O Símbolo Difícil da Empatia

O ex-presidente Lula está com câncer. Este assunto transformou-se friamente na pauta do momento, para o jornalismo. É pauta quente. “Má notícia é boa notícia”, dizem os profissionais da imprensa. A desgraça para uma pessoa pública é espaço para jornalistas deitarem e rolarem de felicidade.

Há alguns anos, entrevistei Roberta. Eu tinha 24 anos; ela também. Eu tinha ambições de aprender a tocar violão; ela tocava. Eu era faixa marrom de Kung Fu; ela prometia treinar comigo quando estivesse recuperada. Eu tinha cabelos compridos; ela os invejava. Roberta tinha um câncer estranho. Mas sua dor era como todas as dores de ter uma doença difícil, cheia de lágrimas, joelhos ralados em prece e de rosários guardados na primeira gaveta da cômoda.

Fui entrevistar Roberta porque a editoria resolveu que deveríamos ter uma matéria sobre pessoas que chegaram perto da morte. Liguei para um hospital de Joinville, e uma enfermeira me indicou Roberta como a principal gladiadora do local – lutava de pé contra suas células malignas, que se multiplicavam desordenadamente.

Alta, de cabelos raspados e olhos escuros como noite, Roberta me contou que a quimioterapia fizera seus cabelos caírem junto com todos os pêlos de seu corpo. Me disse que isso era estranho, ela se sentia meio criança, desprotegida. Contou que quebrou um espelho, ao olhar seu reflexo e não se reconhecer. Para ela, foi uma luta aceitar aquela história em sua vida – ela quis muitas vezes rasgar este capítulo doentio que entrava à força em sua história. E, como quem engole um tijolo, ela engoliu que, aos vinte e poucos anos, tivesse que enfrentar a possibilidade da morte.

As anotações que fiz em meu caderno, ao entrevistá-la, mostravam minha letra trêmula. Restos de palavras que não consegui decifrar, ao reler o rascunho e escrever a matéria. Minhas anotações estavam viradas em um garrancho oriental. Era o ideograma da tristeza alheia. Símbolos difíceis da empatia. E logo entendi: eu havia me sabotado. Meu subconsciente aleijou minha mão, para que nem eu me entendesse depois. Isso tudo, para que os medos de Roberta ficassem guardados apenas para ela e para minha caligrafia; para que eu respeitasse a sua insegurança. É feio adentrar na intimidade de alguém e sair contando, já me dizia minha avó. Mas então o que é o jornalista, senão o cara que entra na dor e na intimidade de alguém, e sai contando?

A matéria contou sobre a vida de Roberta e sua coragem em enfrentar a doença, com mandíbula cerrada. Dentes apertados para não deixar escapar o grito. Mas detalhes da fraqueza das noites em claro de Roberta não foram expostas para os leitores, muitos deles que gostam de fazer parte da festa do sensacionalismo. As dessa festa aí eu prefiro não fazer parte. As alegrias, gosto de eternizar. Mas da dor, com nome e CPF, prefiro deixar quieto na minha caligrafia torta.

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6 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

6 Respostas para “O Símbolo Difícil da Empatia

  1. Julice

    Acabei de agradecer a Deus, pois acabei de encontrar não só uma profissional, mas acima de tudo um ser humano que não perdeu a coerência e a sensibilidade. Parabéns.

  2. shantinha

    esse palco da vida é um entra e sai de personagens que parecem letreiros automatizados, um leque que abre e fecha, tristezas em corpos diversos, só que esses espetáculos duram pouco tempo e o que fica mesmo é a dor não física, mas da alma, do coração de quem teve que se despedir, assistir e deixar ir, isso provoca um silêncio pesado e gritante que nos deixa paralisados, amordaçados…

  3. shantinha

    …tô gostando dessa mudança aqui!
    vc é linda e as cores dão mais vida e alegria, bj!

  4. É como se estivesse ali, solidário, a sentir a mesma dor que ela, Roberta.

    Emociono-me pela dor de Lula. Sinto muito, por ele. Quero que esteja bem.

    Não é preciso gostar da pessoa para desejar o bem.

    Não é preciso muito para entender sua beleza, Vanessa, em cada linha.

    Em silêncio, por Roberta, por Lula e por mim (que sinto a dor do outro), sigo mais um dia…

    Um beijo,

    E.

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