Arquivo do mês: dezembro 2011

Queridos Amigos! (ou um feliz 2012 para você)

Cheguei a um ponto crítico de minha existência: vejo poesia até no lápis caindo no chão.

As pessoas que me acompanham há bastante tempo sabem que escrever é uma prioridade para mim. Mas, por um motivo que ainda não entendi – destino ou carência? – apeguei-me ao blog de uma maneira obsessiva nos últimos meses.

Produzo postagens com a voracidade de um faminto. Alguns diriam que, através disso, tento comprovar a utilidade de minha existência. Já outros sussurrariam, enquanto fumam e olham pela janela de seu apartamento, que a garota distraída encontrou o seu caminho.

2011 foi um dos anos mais ambíguos, esquizofrênicos e fora da casinha que já vivi. Começou com meus pais se separando, a casa deles sendo atingida pelas fortes chuvas de janeiro e meu cachorrinho de 15 anos falecendo. Eu já estava abalada antes; ainda me recuperava de uma dolorosa demissão. Eu me fazia aquelas perguntas que geralmente os adolescentes fazem no escuro de suas inseguranças. O motivo de eu estar aqui, agora, nesse mundo, era uma das minhas questões. A tristeza me abraçou. O claustrofóbico abraço da tristeza.

Comecei a trabalhar numa rádio. Se minha vida fosse um filme, essa seria a hora em que o personagem principal, triste e machucado, encontra um lugar feliz e criativo. E meus pais resolveram que seriam mais felizes juntos. A música, antes um violino triste e chorão, agora seria um piano alegre. Ainda bem que, nesse meu filme, um cara muito especial me acompanha de perto. O tal do músico. Ele é que faz a trilha sonora de tudo isso.

Logo depois do meu aniversário de 27 anos, que foi em agosto, tudo ficou ainda mais feliz. Meu projeto para lançar um livro foi aprovado no Simdec – o sistema de apoio às artes de Joinville. Ou seja: ano que vem serei a boba mãe de um livreto cheio de textos e ilustrações.

Ressuscitei o blog como uma maneira de dar choques na minha própria alma. Para tentar reanimar uma pessoa perto da morte, os paramédicos usam o desfibrilador para jogar correntes elétricas ao coração dela. E o blog foi o desfibrilador da minha alma, que estava perdida por aí. Sim, me reanimou – até demais.

Além de abrir meu coração para o blog – como quem abre o velho armário, cheio de arquivos importantes e empoeirados –, voltei a ler com empolgação. Me sinto como quando tinha 20 anos. Fazia faculdade de comunicação, atualizava meu blog com esmero e lia literatura latino-americana com afinco. A diferença é que agora não faço mais faculdade, ainda bem. Deus me livre voltar a estudar. (Sou distraída, lembram? Uma fácil vítima de professores adeptos ao bullying). E eu nem acho que mil diplomas vão fazer uma pessoa melhor do que a outra.

De qualquer jeito, essa postagem é para agradecer a todos vocês que me lêem por aqui, que aparecem diariamente ou semanalmente para tomar um café virtual comigo. Acho interessante ver que muitos me procuram pelo Google, e eu não faço ideia de quem seja. Quem aí estiver à vontade para se identificar, por favor o faça, vou adorar.

Ano que vem, haverá um novo capítulo para este blog. Tem uma parada rolando, mas ainda não posso contar. Estou transbordando em ideias e empolgação.

Um feliz 2012 para todos nós!

E que os lápis continuem rolando das mesas e desmaiando ao chão com a habitual poesia.

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A Saudade é o Vento que Acaricia o seu Rosto

Fazia algumas semanas que eu estava agoniada com uma ideia de reportagem. Precisava escrever sobre aquele tema – era algo que estava se mexendo dentro de mim e precisava vir à luz.

Sugeri ao jornal fazermos uma reportagem sobre saudade. Existe tema mais subjetivo? Até existe mas, naquele momento, foi a coisa mais inconcreta que consegui pensar. Eu amo encontrar a luz da subjetividade no rosto das pessoas. Eu amo desafiar, com um barco pequeno e desprotegido, o mar profundo e escuro do coração das pessoas.

