Daquelas Lições que Aprendemos há muito Tempo

Hoje encontrei na rua a mãe de um menino que estudou comigo na 3ª série. Pequena, magrinha e com cabelos pretos de índio, a senhorinha passou por mim e não me reconheceu. Mas eu reencontrei nos olhos castanhos de jaboticaba um pouco da história que dividi com o filho dela, há muitos anos.

Ítalo tinha 10 anos, cabelos pretos e um dos fardos mais tristes da história de uma criança: era a piada da turma. Isso, porque a natureza o desenhou com cílios grandes e volumosos. Quando o conheci, eu também tinha uma década de vida. Lembro-me que as piadas começavam, religiosamente, na hora do recreio. Chamavam-no de boneca, Barbie, mocinha. Todos os adjetivos que eu queria para mim, eram direcionados ao menino. Ele chorava todas as vezes. Ficava com os cílios ensopados.

No começo, eu não entendia o que estava acontecendo. Só lembro que estava muito acostumada àquelas vozes de criança ganhando crueldade. Um dia, talvez meses depois de testemunhar aquelas brincadeiras horríveis e nunca fazer nada, vi que Ítalo  saiu correndo para o banheiro. Não sei quê tipo de maturidade pousou nos meus ombros – e agradeço imensamente -, só lembro que resolvi seguir o menino para ver se ele estava bem. Talvez a origem dessa solidariedade seja o fato de eu ter irmãos. Detestava vê-los chorando, e era com alegria que enxugava seus olhos e compartilhava um sorriso.

Encontrei Ítalo encolhido no banheiro, batendo a cabeça contra a parede – coisa que eu comecei a fazer também, por tristeza, anos depois. Assim que me viu, assustou-se, pediu para deixá-lo em paz. Falei que só queria saber se estava bem; que sentia raiva daqueles meninos malvados e queria sua permissão para bater neles.

Ítalo assustou-se. Quando viu que eu falava sério, sorriu. “É mesmo, já te vi batendo em outros meninos”, me disse. “Só bato em quem merece”, expliquei. “Tá, então você será minha guarda-costas”, falou. Concordei.

Saímos juntos do banheiro. De braços dados. Nunca vou esquecer da expressão do rosto dos meninos que agrediam Ítalo. O riso irônico transformou-se no rosto daqueles que levam um tapa. De boca aberta e piada morta na garganta, viram aquele casalzinho infantil desfilando triunfante entre os escorregadores, indo em direção ao gira-gira.

“Eles estão olhando?”, perguntou Ítalo. “Muito”, falei. Sentamos no gira-gira e, devagar, começamos a rodar o brinquedo. Meio hipnotizados, nos olhávamos nos olhos. Sorri para ele, como quem dá uma rosa. Ele sorriu de volta, como quem põe a rosa num vaso com água. As agressões foram assassinadas pela bondade e amizade que inventamos juntos. Eu cheguei a conhecer a mãe do menino, e até a ser chamada de “namoradinha”.

Hoje, ao ver a mãe do menino, lembrei-me de tudo isso, mas não tive coragem de abordá-la. A timidez é a areia movediça que tranca meus pés ao solo. Queria saber como vai Ítalo, provavelmente com essa história mais do que superada. Tenho consideração ao que aprendi com ele: não é com a violência de um soco que se cura essa praga, hoje chamada de “bullying”. É com a proteção de um carinho sincero e de uma educação amorosa. Quanto mais casos de bullying vejo, mais pena sinto desses pequenos agressores, movidos a carência.

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3 Comentários

Arquivado em Distrações

3 Respostas para “Daquelas Lições que Aprendemos há muito Tempo

  1. Linda história!

    São todas lindas, mesmo ao relatar os aspectos “negativos” por assim dizer; e sinto-me representado em várias delas, pois evocam as memórias de minha infanto-juventude!

    Gostaria de ter a habilidade necessária para narrá-las de modo tão belo, respeitoso e até terapêutico, catártico! É, terapêutico sim; pois ao ler as histórias aqui, resgato os arquivos da memória lá no fundo do coração-baú, e ao vivenciar os sentimentos, revivo as experiências, e dissipo algumas dores e sofrimentos encrustados na Alma, e sigo mais leve.

    Acompanho há algum tempo, e ainda não fiz comentários, pois estou garimpando as palavras adequadas para expressar o bem-estar da leitura.

    Vivenciei histórias parecidas com as narradas pela Garota Distraída, creio que muitos se identificam nelas; e para esta aqui, lembro de uma frase que li há muito tempo: “Por trás de toda Alma que fere há um coração que sangra.” Há muitos corações assim, espalhados pelo Planeta… Desejo que hajam mais garotas distraídas e corajosas por aí. Desejo que minha filha de 11 anos, a Laura, seja uma delas! Parece-me que sim, ao menos na maneira sensível como trata as pessoas!

    Você é uma jornalista-escritora-terapeuta! Parabéns!

    Grato pelas pérolas em forma de narrativas das suas experiências!

    • Oi!! Amei a sua mensagem! estou muito feliz porque este é o meu objetivo – que a minha emoção seja sentida pelo leitor também. Ah, se Laura herdou seu espírito atento para as sensibilidades da vida (pelo que reparei que vc tem), pode ter certeza que ela também capta as delicadezas desse mundo! Por favor, continue acompanhando o blog! Leitores como você me são muito valiosos! grande bjo,

  2. Olá Vanessa!

    Grato pelas palavras gentis! As histórias são belíssimas mesmo; emocionam toda vez que as leio, e sempre inundam meus olhos com um líquido delicioso levemente salgado, que purificam as Janelas da Alma… Penso não ser o único, talvez apenas o que consiga assumir publicamente…

    Minha filha tem uma mãe maravilhosa, e apesar de não morarmos juntos, vemos o mundo de forma semelhante e Laura desenvolve a própria sensibilidade, claro, com o nosso estímulo.

    Descobri a Garota Distraída via Twitter (acompanho você por lá também) de um contato – não me recordo agora quem é, e fiz meu primeiro comentário na história Pequena homenagem ao dia dos pais (imagine o dilúvio… foi parecido). Na época li também Dos alicerces maternos e indiquei para a mãe da Laura. Ambos maravilhosos.

    Estarei sempre por aqui, sim, e aguardo o lançamento de Relato do Sol!

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