Haja Luz

Lúcia era cega. E uma das melhores nadadoras da cidade. É uma contradição que alguém com o nome de Lúcia – cujo significado é “luz” – viva nas trevas, não é mesmo? Essa vida é uma brincalhona; sempre que pode, encaixa uma contradição em nossa trajetória. Talvez para que vejamos que o bom humor e a complacência são essenciais, mesmo nas contradições mais assombrosas desse mundo.

Ela tinha nascido cega. Seus olhos eram cinzentos, um tanto inquietos. E era uma mulher bonita de 28 anos, atlética, com ouvidos atentos. Enquanto a entrevistava, eu tinha a impressão de que ela entendia até o que eu estava anotando em meu bloco de notas, só pela melodia da ranhura, do contato da minha caneta com o papel. Lúcia era um golfinho cego, seus ouvidos eram mais do que o resto dos olhos dessa terra.

Lúcia entrou na piscina e começou a nadar. Aí é que me dei conta de algo: mas peraí, como ela vai saber quando precisa voltar? Quando ela vai saber que chegou ao final da piscina? Ela pode se machucar! Sua treinadora me acalmou, mostrou que ao lado da piscina ficava outra pessoa com um bastão a acompanhando; sempre que a nadadora estivesse próxima da borda da piscina, seria cutucada, então sabia que teria de voltar. Achei isso incrível; como se fosse uma tecnologia antiga, mas prática. Como aqueles relógios antigos que precisam ser dados corda, para que funcionem impecavelmente.

A nadadora abraçava a água com agilidade e gosto. Aquela água que ela não sabia que cor era; talvez ela nem soubesse o que era uma cor. Cor, para ela, só se fosse a que vem embutida nos cheiros, como o cheiro de goiaba, que é rosa e verde, e o cheiro do mato, que definitivamente é verde. Lúcia deslizava pela água como aqueles peixes que vivem nas profundezas do oceano – eles não precisam de olhos, só do instinto da sobrevivência. Lúcia tinha o instinto da humanidade, nadava para ser feliz. Nadava para se afirmar como ser humano. Mas precisava ser cutucada para que mudasse de rumo e não batesse a cabeça na beirada da piscina.

Fiquei invejosa de Lúcia. Eu também queria que alguém me cutucasse, sempre que eu fosse bater com a cabeça em algo. Eu já havia batido tantas vezes a cabeça e me machucado com dor. Me machuquei em pessoas, em situações difíceis, em desafios. Me machucava até para comemorar feitos memoráveis. Por que Lúcia tinha o privilégio de ter essa tecnologia e eu, com os olhos abertos e transparentes para a vida, me machucava em cada esquina? Me revoltei silenciosamente, achei essa contradição sem graça e estúpida. Estava quase interrompendo a natação de Lúcia para lhe perguntar: que palhaçada é essa?

É claro que não perguntei isso a Lúcia. Essa questão eu fiz só para mim, quando deitei na cama para dormir. Que palhaçada é essa, Deus? Por que o Senhor não me cutuca quando estou para bater a cabeça? Por que Tu me deixas cheia de cicatrizes, de tanto me arrebentar por ai? O Senhor por acaso tem pena de uns, e raiva de outros? Por acaso Tu achas certo dar privilégio para uns, e machucado para os outros?

Fiquei com vergonha quando vi que brigava com o ar, no escuro. Eu, sempre cheia de raiva. Eu, sempre com sangue no olho. Eu, sempre cheia de cicatrizes. Deus: algo que eu procurava apenas quando estava em dúvida ou triste. Deus, algo que não entendo e brigo. Deus, esse um aí que me deixa com joelhos em prece, sempre que me vejo em desespero.

Fiz um perfil muito bonito de Lúcia para o jornal. Recebi e-mails com elogios de leitores. Mas acabei não dando bola para eles, desta vez. Resolvi que precisava investir mais nessa terapia de entender os cutucões da vida, porque sei que eles existem, mas, por algum motivo não os estou entendendo. E você, entende?

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Repórter distraída

Uma resposta para “Haja Luz

  1. santa

    às vezes nos acostumamos tanto com a felicidade tanto quanto com a dor, quem não conhece a felicidade verdadeira acha que é feliz com a infelicidade, porque não conheceu, nunca viu e nem viveu e enquanto isso vai batendo a cabeça, levando cutucão sem entender, vira múmia de tanto curativo, mas não muda o rumo da vida. Peraí, com licença que preciso trocar meus curativos….bj!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s