Arquivo do dia: 24/11/2011

Oito Minutos para Isabel

Eram quase 20 horas, e eu estava trabalhando desde as 8 da manhã. Era uma pauta enfadonha sobre o Natal. E, após trabalhar doze horas seguidas pensando no Natal, eu estava exausta. Eu sempre gostei do meu Natal, do Natal da minha família. E não do Natal que transborda pela imprensa e pelo comércio.

O fotógrafo e eu esperávamos o motorista na frente da casa de uma artesã que entrevistamos. Ele estava demorando. Sentamos na calçada, conversando sobre a folga breve que teríamos no final do ano. A rua estava vazia. Enquanto falávamos, eu ouvi um ruído que acionou um botão em algum lugar obscuro na minha mente: tive a sensação de que algo estava errado. Eu não fazia ideia de que, alguns anos depois, conheceria muito bem esse mecanismo: o de saber que algo está errado.

Era como se fosse um gato triste. Um miado agudo e insistente, porém sem força. Será um gato preso?, perguntei. Levantamos para conferir de onde vinha o barulho. Achei!, disse o fotógrafo. Apontou para uma sacola de plástico que se mexia, perto de uma árvore. Vamos abrir logo e libertar o gato, tadinho!, falei.

O fotógrafo rasgou a sacola, sem delicadeza. E foi quando nos deparamos com uma criança recém nascida. Lembro-me muito bem que, antes de ver o bebê, vi a expressão de puro terror no rosto do meu colega. Olhei a sacola, e vi a mãozinha suja tateando o ar.

Apenas o chorinho fraco da criança rasgava o silencio do nosso terror.

Ligue para a emergência agora!, gritei. O fotógrafo, tremendo, apertou mil vezes as teclas do celular, até acertar o número dos paramédicos. Peguei a criança, que ainda estava no chão, dentro da sacola e acomodei no meu colo. Era um bebê miúdo, que mal conseguia abrir os olhos. Todo sujo, com cheiro de sangue. Estava gelado. Chorava fraquinho. Tirei o lenço que estava ao redor do meu pescoço e envolvi a criança. Era um lenço comprido, preto, com estampa de caveiras. Mas serviu certinho para envolver a menininha.

Meu colega falava ao telefone aos berros. Quando me dei conta, eu estava chorando. Eu não fazia ideia que integrava, nesse momento, uma cena que meu amigo lembraria para sempre. Essa repórter novata, com cara de criança, abraçando um bebezinho sujo. Os dois chorando.

Como um passe de mágica, a rua se encheu de pessoas. Todos queriam ver o bebê, muitos se ofereceram para dar banho e cuidar. Mas o fotógrafo proibiu que as pessoas encostassem na criança, disse para aguardarem a ambulância e a polícia. Isabel parou de chorar, apesar de estar com a expressão mais agoniada do mundo. Ela abriu os olhos e eu caí dentro deles.

Não vi quando chegaram os paramédicos. Não reparei – estava deitada nos olhos de Isabel. Os profissionais solicitaram que eu entregasse a criança para exame. Entreguei, é claro. Enroladinha no meu lenço. Conversamos com a polícia, enquanto eu via Isabel ir embora na ambulância. O fotógrafo me perguntou, desanimado, se deveríamos registrar aquilo no jornal. Falei que não. Em prol da privacidade de Isabel.

A notícia não saiu em lugar nenhum. O fotógrafo e eu nos lembrávamos disso só com o olhar, cada vez que nos encontrávamos pelos corredores do jornal. Mas nunca mais falamos sobre isso. Ele sabia que me doeria.

Nunca mais a vi. Só em sonhos. Mas fico imaginando como seria, se um dia encontrasse por aí uma adorável garotinha com um lenço preto de caveiras enrolado ao pescoço.

Sempre que lembro desse incidente, tenho a impressão que ele durou umas duas horas. Mas o fotógrafo que estava comigo jura que não durou mais do que oito minutos. Oito minutos que certamente levarei comigo nos próximos oitocentos anos.

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Arquivado em Repórter distraída