O Espetáculo da Nossa Intimidade

Joana era a personagem de uma novela mexicana. Da vida real.

A pauta a qual fui submetida era a mais idiota possível: “traição, você toleraria?” Assim, tive que ir para a rua fazer uma enquete sobre o assunto. Pergunte para o jornalista mais próximo de você o que ele acha sobre fazer enquetes. É uma das coisas mais chatas e inúteis da comunicação mundial.

Após passar uma tarde inteira abordando pessoas na rua, que fugiam de mim para resguardar a própria privacidade, tive de encontrar uma pessoa para ilustrar a matéria. Minha fiel rede social – o Orkut – me levou até Joana. Encontrei-a em uma comunidade chamada “Já fui Traída”.

Agora, lembrando dessa história, penso no ponto de desespero a que cheguei, para procurar um entrevistado numa comunidade dessas, via Orkut. Ser jornalista é aceitar a própria humilhação com louros; é ser pateta, e não fazer esforços em prol da dignidade.

Joana era casada com um policial. Descobriu que ele a traía com a vizinha da casa da frente. O policial resolveu morar com a vizinha – simplesmente mudou-se para a casa da frente. O problema é que a vizinha também era casada. O marido da outra, então, como manda a lógica da loucura, mudou-se para a casa de Joana. Mas não deu certo; o homem fora embora. Tempos depois, o romance entre o policial e a vizinha parecia ir tão bem, que convidaram Joana para fazer sexo a três. Ela aceitou. Ela e a vizinha se apaixonaram e casaram. O policial se deu mal, acabou sozinho.

Para você, qual é o elemento mais estranho dessa história? Todos, eu diria. Este foi um dos parágrafos mais insólitos que já escrevi na minha vida.

E é claro que fui proibida de publicar essa história no jornal. Contei apenas a metade – o fato de Joana ser traída. Mas a história ficou famosa dentro da redação do jornal. Tive que recontar essa sórdida novela mexicana umas 23 vezes. Todos riam muito.

A editoria do jornal optou por não mostrar o rosto de Joana. Apoiei. Na verdade, não sei nem de onde Joana tirou cara de pau para contar a história da sua privacidade para uma jornalista. Não sei de onde tirei cara de pau para perguntar sobre sua intimidade. Sua inocência poderia ter tornado sua vida um circo. Entendo a festa e o sensacionalismo que a imprensa faz em cima da privacidade de algumas pessoas. Porque, além de adorarem o escândalo da privacidade alheia, sabem que os leitores também são loucos por esse tipo de “notícia”.

Mas foi sempre com vergonha e insegurança que mexi, com a ponta dos dedos, nos arquivos íntimos de cada pessoa. Foi sempre com carinho que escolhi as palavras certas para um fantasma, uma esperança, uma culpa, uma gargalhada na hora errada.

No fim das contas, Joana ficou desapontada porque seu rosto foi substituído por uma imagem genérica, típica dos “anônimos”. Ela queria contar essa história integralmente, queria o circo, queria os malabaristas, queria o palhaço, queria os aplausos. Joana ficou chateada comigo, eu a privei da festa que era sua vida. Mas Joana sabe, assim como eu, que os circos são itinerantes.

Eles vem, e vão. Seu circo também iria passar, e ela ficaria apenas com o terreno baldio, sem gramado, com a lama vermelha exposta. Com o chão furado pelas estacas da grande tenda. Os ecos do aplauso, do acontecimento em branco e preto. Com os jornais enlameados, rasgados pelo chão. Joana sabia.

A matéria foi publicada sem grande repercussão. Pessoas traem e são traídas a todo momento, não apenas no aspecto sexual. As senhoras e os senhores, sentados aguardando o espetáculo no circo, querem muito mais.

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1 comentário

Arquivado em Repórter distraída

Uma resposta para “O Espetáculo da Nossa Intimidade

  1. Texto sensacional! Quanta reflexão e quantas lições.

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