Por trás do Crachá

Ontem, eu andava a pé pela avenida João Colin, quando parei para observar uma mulher falando sozinha. Ela parecia contar algo irônico para si mesma, enquanto mexia as mãos como quem embaralha as próprias palavras no ar.

Em geral, achamos engraçado ver alguém falando sozinho na rua; mostra uma personalidade desapegada das convenções da normalidade, e até bom humor. Mas esta mulher não parecia estar feliz com seu interlocutor invisível. Com ironia, explicava algo complexo. O estresse havia feito uma profunda ruga vertical entre suas sobrancelhas.

A mulher fez seu caminho, falando sozinha, argumentando, brigando, chacoalhando o pescoço inexistente de ninguém. E eu fiquei parada na calçada, observando, triste. Outras pessoas haviam reparado a mulher, e riam. Eu perdi a capacidade de rir de coisas tristes faz tempo, mais precisamente quando tornei-me jornalista. Impossível esquecer de Bernardo, um homem que entrevistei para uma reportagem sobre doenças mentais.

É engraçado que, como jornalistas, somos convidados a conhecer a intimidade perturbadora dos outros. Daqueles que, se não fosse pela nossa profissão, seriam apenas mais um rosto na rua. Figurantes que passam pela gente enquanto caminhamos pela rua. Figurantes na nossa vida, e às vezes figurantes da própria vida, pois seus problemas são os protagonistas.

E Bernardo era uma dessas pessoas. Ele me foi apresentado no Centro de Atendimento Psicológico (Caps). O homem elegante, um pouco calvo, que sentou à minha frente, me contou que era apaixonado pela esposa e pela filha. Enquanto me contava o quanto achava lindos os olhos castanhos de Bruna, sua filha de 10 anos, suas mãos permaneciam tranquilas e seguras sobre a mesa.

“E porque você está aqui, Bernardo?”, perguntei, na inocência de uma jovem repórter que precisa cumprir uma pauta. “Eu estou aqui porque às vezes eu piro”, respondeu, na mesma inocência de alguém que é entrevistado pela primeira vez. “A bipolaridade me torna uma marionetes, um brinquedo violento”, disse. Suas mãos deram sinais de terem perdido a paz. E eu perdi o sorriso.

“Quando você começou a ter sintomas da doença?”, perguntei, seguindo a lógica da sequência das perguntas. “Não sei ao certo. Mas conclui definitivamente que estava doente quando acordei amarrado a uma camisa de força, no hospital”.

Suas mãos estavam paralisadas, em cima da mesma. Começavam a suar. “Eu levava choques”, disse, e a partir daí começou a tremer. O homem elegante transformou-se em um menino doente e triste.

Aí eu é que comecei a suar. Precisava urgentemente mudar de assunto. Nesse momento, me dei conta que era jovem demais para escrever sobre um assunto tão pesado, tão triste. Precisava jogar a toalha, abortar a missão, assumir minha pouca experiência e guardar o orgulho na última gaveta do guarda-roupas.

Na verdade, logo depois eu percebi que estava conhecendo, com Bernardo, a verdadeira tristeza. Que o que eu considerava tristeza, antes, era bobagem, futilidade, birra.

Resolvi voltar a assuntos agradáveis: perguntei o que Bruna gostava de fazer, que cor eram seus cabelos. Bernardo controlou-se, respirou fundo, e devagar, falou das sandálias de plástico de Bruna, das tranças de Bruna, do vestido que dança com o vento e que Bruna adora. Então, as mãos de Bernardo pousaram, tranquilas, na mesa. E eu respirei, tranquila, pela pergunta que me salvara.

Despedi-me do homem. Demos um aperto de mão seguro. De homem elegante e triste, para repórter que pisava pela primeira vez no mundo íntimo daqueles figurantes, daquelas pessoas que são apenas um rosto pela nossa vida.

É esse tipo de experiência que nos deixa rachaduras no tórax. Mostra que, por dentro dessa aparência humana, existe um coração que explodiu por não aguentar colocar-se na situação do outro. E dos outros. E de todos os que passam pela nossa vida, pelo nosso bloquinho de notas, pelo nosso gravador, pelos nossos sonhos e pesadelos, pela nossa narrativa cotidiana que – por Deus! – não pode perder a emoção e ceder à produção massificada.

Com o coração em pedaços, contei a vida deste homem para minha família. Com o coração remendado e conhecedor da verdadeira tristeza, vi aquela mulher falando sozinha na rua e sendo zombada por isso. Com o andar daqueles que já olharam a tristeza nos olhos, garanti a mim mesma que transformaria esses figurantes em palavras humanas. Que colocaria uma oração em cada texto, cada matéria. Que falaria das tristezas e dos olhos castanhos, cheios de alegria, daqueles que amamos.

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6 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

6 Respostas para “Por trás do Crachá

  1. Barbra Lacerda

    uma palavra resume o que li Inspirador…

  2. Minha prezada Vanessa, mais uma prova da tua admirável inteligência.

  3. Dudu

    Minha mão também suou até!

    Brilhante!

  4. Vane, tô dizendo, isso vai virar livro!!! =)

  5. Aline

    Vc deveria ser uma escritora, sao muito cativante seus textos,

  6. sta

    o interessante é que colocas tão no real tanto a vida desses personagens quanto a tua função de repórter e a reflexão pessoal do que vivencias, imagino esses textos sendo trabalhado em sala de aula. como eu quisera fazer faculdade de Letras..bj menina linda!.

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