A Saudade é o Vento que Acaricia o seu Rosto

Fazia algumas semanas que eu estava agoniada com uma ideia de reportagem. Precisava escrever sobre aquele tema – era algo que estava se mexendo dentro de mim e precisava vir à luz.

Sugeri ao jornal fazermos uma reportagem sobre saudade. Existe tema mais subjetivo? Até existe mas, naquele momento, foi a coisa mais inconcreta que consegui pensar. Eu amo encontrar a luz da subjetividade no rosto das pessoas. Eu amo desafiar, com um barco pequeno e desprotegido, o mar profundo e escuro do coração das pessoas.

A sensação de sentir falta de algo ou alguém pode ser sombra, luz ou bolhas de sabão. Tudo isso, encontrei no relato sincero de Andressa.

Entrevistei várias pessoas para a reportagem – e elas sentiam as saudades que já nascem junto com o ser humano, em seus genes. Acho que, antes de ser criança, a pessoa já sente saudade de ser criança. Esses entrevistados, claro, tinham saudade do pai que foi embora cedo demais, das comemorações natalinas de antigamente, do campinho em que jogava futebol, do cheiro dos biscoitos em forma de estrela que a avó preparava no forno, do gosto de goiaba que experimentou em um sítio que não existe mais, do cachorro que foi muito querido e que morreu de uma doença desconhecida para a inteligência humana, do canto de um passarinho que fazia dó-ré-mi em sua gaiola, nos tempos azuis da meninice.

Mas Andressa alimentava uma poética saudade pela casa em que morou durante toda a infância. O mais interessante surgiu no decorrer de seu relato.

Andressa era uma webdesigner muito estilosa. Toda moderna, era cheia de tatuagens. Tinha cabelos volumosos, pretos e curtos. Era aquele tipo de pessoa que sempre chama a atenção, onde quer que esteja. Ninguém diria que ela guarda uma lembrança tão antiga, empoeirada e amarelecida, por trás de suas pálpebras. “Se eu fechar os olhos e respirar fundo, conseguirei sentir o cheiro da casa em que morei”, disse Andressa. Logo após me contar isso, fez exatamente o que disse. Fechou os olhos, respirou fundo e: sorriu.

“Mas como é esse cheiro”, perguntei, curiosa, sendo menos repórter e mais abelhuda. Ela me disse que o cheiro era uma mistura de carpet velho, mato fresco, cloro da piscina, couro dos sofás, expectativas, flores e… um cheiro amarelo, que não sabia definir bem. “Cheiro amarelo?”, questionei, instigada por essa mistura sensorial.

“Isso, cheiro amarelo!”, me disse a impaciente Andressa. “Amarelo de sol, de dia bonito, de verão. Era sempre verão por entre as paredes daquela casa. Tinha só um cômodo em que não era verão. Naquele cômodo, havia uma estação do ano que existia apenas lá. Uma mistura de inverno, chuva, esgoto e velas acesas”, falou ela, me surpreendendo muito. “E que cômodo era esse?”, eu disse, quase me humilhando, necessitada de saber essa história inteirinha. “O banheiro do quarto dos meus pais”, respondeu ela, encolhendo os ombros. Estremeci.

Senti que estava entrando em zona de perigo. Alerta: lembrança dolorosa a caminho.

Andressa reparou que eu temi pelo que ouviria nos próximos minutos. Então ela abriu o jogo: falou que não era nada de mais, apenas foi ali que flagrou pela primeira vez seus pais transando. Mas havia violência na coisa: estavam em uma posição que humilhava a mãe dela, e a mulher chorou de remorso quando a filha pequena flagrou o ato.

“Pelo sexo, tudo bem, nem liguei muito”, disse Andressa. “O difícil foi encontrar meus pais naquela posição tão horrível. E o cheiro que exalava naquele banheiro”. Fez cara de nojo. Quando me dei conta, eu também estava com cara de nojo. Mudei de assunto.

