Plante uma Semente

Os editores do jornal me pediram uma “matéria humana” sobre um grupo de teatro que se apresentaria em um lar de crianças órfãs. Quando se fala em “matéria humana”, estão pedindo uma apuração com um olhar sensível, aquele com raio-x para olhar o coração das pessoas e as trovoadas que podem estar estourando lá dentro.

A companhia de teatro preparava-se para apresentar uma peça com temática de época; era contextualizada no século XVIII. As atrizes vestiam-se com lindos vestidos rodados, dourados. Já os homens empolavam-se com fardas pesadas e perucas engraçadas. Seria um espetáculo de humor com lições importantes para as crianças.

No quintal da casa em que moravam as crianças, foi improvisado um palco e cortinas, para que os artistas se trocassem. Minutos antes de começar o espetáculo, as crianças amontoaram-se ao redor do palco. Todas estavam vestidas com roupinhas simples, pijaminhas, moletons usados até mudar de cor. A plateia era uma mistura de cores pasteis. Fomos orientados a não fotografar o rosto das crianças. Mas eu fiz questão de olhar, um por um, seus rostinhos, para revelá-los em palavras depois.

As crianças aguardavam com ansiedade o início da peça. Cutucavam-se, riam, levantavam-se em brincadeiras inocentes. Até que uma música anunciou o começo do espetáculo, e os rostinhos miraram o palco. Com olhos atentos e bocas abertas em pasmo, viam uma peça de teatro pela primeira vez.

Alguns sorriam, ainda tentando entender o que aquelas pessoas abobadas faziam vestidas daquele jeito.

A história se desenrolava em cima do palco, enquanto a vida das crianças mudava na plateia. Uma das atrizes resolveu improvisar e saiu do palco – foi interagir com as crianças, todas sentadinhas no chão do quintal. Com seu vestidão dourado, cheio de costuras, rendas e pingentes, passou por entre a meninada.

Uma meninazinha, sentada nos fundos do quintal, levantou-se em susto quando a atriz se aproximou. Parecia um passarinho assustado. Pequena, magrela, loira e de pele bronzeada, olhou a atriz de cima a baixo, talvez se perguntando se deveria fugir ou berrar primeiro. Não fez nenhuma das duas coisas. Rendeu-se à curiosidade.

Havia perdido a infância, provavelmente em algum abuso dentro de casa ou nas esquinas sujas da cidade, mas ainda tinha coração curioso. Devagar, estendeu a mãozinha e encostou no vestido da atriz. Perguntou:

– É de verdade?

A atriz encheu a menina de beijos e carinhos, então voltou para o palco. Meio desengonçada, a criança voltou a sentar. Sorrindo. Eu não conseguia mais prestar atenção ao teatro – olhava fixamente a menina loira. Transformada. Não sei exatamente o quê havia de diferente na garotinha… Talvez um sonho renascendo em cima de sua cabeça.

Este foi o principal espetáculo do dia. A semente do sonho que plantou-se no terreno fértil da infância.

Mais tarde, perguntei para a monitora do lar a respeito da meninazinha. Ela era vítima da separação violenta de seus pais. Já havia sido espancada pelo pai, convocada a trabalhar na rua pela mãe, até seus pais perderem a guarda da menina e ela ir parar naquele lar de crianças, todas com histórias parecidas e tristes. Milena só tinha sete anos.

Durante muitos dias, ficou gravada na minha mente a sua voz fininha e trêmula perguntando:

– É de verdade?

Essa pergunta foi revirada e dissecada na minha mente. A menina nunca havia visto um teatro na vida, um vestido, uma atriz, uma história encenada, uma alegria. Provavelmente era o momento mais feliz de sua existência, até então.

Tempos depois, flagrei-me frente a situações que me fizeram perguntar a mim mesma:

– É de verdade?

Sim, Milena, a atriz é de verdade, seu vestido também é de verdade e os espetáculos de teatro existem dia após dia, encenados por atores que amam crianças de verdade. Mas, sobretudo, a felicidade é de verdade. E ela está mais perto do que o alcance da mão, ela pode fazer raízes dentro da gente, e a gente pode ser feliz para sempre! Milena, o amor é de verdade, e você encontrará muito desse sentimento pela sua vida. Acredite. É de verdade. Com amor, Garota Distraída.

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