Arquivo do mês: maio 2012

Votação do Quarto Concurso

Os textos selecionados estão a seguir. Recebi ao total 49 textos, um mais legal do que o outro. Parabéns e obrigada a todos! No final desta postagem, vote no seu preferido. O resultado sai no dia 7 de junho. O mais votado ganha “Todos os Fogos o Fogo”, de Cortázar. Boa sorte a todos!

LOUCURA

Entre o sono e a vigília, remontei a trajetória da existência. Diversos quadros que, mesmo distantes, permaneciam dinâmicos e gritando dentro de mim. A contenda se situava nas escolhas pretéritas, no desenrolar dos desejos, na anulação dos frêmitos, na incompletude de ser. E, ao recuar no tempo, mais compreendia o que não era meu e, desse modo, violentava-me compulsoriamente, como se não houvesse mais alternativas. E sem experiência nova que alçasse voo futuro, o que se tinha era uma matéria plasmada no vazio.

(Jéferson Dantas)

Vida enlouquece loucura

Acordamos.

Seguimos metodicamente um inflexível roteiro diário de trabalho de estudos de relações de julgamentos de xingamentos de excrementos de aborrecimentos de maldições exigido por uma sociedade socialmente social socializante socializadora.

Comemos e dormimos.

Acumulamos comida em nossos estômagos em grande quantidade para ser digerida percorrendo nosso ventre nossas mentes até se materializar em merda assim como acumulamos dinheiro que é merda que vira merda merda e merdas para depois encostarmos nossos crânios em travesseiros de pena de ganso de pena de galinha de pena de nós mesmos achando que vivemos e não corremos que vivemos e não sofremos que vivemos e não enlouquecemos que vivemos essa vida e que isso não é loucura.

(Murilo Reis)

Sugou um balão de gás hélio na festa da empresa.

Fez mira e foi em direção a chefe do chefe do seu supervisor, que bebia espumante sozinha.

Plano divulgado, aposta feita e expectativas em alta.

Faltava a distância de uma capivara e meia, quando pensou na filha.

Sentou e suspirou com voz do Pato Donald.

(Jin Nunes)

Ignorância

Mal sabem sobre tudo o que acontece aqui dentro. Sobre quando saio voando e mergulho e nado e rodopio e corro e me dissolvo e volto a me formar num universo de sentidos que sinto sem medida. Mal sabem sobre todas as pessoas que eu conheço ou sobre quando sou alguma delas, ou todas, e as histórias que vivemos e os lugares para onde vamos e voltamos sem que ninguém perceba. Mal sabem que quando explodo num suspiro perto do ouvido de alguém só quero expressar aquilo que, de tão claro, não é visto.

E se então me acusam de gritar feito uma louca, sigo sem entender onde está a sanidade em engolir a vida num silêncio oco e seco.

(Cecília Oliveira)

Que não te tinhas sal, que em ti não sentias o doce. Ponderado, obtuso, excluso.

No ofício um começo, novo vertiginoso.

Detento do navio onde eras capitão e tripulação, até o naufrágio em exato chute bicudo, gritaras e urraras e não se lia. Ardia. Um dia.

Dois

Três

Minutos e o susto.

(Luiz Augusto Estacheski)

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“Relato do Sol” será lançado em Florianópolis (SC)

Amigos de Floripa: meu livrinho será lançado na capital catarinense no mês de julho. O lançamento que seria no dia 14 de junho teve de ser adiado. Aguardem por mais informações.

Quem puder, compareça para ver essa blogueira distraída.

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Faz dois anos que me apaixonei por ele

Faz dois anos que me apaixonei por Davi.

E lembro com tanta vivacidade do dia que o vi em minha frente pela primeira vez. Ele é do meu tamanho, então tive o privilégio de olhá-lo nos olhos sem ter que erguer a cabeça. Os olhos de Davi são uma mistura de azul com cinza e açúcar. Estava um dia ensolarado; e os olhos dele tinham a cor do meio-dia. Seu olhar azul foi o que primeiro me chamou a atenção. Depois, a voz de veludo.

Eu jamais imaginei que o veludo de sua voz seria meu cobertor nos dias seguintes. A voz de Davi se transforma no bordado das minhas orações.

Davi é tatuado, tem piercing e calos nas mãos. O que piora ainda mais a situação dele é que ele tem sorriso de ladrãozinho, daqueles que roubam o lanche da gente, para depois devolver com cara de quem é muito santo. No fim das contas, todo o seu apetrecho modernoso contrasta com critérios de personalidade rigorosos e até antiquados que ele carrega no caráter. Por exemplo: Davi se recusa a visitar uma cartomante, mesmo que apenas por brincadeira. Até aí, tudo bem. Mas acho isso tão contradizente com o piercing que brilha em sua sobrancelha esquerda.