“Ok, mas então você sente saudade do cheiro da casa, em geral”, falei. Andressa, como que saindo de uma hipnose, afirmou com veemência. Sim, sentia saudade do cheiro da casa. Me contou também que, até um ano atrás, sonhava quase todas as noites com a casa. Sonhava que encontrava novos cômodos, antes desconhecidos.

E sonhava com a droga do banheiro dos pais. Muitas vezes sonhou que era ela que estava no banheiro, fazendo sexo com um homem em uma posição humilhante. E, um dia, parou de sonhar com a casa. Como se a lembrança tivesse sido mutilada de sua memória.

“Não sei exatamente o motivo de eu ter parado de sonhar com isso”, me disse Andressa. “Mas deve ter algo a ver com maturidade, ou até a superação de algum trauma que eu não sabia que tinha.” Concordei. “Restou a saudade da saudade”, disse a garota.

Pois é, Andressa, eu sei como é. Entendo um pouco sobre esse dominó maluco que são as nossas emoções. E você, leitor, o que tem a me dizer sobre a sua saudade?

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7 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

7 Respostas para “A Saudade é o Vento que Acaricia o seu Rosto

  1. Melissa Gisele Bencz

    Esta pergunta me fez pensar…viajar longe no passado… até chorar, ele me fez… Saudade… palavra forte, única, completa, mágica, mas às vezes inoportuna, indesejada e até malvada…
    A minha saudade? De uma parte de mim que ficou pelo caminho e que nunca mais consegui encontrar…

  2. É uma boa pergunta. Essa “primeira infância” parece meio que inofensiva, mas se eu me esforçar bem, vou lembrar da casa em que morei até os quatro anos de idade, onde havia uma árvore no meio do quintal, em volta da qual meu pai me ensinou a dar as primeiras pedaladas. Mas, não sei, é meio doloroso fazer esse esforço. É algo que passou e não volta mais. Morremos a cada minuto que passa, e aquilo que poderia ser um momento de alegria eterna foi apenas mais um sopro de nossas vidas.

    Mais um belo post dessa grande jornalista distraída.
    Um abraço.

  3. Olá, Garota Distraída,
    Vi seu comentário bo blog do Miguel do Rosário e passei aqui pra conhecer seu espaço.
    Li histórias emocionantes, verdadeiras, humanas – confesso que fiquei tocado com alguns relatos, como o da gabriela e da Vera! Como a vida pode surpreender e emocionar – o clichê “a realidade é muito mais estranha que a ficção” permanece válido.
    Bom, já curti seu blog no Facebook e adicionei aos meus favoritos.
    Vi que você gosta de música – pela história da “flauta calmante” 🙂 – então te convido a visitar o blog Jazz + Bossa: http://ericocordeiro.blogspot.com/
    Grande abraço!

  4. Jorge

    Po pura coincidência desses périplos labirintícos e virtuais aterrrissei no seu blog, e acabei por conhcere belíssimas histórias contadas com verdade e ternura.

  5. Johhny

    Meu parabens Garota Distraída. Favoritei seu blog no mozilla. Vc tem o dom da escrita, consegue escrever com muita simplicidade e beleza… Cheguei até você pelo Pablo Villaça. Continue nos mostrando seus textos… grande abraço Joao E. Gonçalves

  6. Vanessa Bencz

    Galera, eu sou uma daquelas que sentem falta de um cachorrinho! tive um cachorro muito querido durante 15 anos. Ele se foi há apenas 1 ano. É minha grande saudade. Mas sei que em nada deve se comparar à saudade de um pai, um avô, como outros citaram.

  7. Laís

    Sinto falta da minha avó paterna e da casa que ela morava e que agora é dos meus pais. Mas na época em que ela era viva, eu amava ir lá, naquela casa de madeira enorme, que tinha o cheirinho da minha avó, tinha a doçura dela..Tinha também um pé minúsculo de morango, que logo que dava um, ela colhia e me chamava dizendo: “Laís, nasceu mais um moranguinho pra ti”…Esse teu texto me fez chorar lembrando dessa época e dela, mas por outro lado me faz pensar que sentindo saudade, ainda tenho o doce privilégio de lembrar cada detalhe do rosto dela..Obrigada por me proporcionar isso!!

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