O Quebra-cabeça de Aninha

(Republicando, a pedido de Ronaldo)

 

Aninha tinha três anos, cabelos encaracolados e a perna esquerda paralisada. Era uma vítima da paralisia infantil, tema de minha matéria daquela semana. Aninha estava naquela fase em que a criança é humorista de primeira – ela começava a entender o mundo e fazia observações inocentes e extremamente engraçadas.

A menina morava com a mãe e um cachorrinho em uma casa pequena, simples e arrumada. Assim que o fotógrafo e eu nos apresentamos à mulher, Aninha andou em minha direção – mancando levemente – e disse que o cachorro tinha “um buraco no bumbum”. Morta de rir, pedi para que ela me mostrasse o cachorro e apontasse para o estranho buraco, mas meu colega fotógrafo cortou minha brincadeira, lembrando bem humorado que talvez não fosse de bom tom.

Aninha tinha um triciclo rosa. Sua perna esquerda não dobrava, por isso, apenas a perninha direita empurrava o pedal. Mas a expressão no rosto da menina em nada lembrava uma vítima da paralisia infantil. Era mais feliz que nós todos juntos. “Vocês podem me dar uma moedinha, para eu colocar aqui?”, pediu gentilmente Aninha. O fotógrafo corrigiu: “Aí não vai moeda, Aninha, aí vai a chave da sua supermoto!” A menina retrucou: “É o que você pensa”, roubando risadas de todos nós.

A mãe da criança, com uma mistura de culpa e tristeza, falou o quanto queria que a filha tivesse uma vida normal. Separada, empregada doméstica e com sonhos abortados, nem parecia a mãe de uma garota tão feliz. Talvez Aninha precisasse ensinar umas lições para ela. E para todos nós, que andamos eretos sobre duas pernas saudáveis e reclamamos dos dias chuvosos como se estivéssemos no funeral do sol.

“Você é criança também?”, me perguntou a menina. “Não, Aninha, faz tempo que não sou mais criança”, respondi. Aninha ficou confusa. “Mas você tem cara de criança”, disse ela. Rindo, eu nem soube o que explicar. Só gaguejei que talvez fosse uma criança mesmo. Era como eu me sentia! Teria Ana um olho biônico para entender a alma das pessoas também?

Aninha mancava, mas suas estripulias não se apequenavam por conta disso. Fiquei alguns minutos observando a menina brincar, e tentei entender. Se fosse um adulto com uma perna recém paralisada, talvez estivesse se apoiando tristemente em uma bengala e em um ponto final. Mas Aninha não – Aninha era uma exclamação perfeita, com sua perninha dura.

Como qualquer outra criança, Aninha ainda não conhecia o peso da tristeza. A tristeza ainda não era uma peça em seu quebra-cabeça. Inocente e feliz, essa menina loira de olhos pretos só tinha peças bonitas em seu quebra-cabeça rosa. Mas é claro que mais cedo ou mais tarde, Aninha precisará encaixar a tristeza em seu jogo – todos nós precisamos passar pela lição da lágrima verdadeira. Ela dá o real sabor ao dia a dia, assim como a pitada de sal dá melancolia ao bolo de chocolate.

A tristeza é aquela peça que parece defeituosa, mas se encaixa muito belamente ao desenho final do quebra-cabeça.

Ao nos despedirmos de Aninha e sua mãe, a garota precipitou-se à janela para nos dar tchau. Abanou a mão até dobrarmos a esquina. Com o coração em transe e cheio de interrogações, refleti sobre os defeitos que podem acometer nosso corpo ou nossa mente. Entendi que, provavelmente, essa perninha paralisada de Aninha seria a fortaleza de seu caráter, a poesia de sua alma, o pé de cabra que arrancaria preconceitos alheios.

Aninha, saiba que você sofrerá bullying, saiba que muita gente terá pena de você, e muita gente por outro lado não terá nenhuma pena de você. Aninha, saiba que nossos defeitos físicos, geralmente, traduzem uma alma forte e inesquecível. Aninha, saiba que as pessoas mais apaixonantes são aquelas com defeitos visíveis. Saiba que talvez você tenha poucos amigos, mas todos eles serão os que você precisa. Saiba que você é uma personagem da vida real, que precisará provar duplamente ou até triplamente que você é muito capaz, mas que tudo isso só servirá para fortalecer o fato que a poesia da vida está em pessoas como você. Com amor, Garota Distraída.

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Repórter distraída

Uma resposta para “O Quebra-cabeça de Aninha

  1. A poesia da vida… As vezes é disso que precisamos para vermos cor em tudo que esta ao nosso redor… O homem, depois de certa idade tem a mania insuportável de enxergar em tons acinzentados.
    As cores passam a ser sinônimo de luto, em verdade, percepções acizentadas de um mundo colorido.
    Que Aninha carregue consigo percepções multicoloridas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s