Os Silêncios de Helena

Eu sabia que a causa era nobre. Então, me rendi.

Os editores haviam elaborado uma pauta sobre a dor de um luto. Pessoas que morreram de câncer e deixaram uma família inconsolável. Fui convocada para a pauta, como prevê a lei de Murphy. Já entrei de luto na pesquisa da matéria. Sim, porque eu sabia que meu sono perderia a tranquilidade por uns dois meses.

Após alguns telefonemas, cheguei ao nome de Helena. Anotei seu nome e telefone em meu bloquinho, cheio de outros nomes e telefones arranhados com meu garrancho incurável. Pensei bastante em como eu abordaria Helena pelo telefone. Qual é a maneira mais sensível de dizer: “Olá, soube que seu irmão morreu de câncer, vamos enfiar o dedo em sua ferida até sangrar, e depois publicar no jornal?” Após alguma meditação e preparo, respirei fundo e disquei os números de Helena.

– Olá, Helena, tudo bem?

– Sim. Quem está falando? – Disparou. Sua voz era fina, quase um sussurro. Uma voz adolescente, que ainda não foi invadida pelos hormônios. Imaginei-a pequenina e indefesa. Loira, talvez. Sardinhas, possivelmente.

– Sou repórter. Preciso escrever sobre um tema meio cascudo, e acabei chegando ao seu nome. Trata-se de câncer. Algumas pessoas acharam que você era a pessoa ideal para dar um belo testemunho sobre o assunto.

Helena pensava, do outro lado da linha. Enquanto isso, meu rosto era incendiado pela timidez. Quem é tímido, sabe que a timidez avança até mesmo quando o papo ocorre por telefone, e-mail, sms e sinal de fumaça.

– Podemos conversar. Vamos nos encontrar? – Disse Helena.

No mesmo dia, fui ao apartamento simples em que a garota morava com a família. Helena pouco tinha a ver com o que imaginei, ao conversar pelo telefone. Era pequenina, assim como eu. Mas os cabelos claros e sardinhas de sua voz não se traduziam em seu físico. Helena tinha cabelos compridos, castanhos e lisos. Olhos escuros. Pele clara. Uma garota muito magra. De indefesa, nada: os olhos assustados não transmitiam medo.

Seus pais não estavam em casa. Me recebeu sozinha. Enquanto Helena foi à cozinha preparar o café, olhei ao redor. Havia um quadro na parede da sala. Era a foto de um rapaz apoiado em um carro. Adivinhei que aquele era Mateus, o irmão. Eu estava respirando fundo, pausadamente, tentando segurar os galopes do coração. Mas aí, desequilibrei brevemente pela primeira vez. Tadinho de Mateus. Tão jovem e bonito, pensei. E continuei respirando.

– Um dia, Mateus acordou berrando de dor de cabeça – disse Helena, enquanto tomávamos o café com açúcar demais. – Depois de exames médicos, descobrimos que ele estava com um câncer no cérebro, e só teria mais seis meses de vida.

Meu queixo caiu em susto, e tapei a boca com a mão. Fiz os comentários que ela já tinha ouvido mil vezes.

– Seis meses? Só isso? Meu Deus, que tristeza. Sinto muito.

– E levou seis meses mesmo para que ele se fosse – contou Helena.

Precisei controlar a respiração novamente, para que o coração ficasse em seu lugar. Helena parecia se controlar também. Ela olhava para baixo. Seu irmão havia falecido fazia seis anos, provavelmente ela já tinha contado essa história triste mil vezes. Mas ainda se calava, em alguns momentos.

E foi depois de um desses silêncios de Helena, que ela soltou a bomba que me incomodaria pelo resto de minha existência. Era a bomba-relógio que explodiria no momento mais calmo da minha noite, dali para frente.

– Eu sinto falta de Mateus nos momentos mais simples. Tipo, na hora de arrumar a mesa para o almoço. A gente não precisa mais botar o prato para ele.

Talvez, a pessoa que não tenha irmãos não sinta tanto esse baque. Mas eu, que tenho irmãos – e durante toda a infância e adolescência arrumei a mesa com seus pratos e copos -, me senti surrada. É claro que eu chorei na frente da entrevistada. Choramos juntas. Voltei para a redação com a alma esfarrapada, com a autoestima murcha como um balão velho de aniversário. Com os olhos de quem mergulhou na tristeza do outro e viu a escuridão do fundo do mar.

No dia seguinte, na hora do almoço, eu fiz questão de arrumar a mesa para minha família. Nunca havia organizado copos, pratos, talheres e guardanapos com tanto esmero, geometria e felicidade. Sentamos juntos à mesa. Eles conversavam animadamente sobre qualquer coisa; mas meu coração se contorcia em origami. Estava feliz por ter todos os meus entes queridos por perto, mas triste por pensar que mesmo a mais perfeita felicidade tem prazo de validade. Ou prazo de realidade. Como em um silêncio de Helena, aceitei que meu sono se perdesse de vez em quando, em prol de uma verdadeira noção do que é ser humano.

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1 comentário

Arquivado em Repórter distraída

Uma resposta para “Os Silêncios de Helena

  1. lindo vane, anda inspirada hein? rsrs

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