Um Brinde à falta de Noção

Em uma terça-feira qualquer, eu havia sido convocada para fazer o perfil de um “senhor muito interessante”. Não havia tempo para pesquisar quem ele era, nem o que fazia – fui sem informação nenhuma ao apartamento de José. E isso é uma das piores coisas para um jornalista. Cair sem paraquedas em uma pauta. Mas… fazer o quê?

Cheguei ao prédio, subi de elevador ao 12º andar e bati na porta. Um senhor rechonchudo me convidou para entrar e dei de cara com o reino dos copos. Isso mesmo: copos. Daqueles que a gente toma água, coca-cola e suco de morango.

O apartamento estava todinho decorado com copos. Copos de madeira, de vidro, de plástico, de cera, de metal. Pintados, lisos, ilustrados, xadrez, de bolinhas. Pequenos, grandes, compridos ou do tamanho dum dedal. E por toda parte. Me desculpei com José e abri o jogo. Qual seria a sua profissão? Copeiro? Ou um desempregado vivendo seu ócio criativo a todo vapor?

Eu falei que estava sem informações o suficiente, pois havia sido convocada em cima da hora para fazer a matéria. Então, ele teria que me contextualizar. Qual é a sua profissão?, perguntei.

Ele riu. Nenhuma, respondeu. Olhei para ele como quem olha para um telefone celular voador, ou seja, sem entender nada. E por que o senhor fabrica copos?, falei. Porque são bonitos!, respondeu ele, revoltado. Me falou também que fabricaria um copo naquele momento, para eu ver como era o processo. Segui José até uma salinha, nos fundos do apartamento.

Então ele acendeu um baseado. E me ofereceu uma “bolinha”.

Não aceitei, é claro. Tentei sair de lá o mais rápido possível. Mais tarde, na redação do jornal, tentei escrever algo o menos psicodélico possível. Não consegui. Avisei os editores que aquela matéria não poderia sair; não ia ficar legal. Eu me sentiria mal pelo resto da minha existência.

O que você faria nessa situação?

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2 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

2 Respostas para “Um Brinde à falta de Noção

  1. Roberta

    Eu acho que o seu editor, que disse que o homem era interessante, aceitou o baseado quando esteve lá.

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