A Melhor Profissão do Mundo

Eu já entrevistei um anjo, sabia?

O nome dele é Alexandre e ele é cardiologista. Literalmente, já havia salvado muitas vidas. Alto, jovem e de olhos azuis. Seu aperto de mão era de quebrar os ossos e amolecer as pernas.

Eu havia sido pautada para fazer um perfil sobre esse médico joinvilense que se destacava por ter inventando um interessante método em fazer cirurgias de coração. Não lembro ao certo como era esse método – mas dava muito certo, e era uma novidade nacional.

Comecei a entrevista com minha habitual pergunta: “como foi sua infância?”. Eu acho que a infância das pessoas revela muito sobre o que elas são hoje. A infância é a instituição mais antiga do mundo e é cheia de tesouros. E uma coisa é fato: um perfil não se faz apenas com aquilo que o entrevistado conta. Se faz, sobretudo, com aquilo que ele não conta. Trejeitos, modo de falar e silêncios são matéria prima para um perfil decente.

Alexandre era filho de outros anjos, ou melhor, médicos. Apesar de nunca ter desejado ter essa profissão, ele nasceu amando pessoas. E acabou que essa virou a sua profissão: amar as pessoas. Toda noite, quando descansava a cabeça sobre o travesseiro, na cama, sorria pensando nas pessoas que havia salvado. Mas, muitas vezes, afundou as lágrimas pela fronha, ao lembrar daqueles que tinha perdido para o outro lado.

Me contou, empolgado, que uma vez fez um salvamento de helicóptero. Disse que se sentiu um super herói de verdade, voando pelos ares, para salvar a vida de um senhor que havia tido um enfarto. Sorria ao olhar o mundo de cima, aquele mar de pessoas, todas com seus pensamentos, seus segredos, suas dúvidas e seus sonhos. Salvou o homem, e essa era a melhor lembrança que ele guardaria em seu coração tão humano.

Alexandre disse que tinha a melhor profissão do mundo. Porque afinal, a partir de sua função, ele podia devolver as pessoas às suas vidas, adiando a morte. Por consequência, essas pessoas poderiam continuar amando esta coisa que é estar sobre a Terra, que é ter o sangue batendo por entre as veias, que é encontrar bonitezas por todos os cantos que olhamos.

Alexandre é daquele tipo de pessoa que, naturalmente, já é empolgada com o fato de estar viva. E ele não consegue segurar essa empolgação apenas para ele – o homem cativa tudo o que está ao seu redor. Esbanja vida. Eu suspeitei que ele fosse capaz de dar vida a um apontador de lápis. Tudo ao redor dele era muito vivo.

Me despedi dele, amando muito mais estar sobre o planeta Terra e viver sob as condições de um ser humano. Claro que eu senti que ser jornalista era um lixo – eu nunca salvaria a vida de ninguém, heroicamente, como Alexandre fazia. Mas eu poderia, muito bem, encher meus textos de vida. Assim, quem sabe, daria um pouquinho de esperança para aqueles que acariciarem minhas palavras com os olhos.

O perfil foi publicado com o título “De todo o coração”. Não poderia ser melhor para explicar a profissão desse querido anjo, e da minha nova meta de vida.

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3 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

3 Respostas para “A Melhor Profissão do Mundo

  1. 😉 teus textos tem muita vida sim … e umas tiradas de arrepiar… a gente lê, para, lê de novo … e pensa: ah, vanessa …. =) sem querer puxar o saco, mas já puxando, fazer o quê, passei a tarde revisando teus contos 😉

  2. [3]

    Vanessa, que vontade de conhecer esse anjo e encher minha vida de vida. Por ora, seu texto já surtiu o mesmo efeito. Mas aguardo ansiosa pelos próximos.

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