O Dez não me Atrai

Juliano tinha 14 anos e era mais inteligente do que eu e você juntos.

A matéria era sobre pessoas com várias habilidades, antigamente chamados de superdotados. Encontrei Juliano por meio do colégio que estudei na adolescência. Eu tinha más lembranças de lá. Estremeci ao telefonar e ouvir do outro lado da linha a voz do professor que tanto me assombrou. Ao me reconhecer, foi amigável, como se todo o bullying não tivesse existido.

Sem me deixar afetar, expliquei a matéria e sugeri que me indicasse um aluno “nota dez”, literalmente. Alguém que só tirasse notas boas, fosse um crânio. O primeiro nome que o professor citou foi o de Juliano. Me passou o contato e, no mesmo dia, falei com o menino por telefone. Tímido, imaginei-o quase um nerd, com o brilho daqueles que recebem elogios demais.

Fui ao apartamento dele, onde morava com os pais e o irmão menor. Sua mãe, jovem e bonita, orgulhava-se pelo filho que saiu melhor do que a encomenda. Juliano não era nem um pouco como eu imaginava. Descolado, adorava videogame e quebra-cabeças. Perguntei se ele estudava muitas horas por dia.

– Que nada! – respondeu. – Apenas presto atenção nas aulas e anoto os pontos mais importantes. Assim, tenho tempo para ficar com meus amigos a tarde toda.

Juliano realmente era muito inteligente e perspicaz, diferente daquele estereótipo de adolescente neurótico. Me identifiquei com ele. Eu, com meus 14 ou 15 anos, gostava muito de praticar esportes – amava kung fu -, adorava estar com meus amigos e não era fascinada pela internet.

Mas existe uma diferença berrante entre Juliano e a adolescente que eu fui: eu era uma péssima aluna. Não porque bagunçava. Mas sim porque não sabia prestar atenção. A janela e o mundo que havia entre suas esquadrias eram mais atraentes. E eu era o alvo fácil para o estresse de alguns professores.

Certa vez, quando eu tinha 14 anos, estava na sala de aula enquanto o professor tentava ensinar matemática. Mas eu não assistia a aula – olhava para o horizonte do mundo, pela janela, e pensava em outras coisas mais importantes para o meu coração. O professor me chamou assim:

– Hei, garota distraída! Tá pensando na vida?

Levei um baita susto. Endireitei-me na carteira e fiquei vermelha. Não respondi. Rezei para que ele não estivesse falando comigo. Mas estava.

– As suas notas devem estar muito boas, para você achar que pode ficar olhando pela janela! Pois suas notas não estão boas, não, garota distraída. Você tá ferrada. É bom esquecer a janela e prestar atenção nas aulas! Se é que dá tempo ainda de passar de ano…

Em choque, com o choro paralisado na garganta, tentei prestar atenção no restante da aula, mas aqueles números não faziam sentido para mim. Anotava restos de explicações, com as lágrimas correndo, uma a uma, pelas bochechas e pescoço.

Eu nunca consegui contar isso para ninguém. Meus colegas foram testemunha, e também não comentaram isso comigo. Apenas me olhavam com pena, minutos depois do acontecido. Na época, eu achei que merecia isso. Eu tirava notas baixas e era ridicularizada – tanto por alunos quanto por professores. Eu me sentia uma vilã por não conseguir prestar atenção nas aulas. Era tão mais gostoso olhar pela janela ou desenhar no caderno de ciências. Inventei milhares de personagens, roteiros e histórias em quadrinhos para preencher minha distração.

Às vezes, faziam comparação comigo. “A Mariana é tão boa aluna, tira notas tão boas, por que você não consegue?” Eu não sabia a resposta para isso. Apenas invejava secretamente a “inteligência” de meus amigos. Alguns tentavam me ensinar as fórmulas de matemática em vão. Eu só sabia a fórmula harmoniosa para desenhar um rosto com lápis 6B.

Sempre que lembro das humilhações que passei, me bate uma revolta que nasce devagarzinho e, quando me dou conta, o sentimento é um monstro dentro de mim. Tenho raiva dos adultos que me chamaram de criança burra. Que nunca entenderam que seres humanos são heterogêneos, ninguém aprende da mesma maneira.

Faltou, na minha infância e adolescência, uma pessoa com bom senso que dissesse: parem de chamar a menina de burra, vamos ensinar a vida de uma outra maneira.

Eu engoli ensinamentos quadrados que hoje não fazem nenhum sentido para mim.

Hoje sou jornalista formada. E muitos dos bons alunos se perderam por outros caminhos. E aquele professor continua no mesmo lugar, com a mesma cara, fazendo as mesmas coisas. Humilhando outras crianças.

