548 Obrigados

Souza era socorrista. Trabalhara 20 anos auxiliando vários tipos de acidente. Depois de duas décadas, resolveu que já tinha visto de tudo e foi trabalhar como motorista de empresa privada. Um amigo que tínhamos em comum achou que Souza daria um bom perfil e me sugeriu. Procurei-o e marcamos a entrevista.

Baixo e gordo, Souza era muito simpático. Ele escondia suas más lembranças por trás do estereótipo de gordinho engraçado. Ao começarmos a conversar, percebi que ele demorou a abrir o seu arquivo de memórias. Relutava em contar suas lembranças, em mostrar seu quebra-cabeça escuro. Eu já imaginava que o seu diário interior fosse marcado por mortes e sangue. Só não sabia que o meu diário ficaria marcado com a passagem deste adorável senhor.

– Filha, estarmos vivos é um milagre –, me disse Souza, com uma expressão que percebi ser fixa em seu rosto: boca sorridente e olhos tristonhos.

Souza já havia visto tanta morte, que sabia o quão sensível é o laço da vida que nos mantém respirando e sonhando. E o homem sabia também que a morte, esse bicho maroto com foice em mãos, encontra as mais criativas e injustas maneiras de levar os seres humanos para o outro lado da escuridão. Chupando bala, brincando na piscina, arrumando a antena no telhado, abrindo armários altos, procurando inocentemente a bola por detrás do tanque de lavar a roupa, ou simplesmente sentados vendo televisão. Souza me disse também que já atendeu casos de gente morta de tanto rir.

– De tudo o que o senhor já viu, o que foi mais difícil? – Perguntei.

– Ver criança morrendo é sempre triste.

– E o que foi melhor?

– Muitas vezes aconteceu de chegarmos em um acidente e encontrarmos pessoas perto da morte. É sempre maravilhoso conseguirmos puxar a pessoa de volta para a vida. É como se a gente mostrasse que, de vez em quando, o ser humano ainda é mais forte do que uma entidade como a morte. O cabo de guerra nem sempre é justo. Mas já venci alguns com a morte.

– O que te marcou mais?

– Há alguns anos, socorri uma menina num acidente de carro. Havia cinco pessoas no veículo. Ela era a carona. Estava no banco de trás, entre duas pessoas. Era a única sem cinto de segurança. Ficou paraplégica. É minha amiga até hoje. – Souza contou isso e calou-se. Olhou para o horizonte e entendi que ele estava fazendo um dos gestos mais antigos da humanidade: procurando suas forças na esquina do mundo.

– E socorrer mulheres em trabalho de parto, Souza, é legal?

O homem subitamente saiu de sua hipnose triste e sorriu.

– Sim, é maravilhoso. Uma vez peguei no colo um bebezinho tão pequenininho, cabia aqui ó, na minha mão. É tão bom salvar crianças, moça! Até contei. Em vinte anos, socorri 548 crianças!

Sorrindo por dentro, me perguntei se Souza seria algum tipo de Papai Noel moderno. Enfiei essa brincadeira tola no bolso para rir mais tarde, sozinha.

Publicamos o perfil de Souza em um sábado, na contracapa do jornal. Recebi e-mails de pessoas que conheciam Souza de acidentes, do trabalho ou de sonhos. Guardei a página do jornal como recordação. Três meses depois, um editor do jornal me telefonou:

– Lembra do Souza, aquele socorrista que você entrevistou? Não houve socorro para ele. Morreu ontem, de AVC.

Lembro que no momento deste telefonema, eu estava na mesa de almoço, com minha família e um prato feito para matar uma grande fome. O prato ficou na mesa, para saciar a fome de ninguém.

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2 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

2 Respostas para “548 Obrigados

  1. Justina Sponchiado

    Sensibilidade pura! Com teus escritos, Souza foi socorrido em sua memória e afeto! A vida vale por essas coisas!

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