Você também é de Esparta?

 No começo de 2009, como forma de começar bem o ano – que no fim das contas não foi grande coisa –, resolvi dar uma ideia diferente ao jornal. Uma ideia que beirava à insanidade. São os momentos insanos que justificam a nossa vida em cima da Terra, não é mesmo?

Sugeri que sorteássemos um assinante do jornal para entrevistá-lo. Eu estava cansada de fazer perfil de pessoas acostumadas a dar entrevista. Claro que existiam as exceções – gente com histórias ricas que valeu muito a pena ter transformado em palavras. Mas, dessa vez, eu pensei que seria interessante pescar alguém com uma história aparentemente simples, alguém assim como eu, você e o cidadão tomando café na esquina. Poderia ser uma loucura, mas todos ficaram empolgados com a ideia do elemento surpresa.

Eu estava no auge de um pensamento que carrego até hoje: todos temos grandes histórias. Mas muitos de nós não têm noção da própria riqueza. E foi assim que conheci a diarista Vera, a sorteada do mês de janeiro para o perfil do jornal. Ela me recebeu como uma sentinela, no portão de sua simples casinha. Não nos deixou entrar, estava desconfiada.

Pequena e forte, imaginei que Vera carregasse alguma semelhança com os velhos guerreiros de Esparta. Aqueles que eu estava acostumada a ver em pinturas e desenhos, nas aulas de história do segundo grau. Guerreiros com expressão puramente bélica, com cicatrizes e olhos malvados, que certamente transformavam-se em olhos bons para os filhos e pessoas amadas.

A mulher tinha uma profunda cicatriz vertical no lado direito do queixo. Entre as sobrancelhas, mais duas cicatrizes verticais – mas essas cicatrizes pareciam ter sido fincadas por algum acidente emocional de seu coração, e não por faca em punho.

Assim que entendeu que eu, o fotógrafo e o motorista não éramos bandidos disfarçados de equipe jornalística, nos deixou entrar e nos tratou muito bem. Nos acomodou em sua simples sala e serviu café com bolachas. Mas, ainda assim, relutava em dar entrevista. Estava envergonhada. Achava que não tinha nada de extraordinário para dividir com os leitores. Fiquei com medo que não tivesse mesmo – mas esse medinho durou pouco. Não demorei a encontrar o tesouro de Vera.

Com o sorriso que uso apenas para a minha mãe, convenci Vera a me mostrar algum arquivo empoeirado de sua história. Com a expressão impaciente e amorosa que certamente a mulher assume para seus filhos, aceitou. Fechou os olhos e abriu as mãos calosas, como o real gesto da verdade.

Os caminhos de sua história eram cheios de acidentes: mas os nasceres do sol que viu valem mais do que muito ouro nesse mundo.

A mulher me contou, extremamente envergonhada, que tinha três humilhações na vida. Uma: foi abusada pelo próprio pai, em criança. Duas: arranjou um marido que batia nela. A terceira merece que a entrevistada conte pelas próprias palavras:

“Um dia acordei maluca, louquinha da cabeça. Estava com algum estresse, sabe? Estava grávida da segunda criança. E, quando a mulher está prenha, faz cada uma. Eu, pelo menos, fiz. Peguei um facão antigo que tinha em casa e machuquei meu marido. Fiz cortes fundos nas costas dele, enquanto dormia, bêbado. Depois fui atrás de meu pai, e também machuquei ele, até tirar sangue. Outro bêbado. Não quis matar nenhum deles, só queria que eles sofressem fisicamente por tudo o que me fizeram.”

Essa foi uma das histórias mais absurdas e lindas que já ouvi. A ficção tem a obrigação de sempre soar verossímil, como a realidade. Mas a realidade, de vez em quando, se parece com os melhores momentos do realismo fantástico. E é esse realismo fantástico que todo ser humano tem.

Realmente, Vera era uma espartana da melhor estirpe. Infelizmente não pudemos publicar esta parte justiceira de sua história. O que publicamos foi seu orgulho em ser uma diarista que criara sozinha dois filhos homens. Um deles tornou-se músico. Um dia, esse rapaz compôs uma música sobre ter orgulho de sua mãe diarista e cantou em público. Vera foi às lágrimas, aí entendeu que alguns sofrimentos profundos não superam a felicidade plena.

Vera encontrou na vida duas merdas de homens que a machucaram – mas deu de presente ao mundo dois rapazes incríveis, filhos da bondade. E esses eram seus troféus. Eles eram a assinatura de Vera no mundo. Eles eram um homem loiro e um homem moreno. Duas criaturas que não foram ensinadas de acordo com a filosofia espartana, então, não tinham a intenção de levantar um cisco de sujeira contra uma mulher e nem contra outro homem.

Depois que o perfil foi publicado, Vera telefonou para o jornal atrás de mim. Fiquei assustada, achando que tinha publicado algum erro e que ela viria atrás de mim com um facão. Mas não, só queria agradecer a “matéria bonita que a vizinhança toda estava comentando”. Menos mau. O problema de tudo isso é que a ideia de ter um facão guardado em casa me é muito tentadora desde então. Minhas cicatrizes não são as mesmas de Vera; mas não custa me prevenir.

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2 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

2 Respostas para “Você também é de Esparta?

  1. Grande post, Garota Distraída!
    Existem inúmeras pessoas de sangue espartano espalhadas pelas periferias de minha cidade. Mais uma vez o seu faro jornalístico mostrou que é nas periferia que se encontram os melhores guerreiros.

    Abraço.

  2. Não conhecia seu blog, adorei.
    Sou estudante de Jornalismo e um pouco distraído,, rs.
    Sempre me deparo com histórias interessantes durante as poucas entrevistas que já fiz.
    Me emocionei com essa história da Vera que é parecida com a de tantas pessoas,mas o legado que fica é a extinção do erro para as futuras gerações.
    O ser humano tende a evoluir, graças a Deus.

    Abraço.

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