A sensação de sentir falta de algo ou alguém pode ser sombra, luz ou bolhas de sabão. Tudo isso, encontrei no relato sincero de Andressa.

Entrevistei várias pessoas para a reportagem – e elas sentiam as saudades que já nascem junto com o ser humano, em seus genes. Acho que, antes de ser criança, a pessoa já sente saudade de ser criança. Esses entrevistados, claro, tinham saudade do pai que foi embora cedo demais, das comemorações natalinas de antigamente, do campinho em que jogava futebol, do cheiro dos biscoitos em forma de estrela que a avó preparava no forno, do gosto de goiaba que experimentou em um sítio que não existe mais, do cachorro que foi muito querido e que morreu de uma doença desconhecida para a inteligência humana, do canto de um passarinho que fazia dó-ré-mi em sua gaiola, nos tempos azuis da meninice.

Mas Andressa alimentava uma poética saudade pela casa em que morou durante toda a infância. O mais interessante surgiu no decorrer de seu relato.

Andressa era uma webdesigner muito estilosa. Toda moderna, era cheia de tatuagens. Tinha cabelos volumosos, pretos e curtos. Era aquele tipo de pessoa que sempre chama a atenção, onde quer que esteja. Ninguém diria que ela guarda uma lembrança tão antiga, empoeirada e amarelecida, por trás de suas pálpebras. “Se eu fechar os olhos e respirar fundo, conseguirei sentir o cheiro da casa em que morei”, disse Andressa. Logo após me contar isso, fez exatamente o que disse. Fechou os olhos, respirou fundo e: sorriu.

“Mas como é esse cheiro”, perguntei, curiosa, sendo menos repórter e mais abelhuda. Ela me disse que o cheiro era uma mistura de carpet velho, mato fresco, cloro da piscina, couro dos sofás, expectativas, flores e… um cheiro amarelo, que não sabia definir bem. “Cheiro amarelo?”, questionei, instigada por essa mistura sensorial.

“Isso, cheiro amarelo!”, me disse a impaciente Andressa. “Amarelo de sol, de dia bonito, de verão. Era sempre verão por entre as paredes daquela casa. Tinha só um cômodo em que não era verão. Naquele cômodo, havia uma estação do ano que existia apenas lá. Uma mistura de inverno, chuva, esgoto e velas acesas”, falou ela, me surpreendendo muito. “E que cômodo era esse?”, eu disse, quase me humilhando, necessitada de saber essa história inteirinha. “O banheiro do quarto dos meus pais”, respondeu ela, encolhendo os ombros. Estremeci.

Senti que estava entrando em zona de perigo. Alerta: lembrança dolorosa a caminho.

Andressa reparou que eu temi pelo que ouviria nos próximos minutos. Então ela abriu o jogo: falou que não era nada de mais, apenas foi ali que flagrou pela primeira vez seus pais transando. Mas havia violência na coisa: estavam em uma posição que humilhava a mãe dela, e a mulher chorou de remorso quando a filha pequena flagrou o ato.

“Pelo sexo, tudo bem, nem liguei muito”, disse Andressa. “O difícil foi encontrar meus pais naquela posição tão horrível. E o cheiro que exalava naquele banheiro”. Fez cara de nojo. Quando me dei conta, eu também estava com cara de nojo. Mudei de assunto.

“Ok, mas então você sente saudade do cheiro da casa, em geral”, falei. Andressa, como que saindo de uma hipnose, afirmou com veemência. Sim, sentia saudade do cheiro da casa. Me contou também que, até um ano atrás, sonhava quase todas as noites com a casa. Sonhava que encontrava novos cômodos, antes desconhecidos.

E sonhava com a droga do banheiro dos pais. Muitas vezes sonhou que era ela que estava no banheiro, fazendo sexo com um homem em uma posição humilhante. E, um dia, parou de sonhar com a casa. Como se a lembrança tivesse sido mutilada de sua memória.

