As Coisas que Não Voltam ao Normal

E quando é preciso deixar violentamente sua rotina confortável, e encarar o sangue?

Era um domingo. Eu estava de plantão. Tudo poderia acontecer. E aconteceu: eram 16 horas, e eu achei que sairia ilesa de um enfadonho expediente de fim de semana. Foi quando o telefone da redação tocou. Era a polícia. Havia ocorrido um assassinato, em um bairro distante de Joinville. Homicídio. Era apenas a segunda vez que eu ouvia falar neste bairro, em toda a minha vida. E pela segunda vez, o local era relacionado com um assassinato. E eu era a única repórter disponível para “ir ver o corpo”. Aí foi o começo do homicídio da minha autoestima, naquele domingo. Uma repórter de cultura não tem nada a ver com pauta policial, mas fazer o quê?

Junto com o motorista e o fotógrafo, corremos – ou melhor, voamos – para o tal bairro. Lembro-me que o motorista dirigia tão rápido, fazia curvas com tanta agilidade, que eu cheguei a ficar enjoada. Mas não posso afirmar que fiquei enjoada necessariamente por causa disso. Eu pensava bastante na poça de sangue com a qual eu me depararia, nas pessoas desesperadas, nos familiares com mãos na cabeça, na morte. Isso era apenas o começo do que seria a minha pauta sangüenta. Eu nunca havia me deparado com a morte recente, assim, escancarada na minha frente.

Ao chegar no local, nada de corpo, nada de sangue. A cena de terror já havia passado por uma limpeza, o corpo já estava no IML. Havia apenas pessoas desesperadas; um domingo rasgado por um crime. Não havia mais clima para café da tarde, nem para assistir a deplorável programação dominical da TV aberta. Famílias estavam reunidas em frente às casas. Choravam, se abraçavam. Contavam e recontavam a mesma história, cada uma com um detalhe diferente. Um rapaz berrava: “é para isso que serve a polícia, para matar pessoas inocentes”. No ar, o cheiro inconfundível de sangue. Fiquei tonta ao sentir o cheiro de ferro e desespero. Lembrei de uma vez que precisei tirar sangue, desmaiei, e fui motivo de risada da minha família por um ano. Eu sempre perco para o sangue.

Com as pernas tremendo e vergonha na cara, conversei com esse rapaz que berrava, chorando. Era o irmão da vítima. Ele mal conseguia falar. Não o forcei a responder minhas perguntas. Apenas falei que sentia muito, e que colaboraria com o que precisasse, para fazer justiça. O fotógrafo registrou o abraço dos familiares, o choro revoltado.

Ao voltar para o jornal, escrevi uma nota sobre o homicídio. De novo, me senti mal por fazer parte da exposição de uma dor. Por registrar tão friamente um assassinato. Por ser a profissional que explora os cacos quebrados de um coração e os eterniza nas folhas do jornal. Os parentes da vítima recortariam aquela notinha e guardariam como lembrança do dia mais triste para qualquer pessoa – a mutilação de uma família. É como se eu estivesse narrando esse acontecimento triste, uma co-autora.

No dia seguinte, ao ver a nota publicada, fiquei com tanta raiva que a rasguei toda. Rasguei aquela folha de jornal, como a criança que arranca a página do livro que contém a parte triste da história. A parte do lobo mau, da madrasta malvada. Rasguei tudo, até virar confete. Uma pena que o mesmo não possa ser feito com nossas lembranças, e nem com os capítulos da nossa vida. E as coisas nunca voltam ao normal, depois de testemunhar esse tipo de coisa. A segunda-feira não volta a amanhecer tranquila. Nunca mais.

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