Me apaixonei perdidamente por Davi no dia em que ele me olhou com muita seriedade e disse: não se apaixone por mim. Foi com raiva, indignação e dentes rangendo que retornei seu olhar dizendo: não me apaixonei.

Fiquei sabendo depois que Davi falou isso necessariamente para procurar em mim alguma força justiceira que fizesse nascer a planta do amor proibido. Deu certo. Caí igual um patinho.

Cada pessoa carrega, em sua essência, três chances para fisgar um ser humano para seu coração. A primeira é mostrando uma foto sua de infância. As crianças carregam, em seu rostinho redondo, um poder amoroso que talvez tenha nascido junto com o capítulo de Gênesis, na Bíblia.

A segunda chance de ganhar a paixão alheia é chorando. Isso mesmo, pode notar: parece que a gente gosta mais de uma pessoa, depois de vê-la chorando. Chorar é mostrar o documento que prova que você tem um coração – e bem grande. Ver uma pessoa chorando é quase o mesmo do que entrar no quarto dela e ver sua gavetinha de segredos. Chorar é muito íntimo e amoroso. Quando alguém chora, automaticamente a pessoa do lado se torna o consolo, o que é muito nobre.

A terceira chance de apaixonar alguém ocorre durante uma madrugada em que se olha o céu. Porque olhar o céu de madrugada também é testemunhar a intimidade do universo – e da pessoa ao seu lado.

Tudo isso vivi com Davi, e garanto aqui, para vocês, que sou loucamente apaixonada por esse homem, o meu violeiro encantado, que merece todos os textos apaixonados do mundo.

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Quarto Concurso Cultural (até 31/5)

Para concorrer a “Todos os Fogos o Fogo”, de Julio Cortázar, é preciso escrever um texto criativo sobre LOUCURA. Os textos devem ter no máximo CINCO FRASES.

Os textos devem ser enviados para o e-mail vbencz@gmail.com até 31/5!

Os três melhores serão colocados em votação aqui no blog! Boa sorte a todos.

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Não Rasgue as Páginas

Escrevo em diário desde a infância: era minha prevenção contra a falta de memória.

Em pequena, resolvi que registraria meus dias apenas para me divertir. Mais tarde, por prevenção – não queria que os detalhes da minha vida se perdessem pelo buraco negro da memória. Um tempo depois, escrevia por puro prazer, porque aprendi que as coisas que esquecemos às vezes merecem ser esquecidas. E hoje escrevo por desespero. Os dias têm passado e se perdido pelos meus passos. Deus! Já estou com quase 28 anos e parece que mal vivi.

O problema desse registro louco e desenfreado é que, realmente, os diários não me deixam esquecer os erros que cometi.

Foi o seguinte: em adolescente, eu namorava um menino. Um dia, cansei dele e conheci outro rapaz. E errei ao me relacionar com esta segunda pessoa, sem ter terminado com a primeira. Antes que joguem pedras em mim, posso tentar me explicar? Eu era adolescente! Pronto, expliquei. Tinha uma cabecinha vazia e afoita.

Tinha 15 anos de vida e 15 parafusos a menos em minha estrutura mental. Na época, lembro que não consegui contar a ninguém esse fato. Apenas terminei o relacionamento com o menino que estava antes e fiquei sozinha, pensando. Construindo um muro que hoje se chama caráter. É claro que tudo isso foi registrado em um diário com capa azul, ilustrada com passarinhos. Com letras trêmulas, escrevi, palavra por palavra, o registro de minha primeira infidelidade.

O tempo passou, as páginas do diário de capa azul acabaram, e eu migrei para outra temporada: um caderno de capa amarela e 100 folhas pautadas em branco.

Anos depois, ao reler o caderno dos meus 15 anos, relembrei da infidelidade. Este fato estava escondido atrás do muro do meu caráter, escondido pelas letras feias e trêmulas, escondido pelo argumento absurdo de que somos jovens e precisamos conhecer outras pessoas. Ao ler isso, fiquei com tanta raiva e vergonha, que quis rasgar o diário inteirinho. Me deu um baita medo, porque o diário estava recheado com aquela letra extravagante que era a minha caligrafia durante as espinhas. Comecei a ler, sôfrega, aquelas páginas, procurando outro erro mortal, outro pecado capital. Mas não achei; apenas alguns erros de português.

Com uma caneta azul, muito parecida com a usada para narrar a infidelidade, rabisquei meu relato traidor. Bem rabiscadinho, deletei do diário o beijo arrebatador com sabor de bala freegells, o frio na barriga, o perfume diferente, o chupão perto do ombro, os planos de eternidade que duraram apenas algumas semanas, a palavra “jeito” escrita com a letra g.

