joinville.

Em um segundo, esta experiência de frio aterrorizante me fez procurar em meu arquivo de memórias algo parecido. Só lembrei de mar gelado, piscina gelada, banho de chuveiro gelado, banho de chuva gelado, banho de mangueira gelado, tombo gelado em poças da água no meio da rua. Banho de rio? Nada. Com o dedão do pé esticado para dentro do rio, dei-me conta que fazia algo inédito; estava escrevendo um novo arquivo para minha estante de memórias. Fazia história, enquanto usava bermuda de verão e camiseta de inverno.

As pedras, que vivem e morrem sob a água, são extremamente lisas e é preciso muito cuidado para não levar um tombo. Sentei-me sobre uma pedra e deixei a água acarinhar minhas costas. Em contrapartida, devolvi o carinho: deixei as mãos abertas sobre a superfície da água cristalina. Eu fazia mais do que jogar meus problemas, medos e lágrimas antigas nas águas. Eu resgatava esperanças, alegria e coragem. Água pura e benta.

Fazer alguma coisa pela primeira vez fica para sempre nos arquivos da nossa memória. E essa lembrança carinhosa, que foi um convite de Ronaldo, vai ficar por bastante tempo entre os destaques de minhas melhores lembranças, aquelas que ficam perto da janela, para demorar a ganhar poeira.

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2 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

2 Respostas para “A Água é o Cobertor do Mundo

  1. Aristides Pereira da Silva

    foi tarde, mas rendeu uma crônica linda…

  2. a primeira e única vez em que tomei banho de rio eu era criança, por volta dos dez anos. Foi no rio São Francisco, em Paulo Afonso, cidade onde nasci. O rio lá parece o mar, tamanha a extensão. Foi uma experiência maravilhosa que jamais esqueci, e sempre tenho vontade de voltar lá só pra sentir novamente aquele sabor.
    Com relação a você, “antes tarde do que nunca”! 🙂

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