A História de Amaro

Não lembro ao certo o tema daquela matéria. Eu estava visitando uma instituição para pessoas com deficiência mental, junto com meu colega fotógrafo. Eu estava no jornal há poucos meses, e ainda tinha muito medo de tudo o que eu poderia encontrar nas pautas do dia a dia. Bem, ainda tenho esse medo. Até maior do que antes, para falar a verdade.

Reunidos em uma sala, esses jovens, adultos e idosos ensaiavam uma peça de teatro. Todos eles tinham caminhos difíceis. Eram vítimas de preconceito, abuso, limitações das pessoas ao redor e, sobretudo, vítimas das próprias limitações.

Os protagonistas desta peça de teatro eram uma jovem moça com hidrocefalia e um rapaz que tinha a expressão de uma criança de três anos. Tinha muita dificuldade para falar. Sempre precisava contar com sua mãe ao lado, para que ela traduzisse o que ele estava querendo dizer. O fotógrafo cochichou para mim:

– O nome dele é Amaro. Tem uma história muito triste.

Às vezes, eu gosto de ficar olhando o rosto das pessoas, só para entender seu olhar, o desenho de seu rosto e o mapa de suas marcas de expressão. Acho que o rosto é algo tão flagrante: está tudo ali. Segredos, sofrimentos, alegrias, mentiras, manias obsessivas, arrogâncias, filhos, avós, um ascendente oriental, uma raiz afro descendente. E, sem dúvidas, Amaro carregava em seu rosto a tragédia que foi seu acidente de moto, que quase tirou sua vida.

Eu sou daquelas pessoas que tem muita sorte. Geralmente, eu sou a sorteada do destino para ganhar a amizade daqueles que valem a pena.

Esse rapaz me viu no cantinho da sala e resolveu fazer amizade. Andando com muletas, bem devagarinho, Amaro caminhou em minha direção. Sorrindo, falou algo que não entendi. Totalmente envergonhada, falei:

– Desculpe, não entendi. Pode repetir?

Ele repetiu aquelas duas palavras que novamente me soaram em grego. Senti minhas bochechas ganharem cor.

– Não entendi. Me desculpe, o que você disse?

Desta vez, suas palavras me soaram em chinês. Eu fiquei tão desesperada que comecei a olhar para os lados. Amaro sorria. Será que estava me sacaneando? Aí, veio correndo uma mulher em minha direção.

– Oi, sou a mãe dele. Amaro está elogiando o lenço que você está usando no pescoço. Ele disse: “bonito lenço”.

Previamente enrubescida, agradeci. Agora, Amaro e sua mãe sorriam para mim. Ele falou mais alguma coisa que não entendi.

– Ele disse que você é muito bonita – disse a mulher, servindo de legenda.

Amaro, a mãe dele e o fotógrafo me olhavam sorrindo. Me senti um aquário. Agradeci novamente. Fiquei com vontade de espantar aqueles sorrisos como se fossem moscas. Desde pequena, me agonio quando elogiam minha aparência. Talvez eu não tenha a capacidade de achar que esse tipo de elogio seja sincero e despretensioso.

O sorriso do fotógrafo e da mulher eu consegui espantar, com minha rabugice. Mas Amaro não. Amaro era meio criança, era teimoso. Ficou me torturando com sua felicidade. Desafiada, entendi que precisava contra-atacar Amaro. Mas… como? Qual o contra-ataque para um elogio tão sincero?

Que tolice. É claro que só uma feiúra poderia desmanchar seu elogio.

– Amaro, eu tenho uma cicatriz na minha cabeça, sabia? Fica bem aqui, no couro cabeludo. – E foi aí que mostrei ao rapaz uma das coisas mais feias da minha existência. A cicatriz que fiz na cabeça, quando era pequena. Aos quatro anos, bati a moringa na mesa e desmaiei. Ficou um buraco careca.

Amaro olhou, interessado. E falou uma coisa que precisou de legenda da mãe dele novamente.

– Ele continua te achando lindíssima, querida.

Ofendida, entendi que Amaro era o namorado que nunca tive. Torci para que ele me pedisse em casamento logo, para que fôssemos felizes para sempre. Mas essa foi a única vez que nos vimos.

Amaro, a porcaria do seu nome não tem nada a ver com a sua personalidade. Você é doce como poucas pessoas. Mas entendo que a fatalidade que você viveu em sua vida, essa sim é amarga. De qualquer jeito, estarei por aqui se decidir que quer fugir comigo. Eu te ajudo com as tuas muletas, e você me ajuda com as minhas. Com amor, Garota Distraída.

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3 Comentários

Arquivado em Repórter distraída

3 Respostas para “A História de Amaro

  1. Letícia

    Lindo este texto, Vanessa! Você consegue como ninguém escrever um texto emocionante e divertido ao mesmo tempo 😉

  2. Que os Amaros surjam sempre em nossas vidas… Seu texto transcende a a beleza das palavras talhadas com maestria.

  3. Outro grande texto, dessa excelente Garota Distraída!

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