Quando a Beleza faz a Curva

Marcela tinha ganhado algum concurso nacional de beleza. Era natural de Joinville, então, lá fomos entrevistá-la. Era realmente muito bonita pessoalmente. E simpática. Mas tinha alguma coisa de errado com ela; eu não sabia dizer, a princípio, o que era. Achei que era apenas alguma insegurança minha – ou até intimidação, afinal, eu estava de frente com uma das mulheres mais bonitas do Brasil.

A modelo tinha uma história de vida parecida com a de muita gente que vive da beleza. Em criança, adorava se maquiar, vestir as roupas da mãe, atuar, cantar. Adolescente, aprendeu a desfilar. E, aos 18 anos, ganhava seu primeiro concurso de destaque. De uma vida humilde, partia com segurança para a rotina glamurosa.

Uma coisa que reparei em especial na garota era a sua voz – tinha um timbre angelical. Parecia um anjo sussurrando, falava sempre em um tom mais baixo e agradável. Uma donzela. Era uma senhorita das antigas, uma personagem que saiu de um dos romances de Machado de Assis e aterrissou em uma modernidade por demais agressiva para ela.

Eu e o fotógrafo conversamos com Marcela por mais ou menos uma hora. Apesar de sua beleza digna de uma pessoa da realeza, ela tinha gestos tímidos de uma oriental. Ria escondendo a boca, agradecia os elogios com um leve baixar de cabeça. Na hora de fazer as fotos – escolhemos fotografar na Expoville – ela nos assustou. Soltou-se das amarras de menina humilde, e virou um mulherão. Todo mundo voltou para a redação apaixonado por Marcela.

Ficou combinado que eu escreveria a matéria e mandaria por e-mail para que Marcela lesse e corrigisse o necessário. Assim, teríamos certeza de que todos os dados e informações seriam publicados corretamente.

Escrevi a matéria e enviei. Mas nós tínhamos um prazo curto. Marcela só foi me responder quando a matéria já estava fechada, com a editoria, sem possibilidades de retoque.

E foi aí que encontrei o problema de Marcela. Foi aí que encontrei a esquina de sua beleza.

Por e-mail, ela me informou cordialmente que queria corrigir um pequeno dado, algo relacionado à sua trajetória. Falei que não seria mais possível. Então meu telefone tocou. Do outro lado, uma voz de bruxa me acusava de ser uma irresponsável. Demorei a descobrir que era a anja Marcela, transformada em capeta. Ela berrava com uma voz que eu jamais imaginei sair de sua linda boca. Me xingou de alguns palavrões selecionados com maldade.

O que eu poderia fazer? Não há mágica para fazer voltar o tempo. E Marcela não entendia isso. Me acusava de ser anti-ética e irresponsável. Até aí tudo bem, engoli seu mau humor bélico e tratei-a com paciência o tempo todo. Mas quando ela resolveu encher a boca de ironia e chamar-me de “jornalistinha”, eu quase pirei. E, com uma maldade maior do que a dela, selecionei o pior xingamento que ela poderia ouvir. E o fiz com os lábios derramando em prazer:

– Marcela, vem cá. Você nem é tão bonita assim.

A garota silenciou. E desligou o telefone.

A matéria saiu, e eu me arrependi por tê-la escrito com tanto cuidado. Marcela não merecia. Ela era uma farsa, e eu havia colaborado para isso. Uma pena, mesmo, que não havia dado tempo de mostrar ao leitor a bruxa por trás de uma beleza.

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5 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

5 Respostas para “Quando a Beleza faz a Curva

  1. Yasmine

    hahahahahaha ri muiito!! muito bom!!!!

  2. Tiago Cota

    DIABO TRAVESTIDO DE ANJO….

  3. Leonardo

    Eu acho que ela esta até agora se perguntando se é ou não é…

  4. ossos do ofício né vane, pra guardar no baú!

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