Juliano, parabéns pela sua inteligência, mas saiba que a vida também precisa de espontaneidade. Lembre-se de errar de vez em quando também. Tirar dez, toda vida, é chato e enfadonho. Divirta-se de vez em quando com um 9,9. Com amor, Garota Distraída.

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7 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

7 Respostas para “O Dez não me Atrai

  1. Bem vinda ao clube dos cisnes extraviados.

    Sempre fui aquém do exigido, e até hoje não sei como fui aprovado nos estudos e na faculdade, pois são raras as boas lembranças de uma aula interessante que cativasse minha alma sonhadora (que insistia em sair voando pelas janelas das salas por onde estudei).

    “Por trás de toda alma que fere há um coração que sangra.”

    Já citei esta frase em outro comentário aqui, mas também serve para esta passagem…

    Acredito que muitos passaram por estas experiências – de educadores marcados de forma negativa pela infância infeliz, e que ao invés de transmutar o sofrimento oferecendo afeto e compreensão aos que deles necessitam, esquecem-se de sua Criança Interior e usam os alunos como bodes expiatórios.

    Creio que as razões para que ajam dessa forma sejam mais complexas do que o dito acima – assunto para rodas de longas conversas filosófico-espirituais…

    Também passei por uma série de experiências traumáticas (sequelado até hoje), mas fiz o melhor que pude durante 8 anos como professor de informática em projeto social para adolescentes de 13 a 17 anos.

    Algumas vezes fui ríspido com os alunos (em maus dias com alguns + rebeldes…), mas me retratava em público – na sala, com eles e com todos, sem problemas de assumir o erro e pedir perdão.

    Acredito que somos capazes de superar a dor e transformá-la em amor para dar àqueles que necessitam. Ao que leio em suas narrativas sobre os entrevistados, você já o faz com maestria.

    Penso que nossos sofrimentos são como um purificador da Alma, e que servem para moldar nosso caráter e nos tornar melhores – muitos não percebem e nem acreditam nisso. E quando também esquecemos, precisamos fazer o que disse alguém – não lembro o autor:

    “Pássaros de mesma plumagem se reúnem para voar juntos de vez em quando.”

    Saudações.

  2. sta

    estive dos dois lados, como aluna e como profe, acertamos e erramos em várias fases da vida. Nunca gostei de números nem cifrão, sempre gostei de letras e leituras, mesmo que os números fizessem parte das letras. Só entendemos isso mais tarde. Ora a gente tem a vida inteira pra aprender, pra fazer certo e também errado. bj!

  3. g

    sensacional! gabrieladiz.blogspot.com

  4. Durante os ensinos fundamental e médio, tive muita dificuldade com matérias pertinentes às ciências exatas. Matemática, física e química sempre me causaram e causam problemas. Mas o engraçado é que eu fazia tudo o que um nerd, normalmente fera nessas matérias, faria: jogava video game e lia histórias em quadrinhos.

    Por estudar em escola pública, não tinha aulas extras fora do período normal; não tive um professor que me ensinasse um método de estudo para me sair bem nessas matérias e apreender seu conteúdo para o resto da vida.

    O tempo passou. Hoje estou no segundo ano de faculdade do curso de Letras. Pesquiso a obra de Rubem Fonseca, estudo alemão e leio quadrinhos mais “cabeças”. Mas sou um analfabeto fora das humanidades.

    Gostei muito, mas muito mesmo do seu espaço. Sou novo na blogosfera. Nunca fui muito fã de internet, mas estou fascinado por essa veia meio que independente, fora do circuito do Facebook. Estou na fase de “garimpagem” de sites bons. O seu está incluso já, impreterivelmente.

    Abraço.

    • Vanessa Bencz

      Murilo, seja muito bem vindo ao meu blog! Adorei o seu depoimento! aliás, estou adorando os comentários em geral a respeito deste texto. Vou visitar o seu blog tbm, vamos nos falando!

  5. emanuellecarvalho

    Deu um nó na garganta esse texto. Lindo.
    Na memória guardo a lembrança de fazer a conta de dividir sem utilizar a famosa escadinha e levar um zero. A conta tava certa, eu sabia fazer, mas meu método não era suficiente. Eu não tive problemas com notas, mas sei o que é ser garota distraída. Há tanta coisa pra se perceber no mundo, é impressionante que aquilo seja tão mais atraente e produtivo. Sempre me pus a questionar a educação, os professores. Arrumei belas brigas e bons amigos na faculdade por isso. Ainda me questiono, e questiono o mundo. A educação tem que servir pra libertar, e não libertar para servir. Um beijo, aproveite a distração!

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