Assim que terminei de apagar isso do roteiro da minha vida, me arrependi. Me senti traidora comigo mesma. Eu cometi um erro, sim, mas e daí? É passado… quem é que não tem um muro pichado de vermelho dentro de si? No meu, estava pichado um coração vazio.

Com o coração arranhado, segurei o diário diante dos meus olhos, arrependida. Aquelas páginas rabiscadas, escondendo meu segredo, eram patéticas. E foi aí que um bilhete caiu de dentro das entranhas daquele caderno grosso e colorido. Devagar e assustada, abri o bilhete. Lá de dentro, caiu um papel de bala. No bilhete, a letra não era minha. Era uma caligrafia pequena, masculina e objetiva, como que escrita a faca. Dizia:

“Você é uma pessoa muito apaixonante. Determinada. Guarde meu beijo junto com esta bala”.

Como se apaga um beijo? Não se apaga.

É isso. Nunca apague o seu passado. Não rasgue o roteiro da sua vida. Nós somos a colcha de retalhos com momentos escuros e amarelos e vermelhos e azuis, vivendo lado a lado. Não rasgue as páginas. Não rasgue as páginas. Não rasgue as páginas. Nunca.

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O Bisturi do Tempo

A gente confirma que o tempo andou quando ele deixa pegadas indeléveis pelo nosso rosto.

Eu descobri, recentemente, duas pegadas suaves de um tempo que caminhou pela minha pele. Ele quis deixar a assinatura de que nenhuma infância dura para sempre. A primeira dessas pegadas eu flagrei semana retrasada. Ela está de pé entre minhas sobrancelhas, bem ali na esquina que se curva quando estou braba ou estressada. É bem de levinho; parece mais a renda de um delicado vestido.

Já a outra é o carimbo inquestionável que de eu, definitivamente, ri muito nessa vida. Ri demais. Ri tanto, que a dobrinha da bochecha veio morar comigo, no canto esquerdo da boca. Mesmo quando não estou rindo, lá está a preguinha, me forçando a rir com cara de desatenta. Esta é mais forte do que a da sobrancelha. É um talho que pode ser verificado por qualquer pessoa, mesmo quando me vê fugazmente, andando com distração do outro lado da rua.

O tempo é um escultor meio sem jeito. Os dias, os meses e as estações passam, e este escultor invisível marca nosso rosto durante a noite. Sem aviso, sem marcar um horário, sem se dar conta que meus armários estão socados de produtos antiage e hidratantes que tentam afugentar o tempo. Nada disso adianta: é tudo em vão. Esse escultor surge de dentro dos meus sonhos e, com atenção, examina meu rosto. Com sua faquinha afiada, marca o mapa da minha vida em meu rosto desprotegido.

Quando acordo, já era: lá estão os dias que vivi demais, os risos que ri loucamente, os estresses que chorei demais, as dores de cabeça que desabaram com espinhos pelas sobrancelhas.

Ainda não tenho 30 anos, e sei que muitas manhãs de susto virão. Sei que chegará um dia em que o escultor chamado Tempo avançará seu desenho em formato de buquê de flores em meu rosto. Por enquanto, tenho apenas dois brotinhos – até que são charmosos. Algumas pessoas, todas também com a cicatriz da faca do tempo, já elogiaram o comecinho da obra de arte do tempo pela minha pele.

Não sei quê flores o senhor Tempo esculpirá em minha expressão assustada … talvez violetas simples, para combinar com os traços do meu rosto, que não são de grande sofisticação. O desenho de meu rosto é redondinho e objetivo, como o de uma criança.

Mas tenho méritos: só espero que o escultor não mexa na covinha que mora do lado direito da minha boca, este furinho que se faz presente sempre que dou risada. Se ele sumir, aí sim devo me preocupar. Aí significa que, ao invés de caminhar para frente, encarando o jardim do tempo, eu estarei voltando, estarei mergulhando em uma não-identidade, estarei me transformando em alguém sem genética, sem passado, sem ontem, sem ano passado, sem velinha de 11 anos.

E quem faz plásticas? Ah, esse pessoal é espertalhão de mais. Quem troca o bisturi do tempo pelo do cirurgião está cometendo uma violação da vida, na minha opinião. A violação do ser humano. Um erro que pode estar no manual de instruções da vida.

Se eu puder escolher o local para minha próxima marca de expressão, quero que seja no canto externo do meu olho, deitadinha, mostrando que não apenas ri – quero que esta marca mostre que eu quase morri de tanto rir e de tanto amar.

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