O Arrependimento é um Sapato de Chumbo

Minha entrevistada, naquela semana, era Cida. Marcamos um encontro numa cafeteria do centro. Ela era cadeirante. Ao chegar no local, rapidamente localizei-a. Ela estava em um momento de distração. Olhava o próprio reflexo na colher que, segundos antes, usava para distribuir o açúcar pelo seu café preto.

Cida, como a maioria dos cadeirantes, se virava sozinha. Dirigia seu próprio carro adaptado; fazia manobras radicais com a cadeira de rodas pelas calçadas quebradas de Joinville; arranjou uma maneira de subir degraus pequenos com a cadeira. Ela detestava que as pessoas ao redor fossem forçadas a olhar para baixo, para falar com ela. “É como se os outros fossem obrigados a sentir pena de mim”, disse. Assim, Cida desenvolveu um olhar debochado para quem tendesse a desenhar no rosto qualquer solidariedade por ela.

A mulher era paraplégica. Tinha 40 anos e andava sobre a cadeira de rodas desde os 23. Havia sofrido um acidente de carro. “Peguei carona com um amigo bêbado”, me contou Cida, com a maior cara de deboche. Mas de quem ela debochava: dela mesma, pela burrice em se arriscar a andar de carro com um motorista bêbado, ou do próprio destino?

“Era um sábado à noite. Chovia muito. Esse amigo me convidou para sair. E eu nem queria tanto”, disse Cida. “Fui porque ele insistiu. Naquela época, a gente não sabia da importância do cinto de segurança. Ele bateu o carro num poste. Eu fiquei paraplégica e ele sobreviveu, sem sequelas”.

O acidente foi tão violento e absurdo que, no momento da pancada, ela atravessou o para-brisas e foi atropelada pelo carro. Ela desmaiou e só foi acordar com o peso do veículo sobre o seu quadril. A roda dianteira do carro rodava pertinho do seu rosto.

A descrição desse acidente me deu uma sensação de pesadelo. Horas mais tarde, eu tentaria reproduzir esse relato para meus pais, e parecia que contava algo que havia vivido com terror durante algum sonho. Não conseguia acreditar que aquele era um drama real. Meu cérebro não processava algo tão terrível e verdadeiro. Era como tentar engolir um pedaço de pedra.

Depois do acidente, Cida foi informada de que, por tempo indeterminado, ficaria sem andar. “Eu nunca vou esquecer da sensação de chegar em casa e não conseguir fazer as coisas que eu fazia de pé, antes”, contou a mulher. “Olhava meu guarda-roupas, as mesas, tudo… e parece que eu estava entrando na casa de uma estranha. Ver as coisas da perspectiva de um cadeirante é tão diferente”, disse, finalmente deixando de lado a máscara cínica que usava para contar a própria história. Agora, mostrava um rosto nu e arrependido. “O tempo indeterminado tornou-se minha determinada situação.”

Perguntei à mulher do que ela mais sentia falta. Cida olhou para cima, sorriu para algum sonho e disse: “Sinto falta de dançar”.

Por alguns segundos, ficamos nos olhando e sorrindo. Uma cadeirante com saudades de dançar, olhando no fundo dos olhos de uma repórter saudável que tinha preguiça de ir para a academia. Que vergonha.

“Você chegou a conversar com esse motorista bêbado que causou o acidente?”, perguntei. “Não, nunca quis conversar com ele. Nem ele me procurou. O que diria? Que sente muito? Que lixo”, respondeu Cida, voltando a vestir o cinismo como um capacete romano.

Pensei muitas vezes no arrependimento de Cida, por ter aceito sair naquela noite. Quantas vezes ela havia sonhado que voltava a andar, que tudo não passava de um pesadelo? Muitas vezes, nos arrependemos no nosso dia a dia por coisas bobas, que no fim das contas se perdem no torvelinho de pensamentos diários. Mas esse tipo de arrependimento, se não tratado com ajuda psicológica, pode correr um ser humano.

Enquanto entrevistava Cida, não tive coragem de perguntar sobre seu arrependimento. Estava bem flagrante que era óbvio que se arrependia de ter aceitado sair naquela noite chuvosa. Perguntar sobre arrependimentos seria mais idiota do que perguntar a uma mãe que acabou de dar à luz se ela está feliz. Coisa que vemos diariamente no jornalismo boçal produzido por todos os cantos.

Depois da entrevista, Cida voltou para casa em seu carro adaptado, enquanto peguei um ônibus para casa. Questionei a expressão “deficiência física”.

Depois que a matéria foi publicada, nunca mais encontrei Cida. Mas encontrei muitas vezes, por aí, os rostos desenhados por falsa solidariedade e capacetes romanos do cinismo que ela me ensinou a enxergar.

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2 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

2 Respostas para “O Arrependimento é um Sapato de Chumbo

  1. Oi Vanessa!
    Obrigada por visitar o meu blog!
    Eu adorei os seus textos, você escreve muito bem!
    Beijos,
    Sora – Meu Jardim de Livros

  2. Quem diria que uma simples carona iria deixar sequelas para toda uma vida? São essas escolhas de caminhos nos jardins labirínticos do destino que acabam por nos fazer tomar um rumo que não queremos na vida. E, após esse rumos tomado, aprender com suas consequências. Se ela tivesse escolhido um caminho que não fosse o da carona, talvez tivesse preguiça de dançar hoje. Você pode se dar ao luxo da preguiça porque sabe que existem coisas muito mais interessantes para se fazer quando podemos nos utilizar de duas pernas. É complicado, mas é a vida.

    Mais um excelente texto para vasta reflexão.
    Abraço.

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