A Vida toma a Iniciativa

Sofia estava grávida de oito meses e meio. Alguma criança poderia dizer, graciosamente, que ela engoliu uma melancia. Sua barriga estava absurdamente grande. Sofia era a minha entrevista para uma reportagem sobre cesariana versus parto normal.

A mulher me disse que havia escolhido fazer uma cesariana porque era mais prático para todos. Ela poderia escolher o dia do nascimento do bebê, assim, não teria que sair correndo por aí com a bolsa estourada na misteriosa hora do parto – e o médico não seria incomodando em seu almoço de domingo, por exemplo.

Mergulhei crua no assunto. A única coisa que eu entendia sobre tudo isso, é que eu mesma havia nascido de cesariana, pois minha mãe não teve a dilatação necessária. Mas, no decorrer da apuração das informações e dos depoimentos, entendi muita coisa sobre a minha própria vida e a maneira agressiva pela qual fui trazida ao mundo.

Entrevistei uma médica ginecologista que defendia o parto normal. A doutora Rosana me disse que as mulheres foram desenhadas pela natureza para serem capazes de conceber filhos sem precisar de um violento corte no ventre. Todas as fêmeas possuem o design ideal para o parto sem cirurgia.

– É assim que a humanidade caminha, desde a infância dos tempos. – Me disse a médica. – A cesárea é tão agressiva quanto tirar uma criança de sua caminha quente e jogá-la na chuva. Ela não está preparada, está muito sensível e vai carregar esse flagelo para sempre! A cesárea só deve ser aplicada em casos de emergência.

Ouvi também Bernadete, que havia dado à luz dois filhos – um por parto normal, e outro por cesárea.

– A diferença entre um filho e outro são absurdas – garantiu ela. – Enquanto o que nasceu por parto normal é decidido, tem iniciativa e caráter inabalável, o que veio por cesariana é ingênuo demais, sem atitude, chorão.

É claro que tudo isso depende de questões como a própria personalidade da criança, influências externas e mais um monte de outros fatores. Mas confesso que fiquei pensando sobre isso um bom tempo. Eu e meus irmãos nascemos por cesariana, e lutamos, juntos, contra essa estranha força que negativa nossas atitudes; como se tomar uma iniciativa fosse extremamente difícil. Uma estranha lei da gravidade que puxava nossos sonhos ao chão.

Não encontrei uma resposta coerente. Ganhei apenas esse ponto de interrogação, que carrego até hoje atrás da orelha. Mas me assusto ao constatar que essas pessoas cheias de iniciativa, que encontramos pela vida, misteriosamente nasceram por parto normal. Desde crianças, acostumaram-se a esse esforço de lutar pela vida, correr a favor da luz do sol, enraizar os músculos do sonho, correr por um caminho de espinho e esmagá-los, um a um.

Não me considero necessariamente uma pessoa sem atitude. Alguns até já chegaram a me chamar de atrevida – mas confesso que é sempre difícil mover as montanhas que encontro à minha frente. E é escondendo minha resignação na última gaveta do armário que brinco de tornar-me um ser humano agressivo e risonho.

Fiquei com vontade de pedir a Sofia que deixasse seu menino nascer sozinho, para que essa fosse orgulhosamente a primeira vitória da sua entidade chamada vida.

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