Nosso Retrato em Sépia

Era uma reportagem especial para o dia dos namorados. Sugeri para a equipe procurarmos um casal de namorados com uma história interessante, bonita e divertida, fugindo do clichê romântico. Assim, encontramos Isadora e Inácio, um casal de arquitetos casado há pouco tempo. Ele era sete anos mais velho. Ela era mais alta que ele. Eles brigavam o tempo inteiro, e não se desgrudavam.

Assim que os conheci, tive a impressão de que eram muito adequados para a matéria. Descobri logo depois que eram mais que adequados: eram perfeitos. Era o casal da vida real, e não aquela coisa senso comum de novela em que o casal, incrivelmente bonito, passa por dificuldades a trama inteira, para no final casarem e serem felizes para sempre. Inácio e Isadora não – eles mostraram que a história da vida real começa no ponto final dos contos de fada. A história de verdade, com direito a emoção, reviravoltas e até vilões, começa com um casal unido pelas diferenças.

Tudo bem que tinham a mesma profissão. De resto, eram um absurdo de extremos. Isadora, perto dos 30 anos, vinha de família rica de poloneses. Inácio, 36, era filho de uma doméstica que o criara sozinha. Ela, de blazer bem passado e salto alto, parecia ter nada a ver com o baixinho com covinhas inesperadas nas bochechas. A bochecha esquerda tinha uma covinha perfeita ao lado da boca, enquanto a covinha direita flutuava perto da maçã do rosto. Uma graça.

A moça tinha um gigante histórico de ex-namorados. Dos relacionamentos passados, levava apenas más lembranças e alguns antidepressivos. Já o rapaz tinha casamentos fracassados e filhos bonitos. Apesar de aparentarem ser muito mais jovens do que na verdade eram, tinham alma de idosos. Reclamavam e se criticavam como um casal de velhos. Em casa, usavam pantufas e comiam cereais, enquanto assistiam seriados antigos. Usavam pijamas rasgados pelo tempo e pelas brigas.

Não fumavam, não bebiam, não tinham filhos. Um cuidava da gripe do outro. Isadora reclamava das noites em claro pelos roncos de Inácio. Ele detestava a mania dela de entrar em casa com calçado – levava sujeira para o piso da sala. O rapaz levava dentro dele o silêncio por uma vez ter levado um tapa no rosto. Ela carregava no coração um grito pela conversa de MSN meio estranha que achou nos arquivos do marido.

Mas ela amava as mãos dele, mãos que tocavam violão lindamente. E ele se perdia de felicidade em cheirar os cabelos dela.

Perguntei a eles o motivo de estarem juntos, afinal, pareciam ser bem diferentes um do outro. Ele respondeu que amar alguém é querer ficar perto dessa pessoa, mesmo não entendendo bem os motivos. Falou também que conviver com alguém é fazer alongamento na tolerância, o que sempre traz crescimento pessoal. Já Isadora comentou que se apaixonava por ele, repetidamente, nos momentos mais banais. Se apaixonou pela primeira vez quando o conheceu, durante o trabalho. Se apaixonou ao vê-lo tocar violão de olhos fechados em emoção, e apaixonou-se também quando o viu abraçar os filhos chorando.

Publicamos um pouquinho da vida desse casal, junto com uma foto deles, que a diagramação do jornal sugeriu fazer em sépia. Ficou muito bonito. Foi um trabalho que guardei como recordação, por ter sido um dos mais legais que já participei. Eu sempre gostei disso: de descobrir a maravilha do mundo por trás de uma história aparentemente banal. Porque descobrir uma verdade banal por trás de um fato absurdo não tem graça. Por isso, ser jornalista é uma importante peça no quebra-cabeça da minha vida.

E a vida real, essa daqui que a gente vive por trás do jornalismo e das novelas, acaba sendo mais inacreditável e emocionante do que aquilo que a mídia nos faz engolir.

Pouco tempo depois, Isadora me contou que estava grávida. Disse que teria muito orgulho em contar para a criança que um dia participou de uma reportagem com seu eterno namorado. Eu falei que teria orgulho eterno por registrar uma vida tão bonita nas páginas esfarelentas de um jornal. Mas, sobretudo, por registrar tamanho amor na minha memória.

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1 comentário

Arquivado em Repórter distraída

Uma resposta para “Nosso Retrato em Sépia

  1. sta

    queria ter tido uma vida “certinha” em tudo, não deu, então estamos aí do jeito que a gente quer, do jeito que os outros querem, às vezes em lua de mel com o mundo e às vezes menor que o menor inseto…bj!

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