Arquivo do mês: junho 2012

Abrace-me

Com os dedos compridos e enrugados tocando a testa, minha avó declarou, como quem finalmente geme de dor: “a maioria dos meus amigos já morreu”.

Eu e meus primos nos olhamos, vendo quem conseguiria tramar o melhor consolo primeiro. Mas todos permaneceram quietos, enrolados em pena e ingenuidade. Afinal, a velhice é algo impossível de se consolar, pois ela própria já é um consolo, um cobertor enrugado que abraça o ser humano com mãos mornas.

Visivelmente deprimida, a senhora abraçou-se ao violão e, com os dedos que antes seguravam sua testa, agora dedilhavam notas no instrumento. Arranhou no violão balbucios melancólicos, quadrados, meio poeirentos. Cantou uma música que puxou uma lembrança do fundo do lago da minha memória.

– Vem meu ursinho querido, meu companheirinho, ursinho Pimpão…

Meu sorriso aflorou como que surgindo do fundo do mar. Meus primos também sorriam com esta cor. Minha avó desistiu de tocar a canção pela metade, e abandonou o violão, como quem abandona um carinho, com arrogância.

Foi até o armário da sala e puxou um grosso álbum de fotos, que cheirava a mofo e lágrima antiga. Abriu-o e puxou de lá uma foto em sépia, vinda direto do final dos anos 70. Na foto, havia seis pessoas. Minha avó, jovem e luminosa, com um vestido rodado; meu avô, ansioso, e os quatro filhos, todos adolescentes. Um deles era o meu pai. E ele usava uma camiseta xadrez. Estava com os cabelos compridos e rebeldes emoldurando o rosto.

– De qualquer jeito – falou minha avó, tentando sorrir –, sei que as memórias não morrem.

A confissão singela me tocou, assim como a constatação de que eu sou a repetição do meu pai – não apenas pela continuidade do sangue, mas pelo mesmo jeito de se vestir.

A linda foto ficou estampada em meu coração; fez brotar ali uma flor em sépia, com cheiro de mofo e lembrança.

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Livros que selecionei (11/6)

Para quem pediu, aí estão os livros que selecionei como alguns dos melhores que li durante a fase de universitária:

 

Cem anos de solidão – Gabriel García Márquez

Viver para Contar – Gabriel García Márquez

Como Contar um Conto – Gabriel García Márquez

O Jogo da Amarelinha – Julio Cortázar

A Louca da Casa – Rosa Montero

A vida que ninguém vê – Eliane Brum

Chega de falar de mim – Jancee Dunn

Um Teto todo seu – Virginia Woolf

História da Eternidade – Jorge Luis Borges

Paula – Isabel Allende

Menino de Engenho – José Lins do Rego

O Conto da Ilha Desconhecida – José Saramago

Dois irmãos – Milton Hatoum

Biografia do Slash

Biografia do Ozzy Osbourne

Clarice Lispector

Guimarães Rosa

Lygia Fagundes Telles

 

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Vencedor do Quarto Concurso

Quem levou o prêmio do Quarto Concurso do blog foi Jéferson Dantas! Pela segunda vez, ele foi vencedor do concurso. Parabéns e obrigada a todos por levarem a sério e participarem com tanto carinho! Está aí o texto vencedor de “Todos os Fogos o Fogo”, de Cortázar:

LOUCURA

Entre o sono e a vigília, remontei a trajetória da existência. Diversos quadros que, mesmo distantes, permaneciam dinâmicos e gritando dentro de mim. A contenda se situava nas escolhas pretéritas, no desenrolar dos desejos, na anulação dos frêmitos, na incompletude de ser. E, ao recuar no tempo, mais compreendia o que não era meu e, desse modo, violentava-me compulsoriamente, como se não houvesse mais alternativas. E sem experiência nova que alçasse voo futuro, o que se tinha era uma matéria plasmada no vazio.

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