Sua Pergunta sobre a Igualdade

O jornal estava planejando há meses uma matéria sobre homossexualidade. Todos estavam com medo porque grande parte dos leitores era extremamente conservadora. Arriscamos: estava na hora de falar sobre o assunto. Eu, particularmente, achei pertinente. Estava mais do que na hora de metralhar o preconceito.

A primeira coisa que fiz foi procurar a associação GLS da cidade. A responsável pela entidade, Anita, adorou a ideia de falar sobre o tema. Lésbica assumida, solteira e com cerca de 40 e poucos anos, me confidenciou que estavam planejando a primeira parada gay em Joinville. Logo Joinville, a cidade mais tradicional, reservada e preconceituosa que já conheci.

Anita era uma mulher muito atraente – cabelos escuros e lisos, olhos verdes como o mar e pele queimada por um sol brando como o do outono. Me perguntei o motivo de suas olheiras. Seria muito indiscreto, da minha parte, encostar em sua história íntima, principalmente porque não era o foco da reportagem. Pesquisei secretamente suas finas rugas ao redor dos olhos, suas sardinhas bem distribuídas, a covinha do lado direito do sorriso. Imaginei que houvesse em seu passado recente uma ex-mulher má, daquelas que ficam com a casa, o cachorro e a dignidade das pessoas ingênuas.

Programamos a publicação da matéria para uma semana antes da parada gay, também para mobilizar os leitores a participarem ou, no mínino, respeitarem. Anita me apresentou um casal de gays assumidos, que teria orgulho em mostrar o rosto no jornal. Rafael e Diego eram modelos. Não tivemos dificuldade em fazer uma foto linda da dupla. Tornaram-se o xodó da redação. Muita gente ficou com vontade de levar o casalzinho para casa e pendurar na geladeira, de tão lindos. Quase colocamos a foto deles na capa do jornal, mas algum editor levantou seu preconceito a tempo, e outra banalidade qualquer virou destaque daquela edição.

É claro que também ouvimos o outro lado: aqueles que criticariam a homossexualidade. Entrevistei o padre de uma igreja católica que falou absurdos. Do alto de sua arrogância, achando que tinha toda a certeza do mundo, me disse que os gays deveriam sumir da face da Terra, afinal, eles eram os responsáveis por doenças como AIDS. Disse também que os homossexuais não tinham capacidade de amar. Ficavam juntos apenas pela luxúria. Minha vontade de esmurrar a cara do padre era gigante. Eu sei que pessoas que falam absurdos homéricos existem em tudo o que é lugar – mas a maioria se esconde pelas cavernas da internet ou por trás do telefone, ocultando o rosto e escancarando a covardia.

Por raiva, publiquei cada palavra preconceituosa que desabou de sua boca enorme. Acho que os frequentadores da igreja ficaram com vergonha desse padre, tempos depois.

A reportagem foi publicada com grande rebuliço por parte dos leitores. A maioria, uns 70%, adoraram a iniciativa e elogiaram muito. O restante ameaçou cancelar a assinatura do jornal – e talvez tenham cancelado mesmo, porque depois a empresa passou por maus bocados. Mas sentimos que nossa parte foi feita. Com um porém.

Um jovem homossexual nos enviou um e-mail extremamente mal educado, reclamando que usamos a palavra “homossexualismo”. E que, por isso, o jornal deveria se envergonhar por dar o tal cunho de doença ao tema GLS. Foi uma briga grande, porque o rapaz prendia-se a uma questão gramatical, sem valorizar a boa iniciativa da matéria. Fiquei muito orgulhosa por constatar que os editores do jornal compraram a briga e venceram o leitor no argumento, com educação.

Joinville é uma cidade estranha – apesar de termos muitas pessoas jovens, o cenário cultural geralmente parece estéril e sem graça. Anita temia que quase ninguém comparecesse à primeira parada gay. Mas em torno de cinco mil pessoas se juntaram ao trio elétrico. Foi um fenômeno interessante, porque enquanto gays, lésbicas e simpatizantes se divertiam na avenida, curiosos olhavam de longe, com medo de se misturar. Será que estavam com medo de tornarem-se gays por osmose?

Anita estava deslumbrante. Com um vestido branco até os joelhos, parecia comemorar o réveillon de uma nova era para a cidade. Percebi que não faltavam pretendentes para a mulher. Mas ela dispensava, uma atrás da outra. O sorriso de Anita parecia guardar um segredo. Haveria um escapulário guardado no fundo de sua gaveta? Seu ar de Monalisa era misterioso e gracioso.

Percebi, com atraso, que Anita também sondava o meu sorriso. Paralisei.

Sem querer, eu havia enviado a ela um recado de possibilidade. A minha curiosidade era tanta, que Anita entendeu como uma luz verde. Inexperiente e ingênua, confesso que eu não soube o que fazer. Então as horas, os minutos e os segundos passaram. Anita veio até mim, misturando seus olhos verdes aos meus. Parou bem na minha frente, me olhando fixo. Anita, segura. Eu, tremendo. Foi uma das vezes que me senti puramente criança, em plenos 23 anos. Sentiria isso muitas vezes depois, com outros homens, em outras situações.

– Talvez não seja o que você quer, né? – Me perguntou Anita.

Com os olhos arregalados, apenas balbuciei coisas que não se entendem em plena consciência. Humilhada, eu transbordava em inocência e susto. Anita segurou minha mão e pediu que a procurasse, se quisesse. Beijou o cantinho da minha boca, suavemente. Ela virou as costas e se misturou à multidão. Eu não sentia as minhas pernas e nem o coração, que demorou a se acalmar. Eu sonharia com isso muitas vezes depois.

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4 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

4 Respostas para “Sua Pergunta sobre a Igualdade

  1. Henrique

    Voce acha que joinville é uma cidade conservadora , é porque voce nao conhece jaragua do sul onde aqui todo mundo fala de todo mundo .

    • Vanessa Bencz

      Oi, Henrique!! realmente não conheço Jaraguá, mas ouvi falar que se parece muito com Jlle nesse sentido. bjs!

  2. Mais um grande post jornalístico, narrativo e investigativo.
    Essas questões que envolvem e homossexualidade realmente já deram, dão e darão muito pano pra manga. Achei muito legal você e sua equipe ouvirem as duas partes, mesmo uma delas sendo totalmente escabrosa.
    Como já cogitei estudar Jornalismo, acho legal essa parte mais ideológica.
    Parabéns.

    Um abraço.

  3. sta

    minha pergunta sobre: será que temos o controle de tudo o que acontece conosco?! o sentir, o querer, o fazer, o desistir….é, tudo depende do lado que se está e se quer ficar ou não?!

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