Seus Passos são todos Musicais

Davi era músico. Sorriso de dentinhos separados. Encantador. Seus olhos azuis eram uma ironia, como se fosse Deus dizendo: algumas pessoas simplesmente são muito mais bonitas e talentosas do que as outras, sinto muito.

Fui convocada para fazer um perfil de Davi. Líder de uma banda de pop rock com grande destaque em Joinville, o rapaz era conhecido na cidade como uma pessoa “de muito caráter”. A princípio, não entendi muito bem o que quiseram dizer com isso – e não perdia por esperar que, em seguida, entenderia mais do que muita gente.

Encontrei Davi em um estúdio, onde geralmente a banda dele ensaiava. Me cumprimentou com um abraço apertado. Eu, desconfiada, sondei discretamente seus dedos para tentar descobrir seu estado civil. Mas só encontrei anéis gastos que em nada lembravam alianças.

Com a voz grave de Renato Russo e a aparência encantadora de um Backstreet Boy, me contou que sua banda já tinha uma década de vida. Assustei-me. Uma década, já?

– Quantos anos você tem, a propósito?

– 34 – respondeu, sorrindo como um adolescente de 18.

– Ahn? – Me engasguei.

Davi disse que era uma pessoa muito religiosa. Deus mandou, na Bíblia: crescei-vos e multiplicai-vos. Por isso, o músico cresceu e se multiplicou. Davi tinha quatro filhos.

– Ahn? – engasguei-me de novo, imaginando o músico com quatro filhos, dois em cada braço.

– Mas eles já são todos grandes. O mais novo já tem 11 anos.

– Ahn?

Em um momento passageiro de retardo mental, sentindo-me um pouco confusa, supliquei por alguma descontração. Sugeri que Davi cantasse alguma coisa, tocasse seu violão. Ele aceitou imediatamente. Sacou o instrumento e começou a dedilhar. Seus dedos, recheados de anéis, refletiam as luzes do estúdio.

O sorriso de Davi apagou-se e ele virou um homem melancólico, metade ser humano e metade notas musicais.

Com a voz rouca e paciente, dedilhou ao seu tempo uma canção que abriu uma janela em meu coração. Através de notas musicais, me permitiu visitar algumas lembranças perdidas em um oceano de minha alma. A música falava sobre um amor não correspondido, e foi como se eu tivesse mergulhado em outra dimensão. Na dimensão em que meus passos são dedilhados por violão, e minha vida é narrada por voz rouca de anjo.

Entrevistar músicos e musicistas é sempre especial. A arte da música, para mim, sempre foi a mais sublime – ainda mais do que a literatura. Porque música é o barco que nos leva para passear pelo mar das emoções, enquanto a literatura é uma bússola. O músico nos leva pela mão a um não-lugar, ao estado de não pertencer mais ao tempo e nem ao universo dos seres humanos. Pela mão, Davi me levou ao fundo do mar e não me faltou oxigênio.

Davi, emocionado, encerrou a música. Eu, hipnotizada, guardei no bolso o choro que eu choraria mais tarde, sozinha em casa, no banho.

Pedi para Davi pensar em uma data para o fotografarmos para o perfil.

– Perfil? – Me perguntou, confuso.

– Sim, este é um perfil seu, e não uma matéria sobre a banda.

Com olhinhos tristes, mas sorrindo, Davi me pediu que deixasse para lá. Ele não queria ganhar visibilidade sem sua banda.

– Tem certeza? Podemos contar sua história e divulgar apenas você. – Falei.

Negou, sorrindo. Beijou minha mão e disse que ficaria para a próxima. Voltei para a redação sem perfil, sem matéria. Os editores ficaram brabos, mas eu não liguei. Voltei para casa com um choro num bolso, um sorriso no outro e um beijo na mão.

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1 comentário

Arquivado em Repórter distraída

Uma resposta para “Seus Passos são todos Musicais

  1. Yasmine

    (Para variar…) Lindo!

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