Arquivo do mês: janeiro 2012

Fim de Algo

Era um sábado a tarde quando resolvi sair de casa para comprar pães. Fui caminhando à panificadora. Antes de entrar no local, me alegrei por perceber que pegara aquele horário em que o dia se veste de noite. Quando o sol mostra suas plumas e suas rendas, e deita, cobrindo-se com um lençol azul escuro, na esquina do planeta.

Essa metamorfose do dia em noite dura apenas alguns minutos. Acontece diariamente, porém, não é sempre que conseguimos acertar a hora de testemunhá-la. Sol, esta noiva.

Assim que o cenário do mundo ficou escuro, eu entendi que algo dentro de mim também ganhara o tom azul, pontilhado por estrelas. Parada na calçada, com um pacote com pães no braço esquerdo e uma dúvida no direito, olhei para cima, procurando a resposta.

Muitas vezes, quando olhamos para o infinito do universo, é para dentro da gente que olhamos. E foi dentro de mim que encontrei o cruzeiro do sul. Ele apontava para o ponto final da minha adolescência.

Caminhando lentamente, continuei vivendo sobre as flores finais dos vinte e poucos anos, das espinhas, das intempéries da juventude, do rebuliço dos hormônios. Andando, pé por pé, atravessei o canteiro de flores que separa a adolescência da… daquilo que vem depois. Vida adulta? Estabilidade? Felicidade? Altruísmo?

Não sei. Mas, com a sacola de pães em um braço e um leve tremor no outro, continuei caminhando para casa, em uma noite fresca, estrelada, sob o cruzeiro do sul.

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Terceiro Concurso Cultural

Tema: fim de algo.

Desta vez, o tamanho do texto e o formato (prosa/verso) ficam por sua conta. Não há restrição; apenas na temática.

Prêmio: versão antiga de “A Casa dos Espíritos”, da Isabel Allende.

Mande seu texto para vbencz@gmail.com até 16/2/12. Os três melhores ficarão em votação por uma semana.

Se você não for de Joinville, não se preocupe – mando o livro por correio.

 

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Resultado Segundo Concurso

Com 43,78 % dos votos, o texto vencedor do segundo concurso é de Jéferson Dantas, de Florianópolis (SC). A seguir, lanço o terceiro concurso!

Garotos–guindaste

amassam meninas-libélula

na esquina fria e suja.

Os olhos-antena

e a náusea da cidade-ilha.

Tramas e desejos da noite…

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Misture-se a Mim

“Tu ri como teu avô, menina”.

Me acostumei a ouvir isso desde que meus caninos nasceram, após o suicídio dos dentes de leite. Junto com os meus caninos grandalhões e pontiagudos, nasceu também a curiosidade sobre aquele avô que não conheci – separou-se de minha avó antes de meu nascimento.

Ouvi falar pouco sobre este homem chamado José. Certa noite, em criança, percebi que minha avó conversava com meus pais no quarto dela. Eles sussurravam. E o sussurro é o tempero dos ouvidos; então, com a sagacidade que só as crianças têm, esgueirei-me para perto da porta entreaberta de minha avó, e ouvi o papo.

– José berrava tanto aquele dia, que saiam raios de sua boca.

Ao ouvir isso de minha avó, entendi que eu teria dificuldades para dormir. Segurei o gemido de horror na minha garganta, até me afastar o bastante da porta de minha avó. Depois, deitada na minha cama, ao lado de minha irmã, contei o que ouvi para ela. Ambas ficamos sem sono, boiando no terror da lembrança. Lembro-me que ficamos olhando o teto do quarto na escuridão. O abajur estava apagado, para que ninguém desconfiasse que aquela informação – que eu havia criminosamente coletado – iluminava nosso pesadelo.

Anos depois, no comecinho da adolescência, comecei a ter aulas com uma professora que já havia trabalhado para meu avô. Com a felicidade dos desavisados, comentou que eu tinha o sorriso muito parecido com o de “seu José”. Me perguntei se eu também seria capaz de jogar raios pela boca.