“Não sei exatamente o motivo de eu ter parado de sonhar com isso”, me disse Andressa. “Mas deve ter algo a ver com maturidade, ou até a superação de algum trauma que eu não sabia que tinha.” Concordei. “Restou a saudade da saudade”, disse a garota.

Pois é, Andressa, eu sei como é. Entendo um pouco sobre esse dominó maluco que são as nossas emoções. E você, leitor, o que tem a me dizer sobre a sua saudade?

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Você também é de Esparta?

 No começo de 2009, como forma de começar bem o ano – que no fim das contas não foi grande coisa –, resolvi dar uma ideia diferente ao jornal. Uma ideia que beirava à insanidade. São os momentos insanos que justificam a nossa vida em cima da Terra, não é mesmo?

Sugeri que sorteássemos um assinante do jornal para entrevistá-lo. Eu estava cansada de fazer perfil de pessoas acostumadas a dar entrevista. Claro que existiam as exceções – gente com histórias ricas que valeu muito a pena ter transformado em palavras. Mas, dessa vez, eu pensei que seria interessante pescar alguém com uma história aparentemente simples, alguém assim como eu, você e o cidadão tomando café na esquina. Poderia ser uma loucura, mas todos ficaram empolgados com a ideia do elemento surpresa.

Eu estava no auge de um pensamento que carrego até hoje: todos temos grandes histórias. Mas muitos de nós não têm noção da própria riqueza. E foi assim que conheci a diarista Vera, a sorteada do mês de janeiro para o perfil do jornal. Ela me recebeu como uma sentinela, no portão de sua simples casinha. Não nos deixou entrar, estava desconfiada.

Pequena e forte, imaginei que Vera carregasse alguma semelhança com os velhos guerreiros de Esparta. Aqueles que eu estava acostumada a ver em pinturas e desenhos, nas aulas de história do segundo grau. Guerreiros com expressão puramente bélica, com cicatrizes e olhos malvados, que certamente transformavam-se em olhos bons para os filhos e pessoas amadas.

A mulher tinha uma profunda cicatriz vertical no lado direito do queixo. Entre as sobrancelhas, mais duas cicatrizes verticais – mas essas cicatrizes pareciam ter sido fincadas por algum acidente emocional de seu coração, e não por faca em punho.

Assim que entendeu que eu, o fotógrafo e o motorista não éramos bandidos disfarçados de equipe jornalística, nos deixou entrar e nos tratou muito bem. Nos acomodou em sua simples sala e serviu café com bolachas. Mas, ainda assim, relutava em dar entrevista. Estava envergonhada. Achava que não tinha nada de extraordinário para dividir com os leitores. Fiquei com medo que não tivesse mesmo – mas esse medinho durou pouco. Não demorei a encontrar o tesouro de Vera.

Com o sorriso que uso apenas para a minha mãe, convenci Vera a me mostrar algum arquivo empoeirado de sua história. Com a expressão impaciente e amorosa que certamente a mulher assume para seus filhos, aceitou. Fechou os olhos e abriu as mãos calosas, como o real gesto da verdade.

Os caminhos de sua história eram cheios de acidentes: mas os nasceres do sol que viu valem mais do que muito ouro nesse mundo.

A mulher me contou, extremamente envergonhada, que tinha três humilhações na vida. Uma: foi abusada pelo próprio pai, em criança. Duas: arranjou um marido que batia nela. A terceira merece que a entrevistada conte pelas próprias palavras:

“Um dia acordei maluca, louquinha da cabeça. Estava com algum estresse, sabe? Estava grávida da segunda criança. E, quando a mulher está prenha, faz cada uma. Eu, pelo menos, fiz. Peguei um facão antigo que tinha em casa e machuquei meu marido. Fiz cortes fundos nas costas dele, enquanto dormia, bêbado. Depois fui atrás de meu pai, e também machuquei ele, até tirar sangue. Outro bêbado. Não quis matar nenhum deles, só queria que eles sofressem fisicamente por tudo o que me fizeram.”

