Arquivo do dia: 23/11/2011

Distraída, abstraio a realidade

Ser uma pessoa distraída é perder seus pertences, e depois achá-los nos lugares mais improváveis. Chave do carro dentro da geladeira, travesseiro nas prateleiras da cozinha, camiseta amassada junto aos livros da estante. De vez em quando, as pessoas distraídas perdem o sono também. Após uma noite em claro, acham o sono escondido entre as almofadas do sofá da sala.

Ser distraído é ter os pés na Terra e os olhos no suave encaixe e desencaixe das nuvens no céu. É tropeçar nas calçadas destruídas e continuar sorrindo para o cachorro que se espreguiça do outro lado da rua. É hipnotizar-se com o cortador de grama, que faz muito barulho, mas perfuma o ar com a fragrância verde.

Outro dia, estava olhando um lindo bebê que brincava com o ar, no colo da mãe. Ele sorriu para mim e, assim que sorri de volta, ele se escondeu no pescoço da mulher. Sorri para mim mesma, pensando que ali estava outra alma distraída.

Ser distraído é colocar o telefone celular no bolso e sair procurando-o por toda a casa. É entregar o mesmo trabalho duas vezes. É não entregar o trabalho.

Em pequena, gostava de brincar apenas com minhas próprias mãos. Elas eram animais de cinco patas, brincalhonas e solitárias.

A pessoa que entende a piada maliciosa por último não é burra. É distraída. A pessoa que não te cumprimenta na rua não é nojenta. É distraída. A pessoa que pega suas coisas emprestadas e não devolve não é ladra; é distraída e meio sem noção.

Distraído, no dicionário: (adjetivo) absorto, abstraído, alheado, alheio, concentrado, desatento, entretido, esquecido, ocupado e pateta.

Absorta, abstraio a realidade. Alheia ao resto do  mundo, que é concentrado, fico desatenta e entretida em meus esquecimentos, ocupada com as patetices do dia a dia.

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O Medo que nos torna Impressionáveis

Isaac nos recebeu mancando levemente. Eu, o fotógrafo e o motorista fomos recebidos na casa dele. Isaac acabara de lançar um livro sobre seu mais recente feito: havia viajado grande parte do mundo de moto. Mesmo não sendo mais tão jovem assim (tinha mais de 50 anos), se jogava em aventuras juvenis com verdadeira falta de planejamento, porém muito entusiasmo.

Esse é o tipo de pauta que é muito fácil de realizar. Uma pessoa com tantas histórias e experiências, geralmente, não precisa ser incitada a falar. Ela fala com facilidade, transborda em histórias, faz sua própria retrospectiva, se reconstrói como ser humano, e eu apenas testemunho. As horas se passam, o gravador registra tudo, e eu saboreio os relatos – estes que depois povoam meus sonhos, de noite e de dia.

Isaac tinha histórias deliciosas sobre ter conhecido França, Alemanha e outros cantos da Europa de moto. Tudo estava muito lindo, e eu resolvi arriscar.

– Isaac, conte-me algo que te deu medo, nesta viagem.

Tenho certeza que o homem selecionou estrategicamente aquela história. Ele procurou nos meus olhos algo que certamente me daria pesadelos. Um relato que poderia emergir ao meu consciente no meio da noite, para me fazer perder a paz. Ele me contou uma história envolvendo uma cobra.

Contou que, certa noite, viajando pela Suécia, resolveu tomar banho de rio. Uma história que começa assim não pode acabar bem, não é mesmo? Durante esse banho de rio incauto, recebeu no joelho a picada de uma cobra. Ela começava a se enrolar no corpo do homem, quando ele conseguiu se arrastar até a moto e alcançar uma faca. Com dificuldade, rasgou a garganta do réptil. Isaac desmaiou e acordou no hospital, no dia seguinte.

Assim que ele terminou de contar o relato, eu já estava de cabeça baixa, apoiada em meus braços, na mesa. Meus ouvidos começavam a vacilar – estava ficando sem audição. Já desmaiei algumas vezes e sei que, para mim, esse é o sintoma inquestionável de que vou empacotar. Suava frio. O próximo passo seria ficar sem visão. Mas o processo de desmaio foi abortado com um copo d’água. Só fui sentir vergonha quando senti que já estava melhorando. Isaac riu.

– Você é bem impressionável, né?

Ri, com simpatia. É, Isaac. Sou muito impressionável. E que bom. Se não fosse, provavelmente não serviria para ser repórter.

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