Quem é que tem Medo de Gato?

Com cinco anos, as crianças são protagonistas de todo o tipo de façanhas – riscar paredes com canetinha (fiz isso), planejar armadilhas para ver os pais tropeçando (fiz isso), esconder todas as roupas íntimas de uma tia por vários dias (também fiz) ou até fugir de casa só para sentir o gostinho provocativo das coisas, tão saboroso na infância (não, isto não fiz, mas quis). Eu, com cinco anos, protagonizei uma cena da qual fui vítima, e me deixou com um machucado que doeu até esses dias. Fui acarinhar um gato brabo, no sítio do meu avô, e saí com o braço esquerdo profundamente arranhado.

Passada a choradeira e os anos, nunca recuperei a coragem em acariciar felinos. Dia desses, fui na casa de uma amiga e me senti muito à vontade. Sentei, tomei café e conversava alegremente, quando senti um incômodo na nuca. Tipo um calor estranho, de coisa ruim. Virei-me. Um gato robusto e cinzento me olhava, com olhos amarelos, nos fundos da sala.

Rindo do jeito que só uma criança medrosa ri, perguntei com cuidado se o gato era de verdade. Diante da afirmativa, respirei fundo e comecei a me despedir da querida amiga. Voltei a procurar o gato antes de levantar-me do sofá, e ele havia sumido. Eu não conseguiria me mexer, se não soubesse onde estava o bicho. Continuei sentada, conversando roboticamente coisas sem sentido com a amiga. Segurando com todo o meu orgulho o rabo do medo para que não desse bandeira.

Senti um roçar de bigodes na canela – era ele, fazendo terrorismo. Quando pensei em fazer um escândalo como última alternativa para assegurar minha vida, o gato foi mais rápido. Pulou no meu colo. Olhou-me de perto e eu fiquei paralisada. O bicho sentou em minhas pernas e entregou-se ao trabalho de lamber os pelos de suas patas dianteiras. Minha amiga tentava conversar comigo e eu não mais respondia. Ainda ouvi ela falar algo como: “Olha, ele só faz isso com pessoas boas!”

Entrei em coma, mas durou só alguns segundos. Foi o tempo que precisei para erguer a mão direita e acarinhar o bichano. Com preguiça, ele baixou a cabeça e dormiu. Nesse momento, matei o fantasma – rasguei ele inteiro, e descobri que não havia nada dentro, apenas uma lembrança antiga e mofada dos anos 80. Minha insegurança é que eu me vicie em pegar todos os meus fantasmas do medo e rasgá-los. Mas como se rasga o medo de dirigir na BR, medo de elevador e medo daqueles quero-queros raivosos que habitam o centro de Joinville? Pode ser mortal.

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2 Comentários

Arquivado em Distrações

2 Respostas para “Quem é que tem Medo de Gato?

  1. Crisda

    heheheh… e eu fiz vc ir lá em casa com meus dois gatos!!! me enganou bem..heheheh.. bjao

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