Daquelas Coisas que precisam Acontecer

Trabalhar triste não presta. Deveria ser proibido. Ou não?

Era quinta-feira e eu havia acordado boiando em tristeza. Depois de meses apostando meu coração em um relacionamento, ele havia terminado dramaticamente. A culpa me pesava nos ombros. Eu era a vilã daquela história, que já havia nascido fadada ao final triste. Mas o mundo continuava girando em sua órbita desumana, e eu precisava trabalhar.

Ao chegar na redação, uma pauta aparentemente tranquila me aguardava: entrevistar uma das bandas musicais de grande destaque na cidade. Já tinha ouvido falar várias vezes do grupo, apesar de pouco conhecer o som dos caras. Me foi passado o nome e telefone do vocalista; deveria tentar uma entrevista para o mesmo dia. Mas, antes de telefonar, considerei interessante pesquisar um pouco sobre esses músicos. Digitei o nome da banda no Google, e em um segundo apareceu uma foto do tal vocalista. Ele tinha olhos azuis e covinha no queixo. O terror derrubou meu coração de seu tiquetaquear triste.

Eu estava solteira e achei que seria anti-ético da minha parte entrevistá-lo.

Enrolei os editores, falei que o músico estava com o celular desligado. Tinha que dar um jeito de passar a pauta para outro repórter. Quem sabe alguém comprometido, para evitar transtornos. Mas, para variar, como tudo no jornal diário, a matéria era para anteontem. A gente sempre é pautado com atraso. A pauta é um atraso.

Os editores cobravam; eu enrolava. Disse que o celular do rapaz estava desligado. Depois, inventei que ele não havia atendido o telefone. Ainda cheguei a inventar que o meu telefone estava com problemas, não discava. Que culpa eu poderia ter? Precisava desesperadamente transferir essa pauta para outro repórter. Não ia dar certo entrevistar aquele músico com cara de galanteador, olhos azuis e voz que eu adivinhava ser angelical. Eu não sei dividir o profissional do pessoal, eu não sou duas pessoas, sou só uma, humildemente. Eu já estava planejando mentir que o músico tinha sido raptado, mas aí eu provavelmente teria que fazer reportagem sobre isso também.

Assim, enrolei até o fim do expediente. Me fiz ausente na redação, soquei o estomago de café em todas as oito vezes que passeei pela cantina, resolvi caminhar pelos outros setores da empresa, conhecer o local depois de dois anos registrada ali. E assim, minha quinta-feira acabou bem sucedida, sem outros turbilhões para o coração. Mas no dia seguinte, não houve desculpas. Eu não sabia, mas o músico havia sido contatado pela editoria, e ele ligou para o meu ramal direto na sexta-feira pela manhã. Assim que o telefone tocou, eu já sabia que era ele. Não deu tempo de fugir.

Atendi o telefone como criança que sabe que vai levar esporro. As mãos tremiam, a voz era feita só de ar. Do outro lado da linha, a voz grave e segura do músico me identificou e marcou encontro para dali a uma hora. Desliguei o telefone morrendo de raiva, vermelha; queria estraçalhar o crachá.

Encontrei a banda no local de ensaio deles. Emburrada e infantil, fiz de conta que aquilo não me era interessante. Anotei com letras horríveis as primeiras informações, mas a história da banda me despertou para a matéria. Era uma baita história, me senti privilegiada pela oportunidade em assinar esta apuração. Ficamos duas horas conversando, a banda me ganhou completamente.

A matéria foi publicada no sábado, com grande repercussão. No mesmo dia, recebi um e-mail do músico. Agradecia pela matéria bem redigida, frisou que era muito grato pelo carinho com o qual eu tratava seu projeto de vida. Me desejou um bom dia. Então resolvi fazer algo inédito, para mim. Me entreguei, cedi ao fato de que somos humanos e que, às vezes, desistir é o grande lance. Chamei-o para um café. Ele aceitou. Casamos três meses depois e eu nunca fui tão feliz.

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7 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

7 Respostas para “Daquelas Coisas que precisam Acontecer

  1. shantinha

    ai que lindoooooo! é veroooo! real real real, ainda achamos que histórias estão no papel, somos a história! adorei! MAS É VERDADE MESMO?! BJ!

  2. haha Muito bom, amei a história (:

    nêly.

  3. Ana Paula Prado

    Que legal…parabéns a história é muito linda e emocionante…é as vezes onde menos imaginamos está a nossa felicidade,só temos que deixar rolar..
    Desejo toda felicidade do mundo a vcs…

  4. vania

    Q linda sua historia Vanessa!! Estou passando por uma fase parecida, mas ainda não me deparei com uma pauta(ou projeto) e alguém novo para conhecer hahahahaha

  5. Parabéns pela coragem de se expor tão doce e sentimental, e também por escrever tão maravilhosamente bem, quase chorei de emoção quanto constatei a veracidade do conto. Milhões de parabéns, meu anjo. Voce merece ser muito feliz, sempre.

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