O Primeiro Degrau

Quem é que não tem uma experiência meio mística com a literatura?

Cresci na casa da minha avó paterna. Uma casa enorme, cheia de diversões para uma cabeça infantil. Piscina, jardim, um muro perfeito para ser escalado, uma sala cheia de sofás e estantes, mesas repletas de animaizinhos de vidro, paredes recheadas de quadros antigos e, o melhor de tudo: uma biblioteca cheia de livros. Era livro para tudo o que era lado. Era o lugar mais legal da casa. Lá, encontrei “Contos de Amor Rasgados”, livro da Marina Colasanti, que me marcou muito. Encontrei também coleções e mais coleções de artes plásticas. O meu preferido era do Renoir.

Mas o livro que marcou minha passagem para a adolescência não estava nesta biblioteca. Eu o encontrei, um dia, deitado na minha cama. Capa dura e com cheiro de antigo. “O Reverso da Medalha”, de Sidney Sheldon, fez descer minha menstruação antes do tempo.

A princípio, julgando pela capa, achei que o livro seria chato. Não havia figuras e as letras eram miúdas; pareciam fileiras de formiguinhas. As páginas eram amareladas e cheias de buraquinhos. O que me fez abri-lo e desbravar aquelas páginas foi a desconfiança de que os livros que parecem chatos são os mais legais. Acertara.

Naquela tarde, deitei na cama para ler às 14 horas. Não cheguei a jantar. Não conseguia desgrudar os olhos da trama. Sentia sono e raiva ao mesmo tempo, queria ser forte o suficiente para ler tudo conforme minha voracidade, ao atravessar a madrugada. Meus pais se preocuparam, queriam ver se aquele livro era apenas literatura mesmo. Lembro de minha mãe com as mãos na cabeça, falando: “Meu Deus, isso tudo é gostar de ler?”

Não tenho certeza, mas acho que foi aí que nasceu uma marquinha de expressão vertical que tenho entre as sobrancelhas. O carimbo do leitor voraz, que se enfia na narrativa e na emoção dos personagens. Mas marcas de expressão nada mais são do que o reflexo de um coração talhado.

Fui descobrir que minha irmã havia deixado o livro em cima da minha cama, sem querer. Havia alugado na biblioteca da escola e acabou deixando de lado. Sua distração foi a escada de páginas para o meu paraíso.

Terminei de ler as 400 páginas dois dias depois. Assim que fechei o livro, meu coração se abriu. Precisava ler outro, urgentemente. Li tudo o que estava disponível do Sidney Sheldon na biblioteca. Depois, ainda tentei ler a literatura condizente com a minha idade, mas não chegava nem a fazer cócegas. Eu não cabia mais nessas páginas de letras grandes e desenhos absurdos.

Hoje, tenho muito carinho por Sidney Sheldon, mas ele foi apenas o primeiro degrau para a escada louca que é a arte de ler. É como se fosse o primeiro namorado. Ao olhar para trás, vemos o quanto ele era feioso e sem graça, mas o carinho continua. Foi importante. Foi o começo.

Você tem alguma experiência parecida com a minha em sua vida? Conta aí!

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3 Comentários

Arquivado em Distrações

3 Respostas para “O Primeiro Degrau

  1. eu não lembro agora algum livro que teria marcado a passagem para a adolescência, mas lembro que os livros de Monteiro Lobato – Reinações de Narizinho; História do Mundo para Crianças; As aventuras de Pedrinho – marcaram sim minha infância. Meu pai quem despertou em mim o gosto pela leitura. Ele dizia que ler era importante porque desenvolvia habilidades intelectuais. Ele não usava esses termos, mas creio que queria dizer isso… Ah, agora lembrei. Tem sim um livro que de alguma forma marcou essa transição de livros infantis para livros de adolescentes ou adultos. Não lembro o título, mas era um livro que ficava na estante da sala de minha tia e falava de uma mulher bonita que viajava pela Europa em busca de não lembro o que e se relacionava com um home – parece que a mulher era uma criminosa. Foi com esse livro que comecei a perceber que existia outras estórias interessantes e formas de narrar diferentes. O livro descrevia bem os ambientes, os cenários, os atos dos personagens e até hoje acho incrível o escritor que sabe fazer isso bem. Quanto eu tinha uns 16 anos eu li pela primeira vez um livro (conto) de Sidney Sheldon que narrava a estória de um serial killer que escolhia suas vítimas entre as mulheres que saiam de lojas apenas quando estava chovendo. Fiquei impressionado e empolgado com a narrativa dele que me prendia, essa vontade que você falou de ler sem parar… Depois não li mais Sidney. Descobri autores brasileiros como Clarisse Lispector e aí me voltei para livros nacionais. (Tenho uma estória engraçada sobre o primeiro texto que li de Clarisse, mas depois conto em outra ocasião) Lembro também que o primeiro romance que li foi Dom Casmurro. A partir de Machado de Assis e depois com a leitura de outros escritores brasileiros, comecei a perceber a riqueza da língua portuguesa e como as palavras podiam ser exploradas de formas tão diversas.
    Até hoje não consigo entender bem essa minha admiração e paixão pela leitura. Tenho um encantamento especial pela estética, a escolha das palavras, a construção de frases poéticas. Mas uma das coisas mais legais que acho é quando um texto me faz olhar para as coisas de forma diferente. Nesse aspecto, valorizo aquela narração sensível, atenta as detalhes, à dimensão poética da realidade muitas vezes ofuscada por nossos hábitos de interpretação.
    parabéns pelo posto

  2. Belo texto, Vanessa! Aliás, todos os textos que encontro aqui me deixam encantada e me fazem pensar, nem que por apenas um instante, em experiências parecidas – naquelas que aparentam ser compartilhadas com todas as pessoas em algum momento de suas vidas.

    Ao ler o seu relato, lembrei-me de Pedro Bandeira. Foi ele o responsável por despertar em mim essa paixão intensa pela leitura. Cheguei a entrevistá-lo certa vez (nunca estive tão nervosa diante de uma fonte em toda a minha vida acadêmica), mas nem essa experiência se comparou às descobertas que fiz ao ler seus livros. Faz tempo que não toco em nenhum deles, e com o tempo outros autores foram se tornando meus favoritos – inclusive Sidney Sheldon, e esse eu leio até hoje. Mas a lembrança daquela garotinha com a cara enfiada nos livros e os olhos brilhando de entusiasmo é impagável, e está entre as memórias mais doces que guardo da infância. Obrigada por fazer-me lembrá-la dela, Vanessa.

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