Essa foi uma das histórias mais absurdas e lindas que já ouvi. A ficção tem a obrigação de sempre soar verossímil, como a realidade. Mas a realidade, de vez em quando, se parece com os melhores momentos do realismo fantástico. E é esse realismo fantástico que todo ser humano tem.

Realmente, Vera era uma espartana da melhor estirpe. Infelizmente não pudemos publicar esta parte justiceira de sua história. O que publicamos foi seu orgulho em ser uma diarista que criara sozinha dois filhos homens. Um deles tornou-se músico. Um dia, esse rapaz compôs uma música sobre ter orgulho de sua mãe diarista e cantou em público. Vera foi às lágrimas, aí entendeu que alguns sofrimentos profundos não superam a felicidade plena.

Vera encontrou na vida duas merdas de homens que a machucaram – mas deu de presente ao mundo dois rapazes incríveis, filhos da bondade. E esses eram seus troféus. Eles eram a assinatura de Vera no mundo. Eles eram um homem loiro e um homem moreno. Duas criaturas que não foram ensinadas de acordo com a filosofia espartana, então, não tinham a intenção de levantar um cisco de sujeira contra uma mulher e nem contra outro homem.

Depois que o perfil foi publicado, Vera telefonou para o jornal atrás de mim. Fiquei assustada, achando que tinha publicado algum erro e que ela viria atrás de mim com um facão. Mas não, só queria agradecer a “matéria bonita que a vizinhança toda estava comentando”. Menos mau. O problema de tudo isso é que a ideia de ter um facão guardado em casa me é muito tentadora desde então. Minhas cicatrizes não são as mesmas de Vera; mas não custa me prevenir.

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Viva Loucamente, Gabriela

Gabriela, quando adolescente, era modelo. Aí, desenvolveu uma doença degenerativa, seus músculos atrofiaram e ela passou a andar de cadeira de rodas.

Esse foi o resumo imbecil que me passaram, ao ser convocada para entrevistar uma das pessoas que mudaram a minha vida. Resumir pessoas é o mesmo que matá-las pela ausência da palavra, da emoção, da história e da oração. Resumir pessoas é tarefa para cirurgião – só um especialista em corpo humano ou em artes plásticas para saber o que ainda está pulsando, e o que pode ser descartado.

Na época da entrevista, Gabriela tinha 29 anos, cabelos loiros e compridos, olhos azuis de céu de outono e um beijo da tristeza nas pálpebras. Ela morava em uma casa grande, bonita e com o charme das coisas antigas. Havia bastante espaço para andar com sua cadeira de rodas. Na sala de estar, havia fotos de sua infância luminosa e adolescência. Era criança digna de propaganda de café da manhã.

A mãe de Gabriela era superprotetora. Quis ficar ao lado da filha, durante a entrevista. Interrompia a garota, fazia observações irônicas e, repetidamente, humilhava os desenhos que o destino fez pela vida da família. Até que uma hora Gabriela deu um grito e a mãe retirou-se. Assim, o clima ficou bem mais leve e conseguimos conversar com naturalidade.

Gabriela começou a sentir que havia algo de errado com sua vida perfeita perto dos 16 anos. Em certos momentos, sentia dificuldades para caminhar. Para não assustar aos outros e não sentir-se vítima, não falava de suas dificuldades para ninguém. Os meses se passaram, e era cada vez mais difícil dar um passo atrás do outro. O cúmulo foi o dia que ela estava na sala de aula, e não conseguiu se levantar para ir ao banheiro.

Já entrevistei várias pessoas que eram obrigadas a viver na cadeira de rodas. Pessoas que pensavam de maneira diferente, com histórias diferentes, com sonhos diferentes e marcas de expressão diferentes. Mas todas concordaram que é um lixo ter que depender de outras pessoas para realizar tarefas básicas do dia a dia, como ir ao banheiro. Isso, porque sentem que estão incomodando os outros. Ser dependente da paciência e da boa vontade dos outros é uma das piores prisões do ser humano.

