Como Voltei no Tempo

Para a maioria dos mortais desse gigante planeta Terra, existem duas maneiras de voltar no tempo. Uma: ouvir a música que te lembra este período para o qual deseja voltar. Outra: fechar os olhos e abrir o sorriso para a lembrança que passa, como um filme, por trás de suas pálpebras.

Fora isso, cada pessoa encontra, em sua trajetória, pequenas maneiras de voltar no tempo e reviver sensações. Escrevo isso porque essa semana voltei no tempo. Foi rápido, porém inesquecível. Foi uma situação arquitetada com o talento de cirurgião dessa entidade chamada de “coincidência do universo”.

Foi o seguinte. Meus pais haviam chegado da praia, depois de quase um mês lagarteando sob o sol e o calor da vida boa. Fui visitá-los, com saudade. Cheguei na porta do apartamento e, antes de abrir a porta, percebi que eles estavam ouvindo música – a televisão deveria estar ligada em algum canal musical.

Sorri, sozinha, pensando: bom demais ter pais que amam a arte musical e a valorizam assim como eu.

Assim que abri a porta, percebi que estava passando na televisão o videoclipe da música “Woman in Chains”, do Tears for Fears. Uma música que embalou o comecinho da minha adolescência – eu tinha lá meus 11 ou 12 anos. Ou seja: aí estava a primeira engrenagem que possibilitaria a minha volta no tempo, algo que não planejei. Algo dentro de mim fez “clic”…

Assim que minha mãe se deu conta da minha presença, veio rapidamente ao meu encontro e me abraçou, sorrindo. Depois, olhou-me nos olhos, com o sorriso ainda perfeitamente desenhado em sua pele morena. Os olhos castanhos dela se projetaram para dentro da água verde que são os meus olhos. E esse foi o gancho número dois. Assim como a mão materna puxa para fora da água a criança que se afoga, os olhos de minha mãe me tiraram da mesmice do dia a dia e me levaram para um não-lugar.

Fui suavemente envolvida pelo perfume de baunilha, que é a trilha aromática de quase todas as infâncias do mundo.

Aí eu me dei conta que a nave espacial que me levaria para esse outro tempo estava quase embarcando, estava quase saindo de seu porto, e eu era a convidada da vez. O que eu poderia fazer? Não se luta contra uma coisa dessas. É natural da vida, assim como a paz, o amor e a doçura da vida. Não se luta contra o altruísmo que está no mapa astral de um ser humano.

Foi aí que colaborei para que a viagem de realizasse. Fechei os olhos. Sorri. E continuei abraçada em minha mãe, com a cabeça deitada em amor sobre o seu ombro.

Deve ter durado apenas alguns segundos, no cronômetro humano. No relógio da máquina do tempo, foram tantos outonos.

Aterrissei na Terra diferente – a gente sempre volta diferente de uma viagem no tempo. Horas mais tarde, eu percebi que havia ganhado uma marquinha de expressão horizontal, ao lado do olho esquerdo. Brotaram algumas violetas nos vasos da minha inconsciência, e a semana inteira ficou meio amarela, com o sabor da baunilha grudado em minhas narinas.

Faça uma viagem no tempo, se tiver a chance. Não fuja disso.

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2 Comentários

Arquivado em Distrações

2 Respostas para “Como Voltei no Tempo

  1. Gostei de me saber capaz de distinguir aromas que lembram frutos vermelhos ou baunilha ou por a fora.

  2. sta

    oiiiii
    Vanessa querida eu vivo viajando, sempre com um pé cá outro lá na lembrança, mas só e geralmente boas lembranças, elas me pegam e me levam pelos cheiros, por infinitos acordes, cor do dia, brisas e ventos. bj grande!

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