O Prisioneiro de um Mundo Cor-de-Rosa

Entrevistei, há alguns anos, um homem que nasceu mulher.

Estamos acostumados a ver homens que, com o tempo, se revelam verdadeiras mulheres. Fazem cirurgia de troca de sexo e, voi là, temos uma incontestável pessoa do sexo feminino. Mas as mulheres que se descobrem homens ainda não conseguem se tornar homens completos; a cirurgia plástica ainda não está evoluída a esse ponto.

Paulo me contou que nasceu Paula. Sempre soube que era homem, mesmo quando usava os humilhantes laços rosas na cabeça e os vestidinhos de babado. Por arrogância ou pura maturidade, sabia que a natureza tinha errado com ele. Assim como a natureza também erra ao permitir a existência do câncer, das orelhas de abano, dos sisos e da maldade de coração.

Ele nasceu prisioneiro de um mundo rosa. Seu nome feminino era um tapa na cara. A sua primeira menstruação, então, era o sangue dessa facada da natureza. Sangrava uma vez por mês, de tanta tristeza e desolação. Sangrava pelas meninas que se apaixonava. Sangrava pelo futebol que era proibido de jogar. Sangrava de ódio das bonecas.

Paulo não era homossexual – era um homem que, como a maioria dos héteros, só usa a palavra “gay” para zoar os amigos.

Na adolescência, era chamado de “sapatão”. Acabou se relacionando com lésbicas; mas o que ele queria era uma mulher que o amasse como homem. Que amasse suas homenzices, como andar só de cueca pela casa e acender o cigarro olhando o horizonte. Como a falta de senso para cozinhar e lavar a louça. Como o talento para arrumar todas as coisas que podem dar errado numa cozinha, numa casa e na face da Terra.

Mas não – Paulo acabava sendo amado por ter seios flácidos (de tanto que ele mesmo os socou) e pela coragem em meter-se em um mundo tão machista.

Você consegue imaginar o que é estar preso em um corpo que não é seu, em um corpo que carrega o sexo oposto, junto com seus prazeres e mazelas? No caso de Paulo, ele nunca viu vantagem em ser mulher. Qualquer vantagem, como o cavalheirismo alheio, era humilhante e horrendo.

Paulo aprendeu a dar prazer às suas mulheres apenas usando o dedo indicador da mão esquerda.

Aos vinte e poucos anos, Paulo definitivamente assumiu seu nome no masculino, usava roupas masculinas e usava meias enroladas na cueca, para disfarçar a falta de protuberância. Foi só perto dos 40 anos que Paulo pôde fazer uma cirurgia para retirar as mamas e o útero. Levou injeções com altas doses de hormônio masculino. Criou barba e ficou careca. Realizou-se.

Hoje, Paulo tem 61 anos. Adotou filhos, tem várias ex-mulheres, já se meteu em brigas e precisa parar de fumar. Seu passado feminino é o pesadelo que de vez em quando o faz suar na cama, de madrugada.

Sempre que você quiser xingar um homem, pense trinta vezes antes de chamá-lo de gay, bichinha, viado. Porque com certeza tem muito gay, bichinha e viado que é mais homem do que muito “homem” por aí. E você, homem, que se ofende com esses adjetivos, faça o favor de sair do senso comum do preconceito e pense sobre as várias realidades que encontramos por aí. Com amor, Garota Distraída.

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1 comentário

Arquivado em Repórter distraída

Uma resposta para “O Prisioneiro de um Mundo Cor-de-Rosa

  1. Seu texto é emocionante. E sim, é a mais tenra verdade haver mtos gays, mto mais “homens” que só aqueles que se adjetivam como tal por uma questão meramente genética.

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