Arquivo do dia: 03/01/2012

Encontre-me em minha Varanda

Certa vez, quando tinha uns 8 ou 9 anos, estava em casa e era tarde da noite. Eu fazia geometrias na cama: procurava a melhor posição para os braços e para as pernas para dormir. Mas, nessas horas, o ideal é arrancar os membros e guardá-los em um caixote, ou levantar e fazer algo de interessante, até que o sono resolva pincelar nossas pálpebras. Resolvi levantar. Precisava ouvir música. Estava com sede de notas musicais.

Muito quieta, fui até a sala onde morava uma vitrola. Mentalmente, já escolhia os discos que ouviria. As meias roçavam no antigo carpete, e meu sorriso era um segredo no escuro.

Ao acender a luz, gelei-me toda. Alguém estava sentado ao lado da vitrola, ouvindo algo muito baixinho. Pensei que um ladrão estava levando embora o meu melhor hobby. Mas rapidamente compreendi: meu pai estava ouvindo música exatamente onde eu ouvia. E estava chorando.

Apressadíssima, apaguei a luz e voltei correndo para a cama. O meu coração era um pássaro assustado, preso entre as costelas. Eu nunca tinha visto meu pai chorar.

Quem acha bobo o fato de uma criança ter ficado profundamente chocada ao ver o próprio pai chorando, é porque tem um pai francamente emotivo, ou nem tem pai. Pois eu conheci outro estado do choro, nesse momento: aquele em que estamos tão assustados, que esquecemos de chorar.

Talvez tenha se sentido assim o homem que passeava por um lindo bosque, apreciando de todo o coração a beleza do universo, e deparou-se com Deus chorando por trás de uma árvore.

Peguei no sono seis horas depois, quando ouvi meu pai atravessando o corredor para ir dormir. Fiquei sem ouvir música por dezessete dias. Tinha medo do que poderia acontecer dentro de mim. A imagem do meu pai chorando não saía da minha cabeça. Sempre que eu resolvia deitar, e constatava a ausência do meu pai no quarto ao lado, eu me sentia como uma casa vazia e fria. Minhas luzes estavam apagadas.

Tempos depois, descobri que isso se chamava mágoa. E descobri também que todas as casas vazias e frias podem ser recheadas por móveis, lareiras e moradores…

Eu nunca tive coragem de perguntar para o meu pai os motivos de seu choro. Eu tinha medo do que ele poderia dizer. Tinha medo de ser a culpada. Na época, achava inocentemente que minhas notas baixas poderiam fazer um adulto chorar no escuro.

Meu coração havia se tornado uma coruja de olhos acesos. Quando finalmente resolvi voltar a ligar a vitrola, já não ouvia música como quem se joga na piscina. Foram anos para reaprender a me soltar do trapézio e segurar-me nas mãos misteriosas da música. E o tempo passou, como sempre passa – como se fosse um trem veloz e fascinante.

Mas eu ainda espio pelas frestas da janela, antes de abri-las ao sol.

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