Gabriela disse que, ultimamente, sentia que seu coração poderia atrofiar a qualquer momento. O fotógrafo que estava comigo disse:

– Deixe de ser boba, Gabriela. Seu coração não vai parar.

– Desculpe-me – disse a garota -, mas isso não é uma invenção minha. O médico disse isso, mesmo. Meu coração pode parar a qualquer momento, sim.

Eu e o meu colega mergulhamos em um silêncio de medo que não foi quebrado nunca mais.

No auge da minha ingenuidade de repórter novata, fiz uma pergunta pela qual eu me arrependeria em todas as minhas noites de insônia.

– E o futuro, Gabriela? Quais seus sonhos, como você se vê no futuro?

Ainda bem que a garota foi paciente e piedosa comigo.

– Se eu viver até amanhã, já está bom.

Eu resolvi perguntar isso porque quando nos deparamos com pessoas em situações difíceis, geralmente enaltecemos o futuro como uma entidade que carrega bons agouros e esperança. Mas até disso Gabriela tinha se desapegado. Eu queria socar meu próprio rosto quando ouvi essa resposta. Acho que o fotógrafo também queria me socar. Provavelmente, essa entrevista rendeu a ele um melhor aproveitamento da vida, mas algumas madrugadas de terror também.

Para fazer a foto, o meu colega sugeriu que Gabriela se aproximasse de um arbusto recheado de rosas brancas, no jardim.

– Posso fazer uma coisa diferente?, pediu Gabriela, com a mesma expressão sapeca de suas fotos de infância.

– Pode! – incentivou o fotógrafo, talvez mais criança do que ela.

Devagar, Gabriela apoiou as mãos nos braços da cadeira. E foi levantando muito lentamente. Senti aquele aperto na garganta, aquela vontade maluca de chorar e desaparecer do alto de minhas pernas saudáveis. Olhei para o fotógrafo: ele chorava loucamente, enquanto fotografava Gabriela equilibrando-se de pé. Chorei junto com ele. Apenas a garota sorria. Sorria igual criança aprendendo a andar e a descobrir o mundo. Chorei o resto do dia. E choro agora também, lembrando de tudo isso.

Sempre que me sinto um lixo por algum motivo bobo dessa vida, fico me perguntando se o coração de Gabriela ainda bate. Então, me dou conta que meu coração também bate, bate avidamente, procurando por esses pequenos grandes motivos que tornam a nossa existência muito mais valiosa. E entendo que tudo nessa vida tem um objetivo e uma explicação, mesmo que abstrata para nossos olhos humanos, beijados pela tristeza.

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Sobre estar Viva

Esses dias, depois de um expediente cansativo, voltei para casa e senti-me mais exausta do que o normal. Foi aí que lembrei do meu calmante. Eu o havia adquirido há algumas semanas. Foi caro. O escolhi a dedo. Aquele seria o meu calmante especial. Não, não se trata de medicina – pelo menos não da convencional. O meu calmante é uma bela flauta transversa Yamaha N211.

Comprei de segunda mão. Tinha marcas de outros sopros, outras alegrias. O histórico de ex-namorados que todos têm.

Naquele fim de dia cansativo, tornei a flauta parte de mim. Assoprei pela sua embocadura sete horas de cansaço, os telefonemas que não consegui fazer, os e-mails que voltaram, os nãos que levei na cara. Assoprei tudo de ruim. E a flauta me devolveu dó, ré e mis suaves, sorridentes, compreensivos. Me sinto mais viva com a flauta em mãos. O instrumento é o braço que falta em mim. O terceiro olho. A flauta perdoa os meus dentes fora do lugar e ama as minhas unhas com esmalte descascado. Ela é o meu nome do meio, o meu adjetivo, a chuva do meu deserto particular.

Me sinto viva.

E você? Qual é a sua flauta?

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Primeiro Concurso Cultural Garota Distraída

O que está em jogo é uma linda edição antiga de capa dura de “Cem Anos de Solidão“, do Gabriel García Márquez. Para conquistar essa belezura, é o seguinte. Responda à pergunta: o que passa pela sua cabeça, nos momentos de distração?