Procurei alucinadamente fotos do homem nos armários empoeirados de minha avó. Encontrei milhões de fotos rasgadas pela metade. Em todas, aparecia apenas a minha avó, mais jovem. Entendi que, ao lado dela, provavelmente estava o meu avô. Ela teve o ódio tranquilo e cirúrgico de rasgar todas as fotos em que seu ex-marido aparecia.

Em algumas fotos, era possível ver que havia sobrado um braço masculino, uma mão com aliança, um pedaço de terno e gravata, um cálice de vinho tinto bebido pela metade. Mas seu rosto havia sido triturado, mutilado com o bisturi da mágoa desta mulher abandonada.

Quando eu tinha 14 anos, ficamos sabendo que o meu avô havia morrido. E tinha uma homenagem para ele, no jornal impresso. Havia uma foto dele. Sim, lá estava o meu sorriso. Os caninos malvados em seu rosto bondoso. Consegui examinar bem a foto, antes que a página do jornal fosse estraçalhada pela ira – já fossilizada – de minha avó.

Ainda hoje, quando fecho os olhos, consigo ver detalhes daquela foto em preto e branco. O sorriso com uma vasta variação de tons de cinza. O sorriso que veio como um embrulho nos meus genes. Mas eu jamais conseguiria reproduzir o mesmo sorriso, se não tivesse roubado também as células da inocência e da rebeldia de seu José. E dos caninos avantajados, é claro.

A gente nunca é apenas uma pessoa. Todos somos a mistura da bondade, dos dentes, das covinhas, das maçãs do rosto e das emoções de nossos ancestrais. E todos nós carregamos também uma cestinha em que colocamos outras qualidades e defeitos que encontramos e desenvolvemos no caminho.

O tempo que passou apenas me confirmou que eu não deveria usar aparelho para apagar essa memória dentária. Eu jamais imaginei que revelaria, em meus momentos de felicidade infantil, um homem que mal conheci. Mas, de qualquer jeito, ele vive dentro de mim e viverá a partir daqueles que um dia nascerem do meu amor.

Se tudo der certo, colocarei pessoas no mundo que também me recordarão a partir desses caninos, desse cabelo amarelo e liso, da floresta verde dos meus olhos ou até da curiosidade, que me faz rastejar pelo chão feito lagartixa, só para ouvir conversas que não me convém.

Até agora, não precisei soltar os raios que vivem em minha boca.

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Votação

Sei que vocês estavam esperando por três textos, mas achei que seria legal fazer com esses quatro.

O resultado da votação será divulgado na noite do dia 27/1, próxima sexta-feira. Pode votar quantas vezes quiser. Obrigada a todos pela participação.

 

UPDATE: por ter constatado que um único leitor votou mais de 100 vezes em um mesmo candidato, o sistema agora só permite um voto por usuário!

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Inscrições do Segundo Concurso Cultural encerradas

Fechamos a 2a edição do Concurso Cultural com 67 participações, e para lá de 200 textos. Hoje de tarde lerei todos e, às 18 horas, vou disponibilizar os três selecionados. Os três trabalhos (com o nome do autor) ficarão em votação durante uma semana. Ou seja, 6a feira que vem (27/1), dou o nome do ganhador de “Contos”, da Katherine Mansfield.

Aqueles que forem selecionados receberão um e-mail com o link da página da votação, até para mandarem para seus amigos votarem também.

Lembrando que, logo em seguida, dou largada para o terceiro Concurso Cultural! Ainda vou escolher o livro para premiar!

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“Relato do Sol” está a caminho!

O livro “O Relato do Sol” está quaaaaaaaaaaase no ponto. Mais um pouquinho.

Enquanto não sai do forno, uma prévia da ilustração de Fabio Abreu. Quem botou o título ali em cima foi a Patrícia de Sousa, que trabalha aqui na rádio Mais FM comigo. Estão me pedindo para fazer camisetas com essa estampa. Quem se interessa, levanta a mão.

 

Relato do Sol

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