A sua resposta deve ter no máximo QUATRO FRASES.

O principal critério é a criatividade.

Para participar, responda nos comentários deste post com seu textinho, junto com nome completo, cidade e e-mail. Se você não for de Joinville, mando por correio (por minha conta)!

Mãos à obra. O resultado sai no dia 6 de janeiro de 2012! Ou seja, mande seu texto até no máximo dia 5/1/2012.

 

UPDATE: os comentários ficarão invisíveis para resguardar a privacidade dos participantes. 🙂

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O Prisioneiro de um Mundo Cor-de-Rosa

Entrevistei, há alguns anos, um homem que nasceu mulher.

Estamos acostumados a ver homens que, com o tempo, se revelam verdadeiras mulheres. Fazem cirurgia de troca de sexo e, voi là, temos uma incontestável pessoa do sexo feminino. Mas as mulheres que se descobrem homens ainda não conseguem se tornar homens completos; a cirurgia plástica ainda não está evoluída a esse ponto.

Paulo me contou que nasceu Paula. Sempre soube que era homem, mesmo quando usava os humilhantes laços rosas na cabeça e os vestidinhos de babado. Por arrogância ou pura maturidade, sabia que a natureza tinha errado com ele. Assim como a natureza também erra ao permitir a existência do câncer, das orelhas de abano, dos sisos e da maldade de coração.

Ele nasceu prisioneiro de um mundo rosa. Seu nome feminino era um tapa na cara. A sua primeira menstruação, então, era o sangue dessa facada da natureza. Sangrava uma vez por mês, de tanta tristeza e desolação. Sangrava pelas meninas que se apaixonava. Sangrava pelo futebol que era proibido de jogar. Sangrava de ódio das bonecas.

Paulo não era homossexual – era um homem que, como a maioria dos héteros, só usa a palavra “gay” para zoar os amigos.

Na adolescência, era chamado de “sapatão”. Acabou se relacionando com lésbicas; mas o que ele queria era uma mulher que o amasse como homem. Que amasse suas homenzices, como andar só de cueca pela casa e acender o cigarro olhando o horizonte. Como a falta de senso para cozinhar e lavar a louça. Como o talento para arrumar todas as coisas que podem dar errado numa cozinha, numa casa e na face da Terra.

Mas não – Paulo acabava sendo amado por ter seios flácidos (de tanto que ele mesmo os socou) e pela coragem em meter-se em um mundo tão machista.

Você consegue imaginar o que é estar preso em um corpo que não é seu, em um corpo que carrega o sexo oposto, junto com seus prazeres e mazelas? No caso de Paulo, ele nunca viu vantagem em ser mulher. Qualquer vantagem, como o cavalheirismo alheio, era humilhante e horrendo.

Paulo aprendeu a dar prazer às suas mulheres apenas usando o dedo indicador da mão esquerda.

Aos vinte e poucos anos, Paulo definitivamente assumiu seu nome no masculino, usava roupas masculinas e usava meias enroladas na cueca, para disfarçar a falta de protuberância. Foi só perto dos 40 anos que Paulo pôde fazer uma cirurgia para retirar as mamas e o útero. Levou injeções com altas doses de hormônio masculino. Criou barba e ficou careca. Realizou-se.

Hoje, Paulo tem 61 anos. Adotou filhos, tem várias ex-mulheres, já se meteu em brigas e precisa parar de fumar. Seu passado feminino é o pesadelo que de vez em quando o faz suar na cama, de madrugada.

Sempre que você quiser xingar um homem, pense trinta vezes antes de chamá-lo de gay, bichinha, viado. Porque com certeza tem muito gay, bichinha e viado que é mais homem do que muito “homem” por aí. E você, homem, que se ofende com esses adjetivos, faça o favor de sair do senso comum do preconceito e pense sobre as várias realidades que encontramos por aí. Com amor, Garota Distraída.

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